Uma família paraense pode precisar reservar de R$ 45 a R$ 100 por mês para manter um tratamento básico que combine medicamentos para hipertensão e diabetes tipo 2. Ao longo de um ano, a despesa pode chegar a R$ 1,2 mil por pessoa, considerando a compra de medicamentos genéricos em farmácias particulares. A estimativa é do economista Nélio Bordalo, membro do Conselho Regional de Economia dos estados do Pará e Amapá (Corecon), e mostra como os gastos com saúde podem se transformar em um compromisso permanente no orçamento doméstico, especialmente entre famílias de baixa renda.
Na prática, a despesa pode ser ainda maior, dependendo da quantidade de medicamentos prescritos, das dosagens e da complexidade do tratamento. É o caso da aposentada Raimunda Almeida, de 79 anos, que recebe um salário mínimo por mês e gasta mais de R$ 300 com seis medicamentos de uso contínuo. Outros quatro ela consegue gratuitamente pelo programa Farmácia Popular. Mesmo com o benefício, os gastos com remédios representam mais da metade de sua renda.
“Eu não posso ficar sem nenhum desses remédios. É necessidade. Não deixei de comprar remédio nem reduzi a quantidade por falta de dinheiro. Se a gente não tem dinheiro, compra no cartão. Se eu não tomar, a diabetes descontrolada piora”, conta.
Entre os medicamentos que precisa comprar estão um para neuropatia decorrente do diabetes, que custa entre R$ 120 e R$ 130, e outro para a própria doença, com preço entre R$ 125 e R$ 145. Ela também utiliza um medicamento para o fígado, de aproximadamente R$ 60, e um produto manipulado para dores no joelho, que custou quase R$ 300. Há ainda um produto para cabelos e unhas, de R$ 40.

Para conseguir manter o tratamento, Raimunda pesquisa preços em diferentes estabelecimentos e procura alternativas quando não encontra algum medicamento gratuito. Segundo ela, as farmácias instaladas em supermercados costumam oferecer opções mais baratas. Ainda assim, quando não encontra um preço acessível, precisa comprar o produto de qualquer maneira.
A aposentada afirma que prefere reduzir despesas com lazer e viagens a comprometer os cuidados com a saúde. “A gente não abre mão da alimentação por causa dos remédios, da dieta, das frutas em geral. Abrimos mão do lazer. Deixamos de viajar. Mas da minha saúde ninguém abre mão. Quando tem dois comprimidos, eu já estou preocupada com o próximo remédio”, relata.
Despesa pode comprometer até 12,3% da renda
De acordo com Nélio Bordalo, uma pessoa em tratamento para hipertensão pode gastar entre R$ 20 e R$ 45 mensais com medicamentos genéricos comprados em farmácias particulares. Para o diabetes tipo 2, a estimativa fica entre R$ 25 e R$ 60 por mês. Quando o paciente apresenta as duas doenças, a despesa pode alcançar R$ 100 mensais, totalizando até R$ 1.200 em 12 meses.
Considerando o salário mínimo nacional de R$ 1.621 em 2026, o gasto mensal de R$ 45 a R$ 100 representa entre 2,8% e 6,2% da renda de uma pessoa que recebe esse valor.
“Quando dois integrantes da família precisam manter tratamentos com despesas semelhantes, o comprometimento pode chegar a aproximadamente 12,3% da renda equivalente a dois salários mínimos”, destaca.
O economista ressalta que os valores são estimativas de referência para tratamentos básicos com genéricos, e não resultado de uma pesquisa estatística de preços em farmácias de Belém e da Região Metropolitana. Os custos podem aumentar quando há necessidade de utilizar vários medicamentos ou adotar tratamentos mais complexos.

“Do ponto de vista econômico, o peso desse gasto é proporcionalmente maior nas famílias de menor renda, pois os recursos destinados aos medicamentos reduzem a disponibilidade financeira para outras necessidades essenciais, principalmente alimentação”, explica Bordalo.
Ele destaca que, diferentemente de outras despesas domésticas, a compra de medicamentos de uso contínuo não pode ser simplesmente eliminada ou adiada sem colocar em risco a saúde do paciente. Por isso, quando mais de uma pessoa da mesma residência precisa de tratamento, os gastos passam a disputar espaço com compromissos como moradia, alimentação e transporte.
Preços dos medicamentos apresentam grandes diferenças
Os valores de medicamentos utilizados no tratamento de doenças crônicas também variam de acordo com o princípio ativo, a dosagem, a apresentação e o fabricante. Dados da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) mostram diferenças expressivas entre os preços máximos permitidos para produtos comercializados no Pará.
Entre os medicamentos utilizados no controle da hipertensão, a losartana potássica apresenta preços que variam de R$ 8,22 a R$ 71,20. O enalapril vai de R$ 10,30 a R$ 956,87, enquanto o captopril varia de R$ 10,18 a R$ 346,36. Já o cloridrato de propranolol apresenta valores entre R$ 5,93 e R$ 106,63.
No tratamento do diabetes, o cloridrato de metformina tem preços entre R$ 2,79 e R$ 942,34. O Jardiance Duo varia de R$ 137,45 a R$ 349,49. Entre os medicamentos de maior custo estão o Rybelsus, com valores de R$ 475,17 a R$ 4.277,03, e o Wegovy, que varia de R$ 1.330,60 a R$ 2.563,57.
Os valores correspondem a diferentes apresentações e características comerciais dos medicamentos, não sendo uma comparação direta entre versões equivalentes. A CMED estabelece os preços máximos que podem ser cobrados, mas as farmácias têm liberdade para oferecer descontos e comercializar os produtos por valores menores.
Farmácia Popular reduz impacto no orçamento
Uma alternativa para diminuir os gastos é recorrer aos medicamentos gratuitos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo programa Farmácia Popular. A iniciativa contempla tratamentos para diferentes condições, entre elas hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, colesterol alto, rinite, Parkinson e glaucoma.
O acesso gratuito representa uma possibilidade de economia para quem depende de medicamentos diariamente, principalmente idosos e pessoas com doenças crônicas. No caso de Raimunda, quatro dos dez medicamentos utilizados são obtidos pelo programa. Mesmo assim, ela precisa desembolsar mais de R$ 300 todos os meses para completar o tratamento.
Para o economista Nélio Bordalo, a assistência farmacêutica pública tem papel que vai além dos cuidados com a saúde, pois também ajuda a preservar a renda das famílias.
“Portanto, nesse contexto, o acesso gratuito aos medicamentos pelo SUS e pelo Programa Farmácia Popular representa não apenas uma política de saúde pública, mas também um importante mecanismo de proteção da renda familiar, ao reduzir despesas que, para muitas famílias, são permanentes e inevitáveis”, avalia.
