Vídeos gravados com celular, dentro de casa e com aparência de conteúdo espontâneo estão se transformando em um novo serviço para marcas que querem vender pela internet. O modelo, conhecido como UGC (User-Generated Content, ou conteúdo gerado pelo usuário), cria uma relação diferente da tradicional entre empresas e influenciadores: o criador produz o material, entrega o arquivo para a marca e nem sempre precisa publicar o conteúdo em seu próprio perfil.
Na prática, o trabalho pode começar com um contato feito pelo próprio criador ou por uma empresa interessada. A partir do briefing, são definidos roteiro, formato e quantidade de vídeos. O material é então gravado e editado pelo profissional e entregue à marca, que pode publicá-lo em seus próprios canais ou utilizá-lo em campanhas de publicidade nas redes sociais.
A atividade também abriu espaço para diferentes modelos de remuneração. O pagamento pode ser feito por vídeo ou por pacotes de conteúdos e, em alguns contratos, há ainda uma cobrança específica pelos direitos de uso da imagem e do material em anúncios. O período de utilização pode ser previamente definido e uma eventual renovação pode gerar um novo pagamento.
O criador de conteúdo UGC Rodrigo Jacenir começou a trabalhar com esse modelo antes de transformar a produção digital em sua principal fonte de renda. Segundo ele, o contato com as marcas ocorre por diferentes caminhos, como abordagem direta, mensagens pelo Instagram, e-mail ou indicação.
“Tem marca que pede o roteiro, tem marca que pede o brief. Quando a marca me manda somente um brief, ela me deixa à vontade para criar o conteúdo que eu quero”, explica.
Formado em Artes Cênicas, Rodrigo afirma que utiliza a experiência com interpretação e construção de narrativas na produção dos vídeos. Depois de receber as orientações da empresa, ele monta o roteiro, escolhe cenário, roupas, iluminação e demais elementos da gravação. O conteúdo é registrado por cenas, o que permite alterar apenas um trecho caso a marca peça alguma modificação.
“Eu não gravo o conteúdo inteiro. Eu gravo por cenas, para que depois eu possa juntar, ajustar isso tudo e mandar para a marca para validação”, conta.
Um dos trabalhos recentes citados por Rodrigo mostra como funciona a relação comercial. Em um contrato com a marca Rosa Selvagem, ele fechou um pacote de cinco vídeos por R$ 2 mil. Os materiais não precisam ser publicados no perfil pessoal do criador. A empresa recebe os arquivos e pode utilizá-los em anúncios durante o período estabelecido no contrato.
Nesse caso, o acordo prevê seis meses de uso do conteúdo. Durante esse período, Rodrigo também fica impedido de associar sua imagem a produtos concorrentes da mesma linha. A restrição é relacionada ao uso comercial contratado pela empresa.
Esse tipo de negociação diferencia o UGC do trabalho tradicional de influenciadores. Enquanto o influenciador costuma ser contratado para apresentar um produto ao próprio público, utilizando sua audiência e publicando no próprio perfil, o criador UGC pode atuar apenas como produtor do material.
“Um criador de conteúdo vai entregar o vídeo dele para a marca. Eles vão pegar esse vídeo e vão rodar no tráfego”, explica Rodrigo.
O modelo também permite que os dois formatos sejam combinados. Com cerca de 12,5 mil seguidores, Rodrigo atualmente trabalha tanto com produção de UGC quanto com campanhas em suas próprias redes. Em alguns casos, o vídeo produzido para uma marca também pode ser utilizado em publicidade paga, enquanto o criador mantém uma campanha própria em seu perfil, inclusive com cupom de desconto.
A atividade passou a ocupar espaço maior na trajetória profissional de Rodrigo depois de uma mudança de carreira. Antes de trabalhar integralmente com produção digital, ele foi gerente de farmácia por cerca de 11 anos. A transição começou quando decidiu deixar o emprego formal e passou a investir de maneira mais estruturada nas redes sociais.
Durante uma viagem a Paris, ele decidiu profissionalizar a produção que até então fazia de maneira pessoal. Pouco depois, conseguiu sua primeira publicidade paga por meio de uma plataforma de criadores. O trabalho, relacionado ao Brasileirão, alcançou 68 mil visualizações, segundo Rodrigo.
“Eu vi que daria certo. Nisso meu Instagram começou a bombar muito. Na época eu tinha perto de dois mil seguidores. Hoje eu tenho 12 mil e meio, mais ou menos”, relata.
Desde então, ele afirma ter trabalhado com mais de 38 marcas, incluindo empresas de segmentos como beleza, alimentação, fitness e produtos para casa. Além da negociação direta, Rodrigo utiliza plataformas que conectam criadores e empresas e permitem a participação em campanhas.
A remuneração, porém, não segue um único padrão. Há plataformas que realizam o pagamento poucos dias após a entrega, enquanto outras trabalham com prazos mais longos. Por isso, o profissional precisa organizar os trabalhos contratados e os respectivos períodos de recebimento para transformar os cachês em uma renda mensal.
O crescimento desse mercado também está relacionado à estratégia das próprias empresas. Em vez de concentrar toda a produção publicitária em uma campanha com estética tradicional, as marcas podem contratar diferentes criadores para testar formatos, discursos e perfis de consumidores.
O conteúdo também pode ser produzido com uma estética mais próxima daquela encontrada nas redes sociais. Um vídeo de alguém abrindo uma embalagem, testando um produto ou contando uma experiência pode ser usado pela empresa como anúncio, sem necessariamente ter sido produzido dentro de um estúdio ou por uma agência de publicidade tradicional.
É nesse espaço entre publicidade e produção de conteúdo que novos profissionais têm encontrado uma possibilidade de trabalho. Para o criador, o público próprio deixa de ser o único ativo necessário para fechar uma campanha. A capacidade de produzir um vídeo que atenda ao objetivo da marca passa a ser, por si só, um serviço.
A criadora UGC Mariana Leite também entrou nesse movimento ao transformar uma experiência pessoal em oportunidade de produção de conteúdo. Durante a gravidez, ela passou a produzir materiais relacionados à rotina do período e encontrou nesse momento uma possibilidade de desenvolver conteúdos para marcas interessados em se comunicar com esse público.
"Foi um divisor de águas na minha vida. Comecei a entender isso como uma forma de empreender e unir o útil ao agradável. Tinha um bebê pra cuidar, mostrei minha realidade e comecei a dividir dores e dicas com outras mães. Isso foi muito poderoso tanto emocionalmente, quanto financeiramente", disse a creator.
A experiência mostra também como o UGC pode se aproximar de diferentes nichos e momentos da vida. Não é necessário construir uma audiência de milhões de seguidores para produzir conteúdo para uma marca. O diferencial pode estar na capacidade de representar determinado público, demonstrar o uso de um produto ou criar uma narrativa que pareça natural dentro do ambiente digital.
Para Rodrigo, a profissionalização também mudou a forma como ele enxerga o próprio trabalho. “Minhas redes sociais saíram de CPF, passaram para PJ. Hoje eu sou uma empresa”, afirma.
Com a expansão das plataformas que conectam marcas e criadores, o mercado passa a oferecer uma nova forma de prestação de serviço dentro da economia digital. O criador deixa de ser apenas alguém que publica para os próprios seguidores e passa a atuar também como produtor contratado para fornecer material publicitário às empresas.
A lógica é simples: a marca compra o conteúdo, e não necessariamente o acesso à audiência do criador. O vídeo pode terminar no perfil da empresa, em uma campanha patrocinada ou em diferentes formatos de publicidade digital. Para quem produz, isso significa que uma câmera de celular, conhecimento de narrativa e capacidade de adaptar um conteúdo ao objetivo comercial podem se transformar em uma atividade profissional.