A experiência da empreendedora Mariella Leal como mãe atípica foi um dos pontos de partida para a criação de uma empresa especializada em alimentação saudável infantil, em Belém. Em meio aos cuidados com o filho e à administração do negócio, ela encontrou no empreendedorismo uma forma de conciliar a rotina familiar com a geração de renda, além de oferecer opções mais nutritivas e práticas para outras famílias. Hoje, o Mini Menu é a renda dela enquanto concilia a rotina para cuidar do pequeno Kalil, de 7 anos, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A empreendedora lembra que começou a empreender durante a pandemia, em 2020, após ser desligada do emprego com carteira assinada e precisar de uma nova fonte de renda. A ideia do negócio surgiu a partir do diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) do filho. A partir disso, ela passou a preparar em casa alimentos para a criança, sem leite, glúten e derivados do leite. Os produtos também começaram a ser consumidos por outras crianças da família, que aprovaram as receitas.
Foi a partir disso e da necessidade de gerar renda, Mariella recebeu a sugestão de comercializar os alimentos, dando início ao empreendimento. “Comecei a produzir em casa e começou a dar certo. Comecei a comercializar, deu certo, mas chegou um momento em que não conseguia mais dar conta de tudo, da produção e da comercialização. Comecei a pesquisar empresas no mercado brasileiro que tivessem a mesma proposta e encontrei a Mini Menu”, relembra.
“Eu tenho um contrato de exclusividade e posso revender os produtos em Belém, utilizando a marca. Fiquei durante três anos trabalhando apenas com delivery, vendendo da minha casa, do meu apartamento. Há quase quatro anos, montei a primeira loja física, que foi no Umarizal. E, a partir daí, a gente começou”, acrescenta a empreendedora.
Cuidado
Segundo Mariella, os produtos comercializados são, em sua maioria, sem leite, sem glúten e sem açúcar. Ela explica que o catálogo é pensado para diferentes fases da infância, desde a introdução alimentar, a partir dos seis meses, até crianças maiores. Para adoçar os alimentos e substituir o açúcar, a empresa prioriza ingredientes naturais, como tâmaras e uvas-passas. O catálogo de produtos da marca também reúne itens de outras marcas com proposta semelhante, principalmente snacks e biscoitos.
“O nosso carro-chefe são as marmitinhas aqui congeladas. A gente também tem opções para os bebezinhos que estão começando a introdução alimentar. Tem canjinha, creminhos de frango, de espinafre, que é uma opção vegana, e risotinho de salmão com alho-poró e laranja. Tem muitas opções, um cardápio bem variado. Há, ainda, a linha de amassadinhos”, relata sobre as opções.

Rotina dobrada
Toda essa rotina de empreendedora também é dividida com os cuidados com o filho, Kalil, que, por conta do TEA, precisa de atenção e acompanhamento constantes. Segundo Mariella, o empreendedorismo proporciona mais flexibilidade para dedicar tempo ao filho, que realiza acompanhamento terapêutico semanal. Além da atividade como empreendedora, ela também mantém um emprego com carteira assinada. Ter o próprio negócio, segundo ela, também representa uma forma de garantir mais segurança e uma renda complementar.
“É um desafio muito grande, porque, quando recebi o diagnóstico dele, ele tinha dois anos. Então, eu estava começando nessa área de empreender e também fazendo as duas coisas: buscando o diagnóstico, investigando o autismo nele e, por outro lado, caminhando com a loja, começando a empreender. E eu ainda trabalhava só com delivery e, obviamente, sozinha, não conseguia. Eu ainda me sinto privilegiada de poder contar com a ajuda de uma rede de apoio, com a ajuda de pessoas”, frisa.
Rede de apoio
Sobre o dia a dia entre uma tarefa e outra, Mariella relata. “Para eu conseguir estar presente no tratamento dele, acompanhar o tratamento dele como deveria, como eu gostaria, eu preciso ter uma flexibilidade de horário que a loja me permite. Mas, depois que eu me vi sozinha, sendo mãe solo e atípica, foi muito mais difícil, porque preciso planejar minha semana toda com ele. Preciso levá-lo à clínica de manhã, ele faz integração na clínica. Levo de manhã, vou buscar na hora do almoço, levo depois do almoço e vou buscar à noite”, frisa a empreendedora.
Mariella aponta a falta de rede de apoio como um dos principais desafios para mães atípicas que empreendem. Segundo ela, contar com esse suporte permite conciliar o trabalho com as demais demandas da rotina. “Sem alguém para tomar conta da criança, sem alguém para ficar levando para as terapias, por exemplo, você não consegue. E você vai trabalhar como? Como se vai ganhar dinheiro para sustentar aquela criança? A conta não fecha. Você precisa sair para trabalhar e conseguir botar comida na mesa, comprar fralda, se a criança ainda usa, e comprar medicação, que são remédios muito caros”, conta.
Estímulo às mães
Para mães que vivem a mesma realidade que Mariella, a Lei nº 11.648, sancionada em julho deste ano , criou o Programa Estadual de Estímulo ao Empreendedorismo de Mães Atípicas no Pará, com foco na inclusão social e na autonomia econômica de mães de crianças e adolescentes com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças crônicas. Segundo a empreendedora, iniciativas como essa reforçam o apoio às mães. “Acho de extrema importância tudo o que for para ajudar as mães, para dar um incentivo. Às vezes, nem sempre é financeiro, mas até um apoio emocional”, observa.