O turismo de natureza no Pará começa a ganhar espaço entre visitantes que procuram mais do que os roteiros turísticos tradicionais. A experiência de estar na floresta, navegar pelos rios, conhecer comunidades, acompanhar a produção de alimentos e ter contato com a cultura amazônica passou a fazer parte da escolha de quem visita o Estado. A mudança abre oportunidades para pequenos empreendedores, produtores, artesãos, barqueiros, condutores e outros profissionais que transformam elementos do cotidiano amazônico em produtos turísticos. Em Belém, ilhas como Combu e Cotijuba permitem o contato com a natureza a poucos quilômetros da área urbana. No interior do Estado, destinos como Marajó e Alter do Chão, em Santarém, associam paisagens naturais a experiências culturais e comunitárias. Embora não exista um indicador oficial que mensure isoladamente o tamanho do mercado de turismo de natureza no Pará, dados nacionais mostram o potencial econômico da atividade. Em 2025, as 175 unidades de conservação federais abertas ao público receberam 28,5 milhões de visitas, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O estudo do órgão estima que a atividade turística nessas áreas movimentou R\$ 40,7 bilhões em vendas, contribuiu com R\$ 20,3 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) e sustentou 332,5 mil postos de trabalho. A pesquisa considera os efeitos da visitação sobre atividades como hospedagem, alimentação, transporte e comércio. Os números, porém, abrangem unidades de conservação federais de todo o Brasil e não representam diretamente o mercado paraense. No Estado, parte da atividade ocorre em ilhas, comunidades e empreendimentos privados fora dessas áreas protegidas. Turismo de experiência aproxima visitante da cultura amazônica Para Ana Karolina Jorge, turismóloga, pós-graduada em gestão ambiental e desenvolvimento sustentável e sócia-fundadora da Vivenciar Turismo de Base Comunitária, o comportamento de parte dos visitantes mudou. Segundo ela, o turista não busca apenas contemplar a paisagem, mas compreender o território a partir das pessoas que vivem nele. “Existe uma busca cada vez maior por experiências que ultrapassem a contemplação da paisagem e permitam compreender o território a partir das pessoas que vivem nele”, afirma. Criada em 2018, a Vivenciar oferece experiências de turismo de base comunitária. O público é formado principalmente por adultos entre 30 e 60 anos, de acordo com a empresária. Entre os clientes estão brasileiros das regiões Sul e Sudeste e estrangeiros, principalmente da Europa e da América do Norte. Esse visitante, segundo Ana Karolina, valoriza segurança, organização e qualidade, mas também procura significado na experiência. “Ele não quer simplesmente comprar um chocolate de cacau ou experimentar um açaí; quer conhecer a origem daquele produto, entender como ele é produzido, conversar com quem produz e conhecer a relação daquela atividade com o território”, explica. Combu, Cotijuba e outras ilhas viram produtos turísticos Entre as experiências oferecidas pela empresa está um roteiro no Combu, em Belém, relacionado à cadeia do açaí. O visitante pode conhecer o açaizal, acompanhar etapas do processo e participar da degustação. Em Icoaraci e Cotijuba, os roteiros incluem atividades ligadas à cerâmica, aos saberes tradicionais e a iniciativas comunitárias. A procura, segundo a empresária, está concentrada em experiências que combinam natureza, cultura e contato direto com moradores. O diferencial está justamente no acesso a algo que não faz parte de um roteiro convencional: ouvir histórias diretamente de quem vive no território e conhecer conhecimentos que passam de geração em geração. Por isso, a estratégia da empresa não é competir pelo menor preço. A proposta é estabelecer um valor que seja considerado justo pelo visitante e que também remunere os moradores envolvidos na atividade. Turismo movimenta renda de moradores e pequenos negócios O gasto do visitante também pode se espalhar por uma cadeia de trabalhadores e empreendedores locais. Nas experiências comercializadas pela Vivenciar, cerca de 70% do valor pago retorna para a comunidade e para os atores locais envolvidos na operação, segundo Ana Karolina. O dinheiro é distribuído entre condutores, produtores, artesãos, cozinheiras, barqueiros, empreendedores comunitários e outros prestadores de serviço. “Dessa forma, o turismo funciona como uma fonte de renda complementar e, em alguns casos, contribui para fortalecer atividades que já fazem parte do modo de vida local”, afirma. A proposta do turismo de base comunitária, segundo ela, é fazer com que a presença do visitante gere uma contrapartida econômica para os moradores, e não apenas transforme a comunidade em cenário de visitação. Logística aumenta os custos do turismo na Amazônia Oferecer uma experiência em áreas de natureza também exige uma estrutura que nem sempre fica visível para o turista. Na Amazônia, a logística é um dos principais desafios. Grande parte dos roteiros operados pela Vivenciar depende de transporte fluvial. O custo e o planejamento das viagens são influenciados pela maré, condições climáticas, disponibilidade das embarcações e características de cada território. Também entram na operação gastos com alimentação, seguros, equipamentos, comunicação, contratação de condutores e profissionais qualificados. Infraestrutura é outro desafio. Energia, abastecimento de água, conectividade e gestão de resíduos precisam ser considerados no planejamento de experiências realizadas em áreas afastadas dos centros urbanos. “Oferecer uma experiência de natureza não significa simplesmente colocar o visitante em um barco e levá-lo até uma comunidade. Existe todo um trabalho de planejamento, articulação e operação por trás da experiência”, diz Ana Karolina. A qualificação dos profissionais também interfere no serviço. Além de conhecer o destino, os condutores precisam lidar com protocolos de segurança e com a dinâmica das comunidades. Turista procura contato com a floresta e os rios A empresária mineira Maria Eduarda Alcântara, de 32 anos, esteve em Belém pela primeira vez em fevereiro de 2026. Ela permaneceu dez dias na capital por motivos profissionais e aproveitou a viagem para conhecer áreas naturais da região. Durante a estadia, visitou o Combu, o Marajó e a ilha das Onças, além de fazer passeios pelos rios. A proximidade com a fauna, a flora e os rios amazônicos foi um dos aspectos que mais chamou sua atenção. “Uma coisa que me chamou muito a atenção foi essa proximidade, essa relação muito próxima com essa fauna e essa flora amazônica, e os rios também me chamam muito a atenção”, conta. Maria Eduarda já havia feito passeios de natureza em outras regiões do país. Na avaliação dela, porém, esse mercado ainda está em processo de consolidação no Pará. Ela observou a presença de microempresas e cooperativas oferecendo os serviços e avaliou positivamente o atendimento recebido. “Eles são muito cordiais, são muito profissionais. A gente consegue ter um atendimento muito interessante porque eles sabem muito do que estão falando, eles vivem muito aquela rotina”, relata. Belém pode ser porta de entrada para o turismo de natureza A experiência da visitante também mostra como a capital paraense pode funcionar como ponto de partida para roteiros de natureza. A proximidade de ilhas como Combu e Cotijuba permite combinar uma hospedagem em Belém com passeios em áreas de floresta, rios e comunidades, sem que o visitante precise necessariamente viajar para destinos mais distantes. Maria Eduarda afirma que não conseguiu conhecer todos os pontos turísticos tradicionais da capital durante a estadia. Ainda assim, considera que os passeios pelas ilhas foram uma das partes mais marcantes da viagem. “Para mim valeu muito mais a pena ir até lá, enfim, conhecer essa riqueza natural”, afirma. A percepção reforça uma possibilidade para o mercado turístico: a natureza pode deixar de ser apenas um complemento do roteiro e se tornar um dos motivos principais para o visitante permanecer mais tempo no destino. Turismo de natureza precisa preservar o que vende Para Ana Karolina, o crescimento do turismo em áreas naturais precisa estar acompanhado de medidas de preservação. A operação, segundo ela, deve respeitar os limites de cada território e evitar que a natureza e a cultura local sejam tratadas apenas como produtos de consumo. O desafio econômico está em fazer com que a atividade gere renda para quem vive nesses locais sem comprometer os recursos que atraem os visitantes. Os dados nacionais mostram que a visitação em áreas protegidas pode gerar impacto econômico relevante. Segundo o estudo do ICMBio, para cada R\$ 1 investido na gestão das unidades de conservação, R\$ 15,60 retornaram para a economia por meio da atividade turística. No Pará, transformar a biodiversidade em produto turístico envolve, portanto, mais do que criar passeios e hospedagens. A oportunidade está em agregar valor àquilo que é próprio da Amazônia — a floresta, os rios, a culinária, os saberes e a cultura — e fazer com que parte maior do dinheiro movimentado pelo visitante permaneça nos territórios. A atividade precisa equilibrar duas pontas da mesma equação: quanto mais valorizada for a experiência amazônica, maior pode ser o valor econômico gerado; quanto maior o fluxo, maior também a necessidade de preservar os recursos que tornam essa experiência possível.