Seminovos ficam até 30% mais baratos em Belém com avanço de elétricos e chegam a custar R$ 60 mil
Chegada de modelos chineses mais tecnológicos e competitivos pressiona preços dos veículos usados e muda comportamento dos consumidores na capital paraense
A chegada de novos modelos de carros chineses ao mercado brasileiro já começa a provocar mudanças no setor de veículos seminovos em Belém. Com preços mais competitivos, maior oferta de tecnologia e avanço dos modelos eletrificados, os carros zero quilômetro passaram a disputar diretamente a preferência de consumidores que antes buscavam veículos usados. O reflexo é uma pressão maior sobre os preços dos seminovos, principalmente dos SUVs.
Em Belém, revendedores ouvidos pelo Grupo Liberal estimam que a desvalorização dos seminovos chegou, em média, de 10% a 15% nos últimos quatro meses, dependendo do modelo, ano, versão e quilometragem. Na prática, um veículo que era negociado por cerca de R$ 80 mil pode hoje custar entre R$ 60 mil e R$ 70 mil, segundo os profissionais do setor.
A percepção local acompanha um movimento observado no mercado nacional. Dados da Auto Avaliar divulgados em setembro apontam que os preços efetivamente negociados entre lojistas para veículos de até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026. A redução foi quase quatro vezes superior à registrada pela tabela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), que recuou 2,4% no mesmo período.
Outro levantamento, da Bright Consulting, divulgado em julho, mostrou que, pela primeira vez em seis anos, o preço médio dos carros novos subiu menos que a inflação em 2026. Considerando a inflação, os veículos zero quilômetro ficaram 1,5% mais baratos neste ano.
SUVs são os mais pressionados
O impacto é mais perceptível nos SUVs, especialmente nos modelos que custam acima de R$ 100 mil. Segundo os revendedores, esses veículos passaram a enfrentar uma concorrência direta com os novos modelos eletrificados.
O presidente da Associação dos Revendedores de Veículos do Estado do Pará (Assovepa), Aldo Oliveira, afirma que a mudança se intensificou a partir do início do ano.
“De janeiro pra cá, intensificou mais os carros elétricos. A chegada, na realidade, é a chegada do carro elétrico”, explica.
Segundo ele, um consumidor que encontra um SUV seminovo na faixa de R$ 100 mil pode passar a considerar a compra de um veículo elétrico novo por cerca de R$ 120 mil, dependendo da oferta disponível. A diferença de preço, associada à tecnologia e aos equipamentos, acaba influenciando a decisão de compra.
Oliveira estima que os SUVs seminovos estejam sofrendo uma depreciação de 20% a 30% nas avaliações, dependendo do veículo.
“Hoje estamos com dificuldade de venda, não só pelos elétricos, mas por causa do poder de compra, do poder aquisitivo da população”, afirma.
Carro de R$ 80 mil pode custar até R$ 60 mil
A queda dos preços já aparece nas negociações realizadas pelas revendas. Para Oliveira, a redução média dos seminovos em Belém chegou a aproximadamente 10% nos últimos quatro meses.
Um carro que custava R$ 80 mil há alguns meses pode estar valendo atualmente entre R$ 60 mil e R$ 65 mil, segundo a estimativa apresentada pelo representante do setor.
Outro revendedor ouvido pela reportagem, Miller Duarte, proprietário de uma loja de seminovos no bairro do Umarizal, também identifica uma redução significativa. Na avaliação dele, a desvalorização média observada na operação fica entre 10% e 15%, embora varie de acordo com as características de cada veículo.
Para um carro que anteriormente custava R$ 80 mil, Duarte estima atualmente um valor de mercado entre R$ 65 mil e R$ 70 mil.
“Não existe uma regra, mas um carro de R$ 80 mil hoje está numa média de aproximadamente R$ 65 a R$ 70 mil”, afirma.
Tecnologia e preço pesam na escolha
Para os revendedores, os novos carros chineses estão alterando não apenas os preços, mas também a forma como o consumidor avalia um automóvel.
A combinação de preço, tecnologia, eletrificação, equipamentos e garantia aumenta a comparação entre um carro usado e um modelo novo. Segundo Duarte, quando o preço de um seminovo se aproxima do valor de um zero quilômetro, o consumidor passa a analisar com mais atenção o que recebe em cada opção.
“Não é apenas uma questão de preço. A chegada desses veículos está mudando o parâmetro de valor que o consumidor utiliza para decidir sua compra”, avalia.
Na avaliação de Oliveira, tecnologia e preço são hoje os principais diferenciais dos modelos chineses na disputa pela preferência do consumidor.
Juros e endividamento também dificultam as vendas
A pressão exercida pelos veículos zero quilômetro não é o único fator que explica o momento do mercado de seminovos. Os revendedores também apontam as taxas de juros e o endividamento das famílias como obstáculos para a realização de negócios.
Oliveira afirma que as vendas estão baixas, embora não tenham apresentado uma interrupção em relação ao mês anterior. Segundo ele, o poder de compra da população tem pesado nas decisões de aquisição.
“A taxa de juros e o próprio endividamento da população estão entre as principais dificuldades enfrentadas atualmente pelo setor", diz.
Nesse cenário, as revendas precisam ajustar os preços para reduzir o estoque e tornar os veículos mais competitivos.
“Baixando o preço, fazendo uma boa compra, mostrando para o consumidor que o carro dele não vale o que valia três meses atrás”, explica Oliveira.
Revendas apostam em preço e confiança
Diante da mudança no mercado, as lojas também estão buscando oferecer mais do que apenas preços menores. Para Miller Duarte, procedência, conservação, garantia e segurança passaram a ter peso maior na decisão de compra.
A revenda administrada por ele trabalha, segundo o proprietário, com veículos revisados, vistoria cautelar, garantia e transparência na negociação.
“O mercado está mais competitivo, e isso exige que as revendas sejam cada vez mais profissionais e transparentes”, afirma.
A estratégia é tentar compensar a maior concorrência com os carros novos oferecendo ao consumidor segurança na compra de um seminovo.
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