A facilidade de fotografar com o celular mudou a maneira como as pessoas registram o cotidiano, mas não eliminou a procura por profissionais especializados em fotografia. Em Belém, o mercado continua oferecendo oportunidades em segmentos como casamentos, ensaios de gestantes e casais, eventos e produção de imagens para empresas. Para quem trabalha na área, entretanto, fazer boas fotos é apenas uma parte do negócio: conquistar clientes, calcular os custos e demonstrar o valor do serviço são desafios que acompanham a profissão.
Os fotógrafos João Agapito e Haline Oliveira começaram a investir na área a partir de experiências pessoais e descobriram, ao longo do caminho, que transformar o interesse pela fotografia em fonte de renda exige mais do que adquirir uma câmera. Os dois apontam a construção de uma clientela, a divulgação do trabalho e a valorização profissional como etapas importantes para conseguir espaço em um mercado competitivo.
Formado em Biomedicina, João decidiu investir na fotografia como profissão depois de concluir a graduação e perceber que a área não oferecia o retorno que esperava. Até então, os trabalhos fotográficos funcionavam como renda extra.
"Comecei como um hobby. Fotografava pessoas, fotografava gente. Aí começaram a surgir as propostas e então eu fui começando a precificar", conta.
A trajetória de Haline também começou com a vontade de transformar um interesse pessoal em trabalho. Durante a pandemia de covid-19, ela passou a considerar o empreendedorismo na fotografia. A primeira experiência mais concreta ocorreu no aniversário da sobrinha, quando alugou uma câmera para registrar a comemoração. Depois, comprou o primeiro equipamento próprio, uma câmera usada que custou R$ 1,2 mil e veio acompanhada de uma lente básica.
"Aproveitei pra juntar o útil ao agradável, das coisas que eu gostava de fazer com um trabalho", relata.
Conquistar clientes exige divulgação e contatos
Depois de começar a fotografar profissionalmente, um dos principais desafios é encontrar pessoas interessadas no trabalho. Tanto Agapito quanto Haline destacam a importância das indicações e do contato direto com potenciais clientes para ampliar a rede de oportunidades.
Haline também atribui parte importante do próprio crescimento ao chamado boca a boca. No início, ela chegou a procurar potenciais clientes diretamente pelas redes sociais e oferecer serviços por valores baixos, enquanto adquiria experiência e tentava tornar seu trabalho conhecido.
A divulgação digital, nesse contexto, funciona como uma extensão das indicações. O Instagram permite apresentar o portfólio, mostrar os bastidores dos ensaios e eventos e ajudar o público a conhecer o estilo do profissional antes mesmo de entrar em contato para contratar um serviço.
Agapito considera a rede social uma ferramenta importante na decisão dos clientes. Ele conta que já participou de situações em que a escolha de um fotógrafo para um casamento foi feita a partir da comparação dos portfólios publicados na plataforma.
"Já tive trabalhos em que fui contratado pelas redes sociais. É o nosso portfólio, é por onde os clientes conseguem conhecer nosso trabalho", diz.
Haline também utilizava as redes sociais para publicar imagens, apresentar a própria trajetória e mostrar como conduzia os trabalhos. A estratégia, segundo ela, ajudava a construir confiança antes mesmo da primeira conversa com o cliente.
Diversificar os serviços ajuda a manter a renda
A variedade de demandas é outra característica do mercado fotográfico. Enquanto alguns profissionais conseguem se especializar em determinados segmentos, quem ainda está construindo uma clientela pode precisar aceitar diferentes tipos de trabalho para manter a renda.
Com cerca de um ano de atuação na fotografia como atividade principal, Agapito ainda trabalha com serviços variados. Além dos próprios contratos, atua como segundo fotógrafo em eventos de outros profissionais, o que permite ganhar experiência e participar de diferentes produções.
Embora tenha interesse especial por casamentos e ensaios de casais, ele ainda não consegue restringir sua atuação aos segmentos de preferência. A expectativa é conquistar, gradualmente, mais espaço nas áreas com as quais se identifica.
"Eu gosto de fotografar casamentos e momentos do casal. Então, gostaria de investir nisso e fazer o meu portfólio baseado nisso. Mas, hoje, tenho que pegar todos os trabalhos", explica.
Haline identifica os ensaios de gestantes, as fotografias de casais e os serviços para empreendedores entre as demandas que encontra em Belém. No caso das empresas e dos profissionais autônomos, as imagens são utilizadas na divulgação de produtos, serviços e marcas, especialmente em materiais publicitários e nas redes sociais.
"A oferta de serviços personalizados permite que o fotógrafo vá além do registro e desenvolva propostas específicas para diferentes públicos”, disse a fotógrafa.
A diversificação também pode envolver campanhas sazonais, como ensaios temáticos de Natal e Dia dos Namorados, além de brindes e experiências especiais. Segundo Haline, essas iniciativas ajudam a criar novas oportunidades de venda e movimentar a agenda durante o ano.
A fotógrafa afirma que já consegue se sustentar exclusivamente com a atividade antes de começar a trabalhar em uma agência. Para ela, construir uma renda estável é possível, especialmente quando o profissional consegue ampliar as formas de comercializar o serviço.
"É possível ter uma renda estável trabalhando com a fotografia, ainda mais quando tu tens um estúdio e outras formas de vender esse serviço", avalia.
Preço precisa considerar o trabalho antes e depois das fotos
A definição dos valores cobrados é um dos pontos mais delicados para quem trabalha com fotografia. Além dos custos com equipamentos e deslocamento, o profissional precisa contabilizar o tempo de atendimento, a execução do serviço, a seleção das imagens e a edição antes da entrega.
Haline explica que considera a distância até o local, o dia e o horário do trabalho, o tempo de permanência no evento ou ensaio e as horas dedicadas ao tratamento das fotografias. O orçamento, portanto, não se limita ao período em que ela está fotografando.
"Eu precifico por hora, pelo tempo que gasto ali. O meu tempo vale dinheiro. O tempo que estou fazendo o trabalho fotográfico poderia estar editando meu material, o que também me garantiria um valor", explica.
Haline relata que também encontra clientes que tentam definir quanto o serviço deveria custar sem considerar o trabalho envolvido. Para ela, a responsabilidade é especialmente grande em eventos que não podem ser reproduzidos.
"Se der errado, tu perdes tudo. O evento não fica, o DJ não fica, os doces não ficam, o buffet não fica. Só ficam as fotos e os vídeos. Então, a gente tem uma responsabilidade muito grande de guardar as memórias do cliente", afirma.
Celulares e inteligência artificial mudam a percepção sobre a fotografia
Agapito reconhece que o celular democratizou a fotografia, mas avalia que a qualidade do aparelho não substitui o conhecimento de quem está por trás da câmera.
"Quando tu contratas um fotógrafo, tu contratas o estilo dele, as ideias dele, o olhar dele. Para ele chegar com esse olhar e fotografar do jeito que fotografa, passou por muita coisa. Ele estudou, fez curso, desenvolveu técnicas", afirma.
Haline também considera que a diferença não está somente na qualidade técnica ou na edição. Para ela, a contratação de um profissional envolve a experiência do ensaio, a orientação durante as fotos e o cuidado para registrar situações que tenham significado para o cliente.
"Tu podes até ter um celular com uma qualidade ótima ou uma inteligência artificial que vai fazer aquilo que tu queres, mas tu nunca viveu a experiência de um ensaio", argumenta.
A fotógrafa explica que o trabalho inclui orientar poses, escolher cenários e conduzir o cliente durante a sessão. Em ensaios de família, casais e gestantes, por exemplo, essa participação ajuda a construir uma experiência que não se resume ao resultado visual.
"O ensaio é um momento que tu tens ali contigo mesmo, um momento para viver aquela experiência. Se for com um familiar, com teu marido ou com teu filho, é muito além de uma imagem. É uma memória, é aquilo que fica para a pessoa quando tudo acaba e, quando ela olha, relembra o sentimento que teve", diz.
Os dois profissionais, portanto, não descartam a importância dos avanços tecnológicos, mas defendem que o equipamento deve ser entendido como uma ferramenta. O diferencial está na combinação entre conhecimento, criatividade, atendimento e capacidade de produzir imagens de acordo com a proposta de cada trabalho.
Álbuns e fotografias impressas ainda têm espaço
Apesar de a entrega digital continuar sendo uma escolha frequente, a fotografia impressa permanece como uma possibilidade para ocasiões especiais. Casamentos, festas de 15 anos e registros de nascimento estão entre os momentos em que alguns clientes procuram álbuns para guardar as imagens.
Haline afirma que existe demanda, mas a adesão é limitada pelo preço. Em algumas ocasiões, clientes desistiram da compra mesmo quando o orçamento considerava apenas o valor cobrado pela gráfica, sem incluir uma margem adicional pelo trabalho da fotógrafa.
"Não vou dizer que todo mundo quer um álbum fotográfico hoje em dia. Mas algumas pessoas que procuram fotografias de eventos como casamento sempre procuram por álbum", relata.
