Superendividamento: saiba quando uma dívida se torna impagável e como equilibrar as finanças
Economista e educadora financeira orientam sobre negociação, reorganização do orçamento e mudanças de hábitos para sair das dívidas
As dívidas difíceis de pagar, comuns em modalidades de crédito com juros elevados, podem levar o consumidor a um ciclo de superendividamento, em que o saldo devido continua aumentando mesmo com os pagamentos em dia. É o que apontam especialistas, que, inclusive, explicam como identificar esse cenário, quais débitos apresentam maior risco e quando é possível negociar descontos para quitar a dívida.
Uma dívida pode ser considerada "impagável" quando o devedor entra em um ciclo em que já não consegue reduzir o saldo devido, mesmo pagando regularmente, explica o economista Pedro Loureiro. Ele ressalta que isso acontece porque a maior parte do pagamento serve apenas para quitar juros, enquanto o principal praticamente não diminui. “Tecnicamente, isso ocorre quando o comprometimento da renda ultrapassa a capacidade financeira da pessoa e a dívida cresce mais rápido do que sua capacidade de pagamento”, afirma Loureiro.
Entre as dívidas que mais frequentemente se tornam impagáveis estão aquelas com as maiores taxas de juros, como crédito rotativo do cartão de crédito, cheque especial, empréstimos pessoais sem garantia, crédito em financeiras, além de outras modalidades de crédito para pequenas empresas.
“Isso acontece porque os juros compostos trabalham contra o devedor. Uma dívida aparentemente pequena pode dobrar em poucos meses se não houver pagamento suficiente para amortizar o principal. Outro fator importante é que essas dívidas normalmente são utilizadas para financiar consumo corrente, e não aquisição de patrimônio. Ou seja, quando chega o vencimento, o dinheiro já foi gasto e não existe um ativo que possa ser vendido para quitar a obrigação”, observa o especialista.
Diagnóstico financeiro
Para evitar que o problema se agrave, é essencial que a pessoa endividada não acumule ainda mais despesas. O primeiro passo, segundo Loureiro, não é buscar um empréstimo, mas fazer um diagnóstico financeiro. O economista ressalta que é preciso listar todas as dívidas e identificar taxas de juros, parcelas, prazos, garantias e consequências do não pagamento. Em seguida, ele recomenda priorizar as dívidas mais caras e as consideradas essenciais, como contas de energia elétrica e plano de saúde e cortar despesas temporariamente.
“Quanto mais cedo ocorre a negociação, maior costuma ser o poder de barganha do consumidor. É importante destacar que endividamento não é apenas um problema matemático, muitas vezes é também um problema comportamental. Controlar novas compras e interromper o uso do crédito rotativo são medidas tão importantes quanto renegociar”, recomenda o especialista.
Descontos ajudam a aliviar a “bola de neve”
Em alguns casos, especialmente quando a dívida está há muito tempo em atraso, o consumidor pode conseguir descontos para quitá-la, como lembra a educadora financeira Ana Ferrari. A especialista comenta que, diante desses casos, há soluções para aliviar o valor devido, sendo uma oportunidade para o consumidor.
“Os maiores descontos costumam ocorrer quando a dívida já está em atraso há bastante tempo ou quando o credor entende que a chance de recuperar o valor integral é pequena. Em alguns casos, a dívida é cedida para empresas especializadas em cobrança, que a compram por um valor inferior e conseguem oferecer condições mais vantajosas para quitação”, frisa Ana.
E nos casos em que a dívida é vendida, segundo Ferrari, significa que o credor original transferiu o direito de cobrança para outra empresa. Para o consumidor, a obrigação continua existindo, mas a negociação passa a ser feita com o novo credor. “Muitas vezes, isso abre espaço para acordos mais flexíveis, com descontos maiores ou parcelamentos diferenciados. Antes de efetuar qualquer pagamento, o aconselhável é confirmar que a empresa realmente possui autorização para realizar a cobrança e exigir um comprovante da negociação”, detalha.
Organização do orçamento
Para evitar prejudicar ainda mais a saúde financeira e se livrar de dívidas altas, a especialista sugere: “Organizar o orçamento e entender exatamente quanto entra, quanto sai e quais dívidas têm os juros mais altos. Com essas informações em mãos, vale procurar o credor para negociar condições que realmente caibam no orçamento. Também é fundamental criar uma reserva, mesmo que pequena, para evitar recorrer ao crédito diante de qualquer imprevisto”.
“Sair do endividamento não depende apenas de renegociar a dívida. Depende, principalmente, de mudar a forma como lidamos com o dinheiro. A negociação resolve o passado; a educação financeira evita que o problema volte a acontecer. É essa mudança de comportamento que traz segurança e estabilidade financeira no longo prazo”, reforça a educadora financeira.
O economista Alexandre Damasceno também explica que um dos principais erros cometidos por pessoas endividadas é não reconhecer a própria situação financeira. Segundo ele, muitos consumidores ignoram ou não aceitam a existência da dívida, o que dificulta a busca por uma solução.
“Quando ela deixa de reconhecer sua dívida, às vezes ela esquece ou não aceita, e isso é um grande problema. O primeiro passo é verificar a cobrança, porque nem sempre aquilo que está sendo cobrado é uma dívida real, podendo até ser um golpe”, afirma.
Após confirmar a existência do débito, o economista orienta que o consumidor faça um diagnóstico financeiro, organize um orçamento e estabeleça um plano de pagamento que esteja dentro da sua capacidade. Damasceno alerta ainda que deixar a dívida acumular pode tornar a situação mais difícil, principalmente por causa dos juros compostos.
“Quando a dívida rola, os juros que estão sendo cobrados acabam triplicando, às vezes, o valor inicial, fazendo com que ela se torne impagável”, destaca.
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