Eles querem namorar. E agora?

Quando nossos jovens se apaixonam, eles precisam de orientação

Gil Sóter

O primeiro amor é tema de filmes, enredo de livros, de novelas. A paixão da juventude chega aos corações em uma ebulição de sentimentos e desejos. Para os jovens, é um momento de transição intenso e fundamental. Aos pais, que observam o crescimento dos rebentos, representa um misto de apreensão e hora de encarar o desafio de ver os filhos ganharem asas – e estar por perto para construir um diálogo aberto e de apoio.

Empenhada na construção de laços familiares honestos e próximos, a administradora Neuza Zaccardi conta que conversa sobre os mais diversos assuntos em casa: sexo, autopreservação, autoestima, ciúmes. O “papo reto” busca criar filhos conscientes, autoconfiantes e livres, que possam viver amores construtivos.

“O grande ensinamento é saber lidar com as situações que se apresentem de forma tranquila e leve. Espero que quem chegue avida deles, venha para somar. Que elas continuem estudando, e que os relacionamentos acrescentem coisas boas na vida. Relacionamento é uma coisa que tem ser bacana, divertida, alegre, sem melodrama mexicano. É isso que a gente tenta passar pra elas”, diz Neuza, mãe das jovens Maria Luíza, de 18 anos, Ana Paula, de 16, e do pequeno Christian, de 4 anos.
Para a psicóloga e psicoterapeuta Zildinha Sequeira, o diálogo franco é, de fato, a chave para um relacionamento saudável entre pais e filhos. “A insegurança dos pais existe principalmente para aqueles que não têm um relacionamento aberto com o filho. Então é momento de estar próximo, de ouvir sem julgar, de dar colo, para que o filho possa ver nos pais referências de confiança e amor”, diz.

Neuza Zaccardi e a filha Ana Paula Del Tetto Zaccardi (Naiara Jinknss)

Segundo a psicóloga, é por volta de 13 anos de idade os adolescentes começam a namorar.  A intensidade faz parte da juventude. “Os jovens estão com os hormônios em ebulição, querendo pertencer, querendo se ligar afetivamente às pessoas. Eles são over, tudo é muito intenso, muito grande. O pé no freio precisa ser dado pelo adulto”, diz Zildinha.

Tentar mostrar que essa fase é de descoberta e deve ser vivida com leveza também é algo a ser conduzido pelos pais. “Essa geração é mais desencanada com relação à vida, eles se permitem experimentar. E a adolescência é uma fase de experimentação. Mas não precisa experimentar tudo de uma forma tão intensa. É preciso estar junto, orientá-los e perceber que demandas eles estão trazendo para a gente para que possamos melhor acolhê-los”.

Cada família tem seus valores e rege a forma como os relacionamentos vão se ocorrer, o que será permitido e as regras a serem consideradas. É preciso mostrar aos filhos que um namoro de 13 anos, por exemplo, é diferente de namorar aos 16. “A questão deve ser conversada com os filhos. Como viver a sua sexualidade? Quando? De que forma? Quais as responsabilidades? Quais os limites?”, pontua a especialista.

Mãe de dois rapazes, a jornalista Cybele Puget acredita que os pais devem respeitar a individualidade dos filhos, mas sempre orientá-los sobre como administrar a rotina de forma equilibrada. “O nosso papel é sempre orientar para eles respeitarem o momento certo para tudo. Eles precisam administrar o tempo para o estudo, para o namoro durante a semana, saber eleger a prioridade quando é semana de provas. Eles têm que administrar, deixar para sair final de semana, para não ficar todo o dia só namorando e esquecer o estudo, o trabalho”, explica Cybele, mãe de Lucas, 23 anos, e Renan, 18. “Graças a Deus eles são bem conscientes, eles sabem que estão na hora de plantar para depois colher”.

Cybele e a namorada do filho, Sued Lobo (Naiara Jinknss)

Cybele conta que desde a adolescência de ambos, sempre buscou acolher as noras de forma carinhosa, e que só davam opinião no namoro dos filhos quando a procuravam. “Respeito muito o momento deles, não me intrometo. Eu só dou opinião quando me pedem. Agrado muito as noras. Quando elas vêm almoçar em casa, procuro fazer um prato que elas vão gostar. Eu me coloco no lugar. Eu mimo mesmo, faço carinho, sempre que eu viajo, trago um presentinho”.

“Em resumo: ensine o seu filho a respeitar as mulheres, ensine sua filha a se fazer ser respeitada e a saber detectar um relacionamento abusivo” – Zildinha Sequeira

Lucas Puget e a namorada Sued Lobo (Naiara Jinknss)

Respeito se aprende em casa

“O relacionamento de qualquer pai e mãe é modelo de referência para o filho”, destaca Zildinha. A saúde do relacionamento familiar reflete, então, a forma como os filhos vão conduzir seus relacionamentos. “Se em casa, o pai grita com a mãe, o pai ofende, a trata mal, se o namorado da filha fizer o mesmo, a garota vai achar normal porque foi isso que ela viveu em casa. A reprodução do que é vivido em casa é algo muito recorrente”, alerta a especialista. “A escolha do namorado, a forma como nossos filhos vão se relacionar com eles também têm a ver com o modelo de relacionamento que eles têm em casa”.

De acordo com a especialista, além de receios como gravidez na adolescência, um aspecto central que deve ter a atenção dos pais é a conversa sobre respeitar o espaço do outro, saber lidar com as diferenças, entender os limites afetivos e do corpo, e, em especial, discutir a importância da questão de gênero nos afetos.

“Os pais devem se preocupar também com a forma como os filhos tratam as garotas. Os índices de feminicídio, de abuso contra as mulheres, só cresce. Isso poderia ser reduzido. É preciso ensinar os filhos homens a tratar as mulheres do jeito que a gente gostaria que nossas filhas mulheres fossem tratadas pelos namorados. Respeitar as diferenças é um ponto extremamente relevante. Respeitar a integridade física do outro, a orientação sexual do outro”, diz. “Em resumo: ensine o seu filho a respeitar as mulheres, ensine sua filha a se fazer ser respeitada e a saber detectar um relacionamento abusivo”, destaca a psicóloga.

O empresário Alexandre da Silveira, pai de Alexandre Araújo, 17 anos, garante que está atento à missão. “Procuramos ensinar ao nosso filho o respeito e carinho que ele deva ter por sua namorada, desde o início e final da relação”, diz. “Quando nosso filho pediu sua primeira namorada em namoro, minha esposa marcou um jantar em um restaurante de Belém, providenciou flores e mimos, para que o pedido fosse algo que marcasse o início dessa fase na vida dele e tivemos a certeza que foi especial”, relata.

Alexandre Araújo e seu pai Alexandre da Silveira (Naiara Jinknss)

O pai conta que sempre busca manter o canal de comunicação aberto com o filho. “Precisamos dialogar sempre, estarmos abertos sem sermos invasivos e procurar orientá-los da melhor maneira possível em relação à sexualidade e a afetividade, para que esse processo da adolescência seja encarado de forma natural e prazerosa”, diz.
Ter atenção nesse processo para que ele seja saudável é realmente importante. O começo da vida afetiva e sexual pode significar muito na condução dos relacionamentos futuros. “Se o primeiro namoro for gostoso, o segundo vai fluir com naturalidade. Se o primeiro for abusivo, a coisa será mais difícil. Há garotos e garotas muito jovens que vivem como se fossem casados, cheios de regras, pode isso e não pode aquilo. O adulto deve ajudá-los”, diz Zildinha.

“Precisamos dialogar sempre, estarmos abertos sem sermos invasivos e procurar orientá-los da melhor maneira possível em relação à sexualidade e a afetividade, para que esse processo da adolescência seja encarado de forma natural e prazerosa” – Alexandre da Silveira

A especialista destaca que o amor é um passo fundamental na vida, e essa fase deve ser encarada com alegria e como o começo de um acúmulo de experiências afetivas que vão ajudar os filhos o autoconhecimento necessário para tomar decisões mais assertivas para seu futuro. Tomara que nossos filhos namorem, é assim que eles vão aprender a fazer escolhas no futuro. O dia que eles resolverem casar, eles vão poder comparar: esse aqui é melhor. Na vida, é importante você ter cumplicidade, viver o afeto e a paixão”, diz a psicóloga. “O primeiro namoro a gente nunca esquece. O namoro é uma fase gostosa. A gente tem que aproveitar e permitir que nossos filhos tenham as experiências que a gente considere adequada para a idade deles como uma forma de aprendizado na vida”, conclui Zildinha.

O Liberal
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