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IMPACTO

Selic elevada afeta orçamento familiar e de empresas, alerta economista

Juros elevados também podem frear investimentos na construção civil, indústria e comércio, além de dificultar a renegociação de dívidas e a geração de empregos

Gabriel Pires

6 de novembro de 2026 às 08:00

Imagem ilustrativa

Imagem ilustrativa ( Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil )

A manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano deve continuar pressionando o orçamento das famílias e limitar investimentos em diferentes setores da economia. Com o crédito mais caro, alertam especialistas, consumidores podem encontrar dificuldades para financiar compras e renegociar dívidas, enquanto empresas da construção civil, indústria e comércio podem adiar projetos, contratações e investimentos.

O economista André Cutrim explica que, pelo histórico dos últimos anos, os setores mais impactados são aqueles que dependem de crédito para produzir, investir ou vender, como a construção civil, a indústria e o comércio de bens duráveis, a exemplo de veículos, móveis e eletrodomésticos, porque envolvem gastos maiores e, com frequência, precisam de financiamento.

Na construção civil, os juros elevados encarecem o financiamento de imóveis e dificultam novos empreendimentos, podendo adiar obras e contratações. Na indústria, o custo do crédito desestimula a compra de máquinas e a ampliação de fábricas. Já no comércio, as prestações mais caras levam consumidores a adiar compras de bens como eletrodomésticos e veículos, reduzindo as vendas e a reposição de estoques.

“Esse movimento, por sinal, também alcança o setor de serviços, como restaurantes, turismo e lazer, que podem perder clientes quando as famílias precisam priorizar as despesas básicas. Cabe destacar que os pequenos negócios ficam mais vulneráveis também, já que muitos dispõem de pouca poupança e quase sempre dependem de empréstimos para comprar mercadorias, pagar fornecedores e manter as atividades”, analisa. 

Quando o custo do crédito permanece elevado e o movimento diminui, o empresário enfrenta dificuldade para sustentar o negócio, o que pode dificultar tanto a sua renda quanto os empregos que ele mantém. “Por outro lado, há quem se beneficie desse cenário, como os grandes rentistas, que dispõem de elevado patrimônio aplicado em títulos e outras aplicações remuneradas pelos juros”, observa. 

Endividamento

Além do eixo empresarial, com a manutenção dos juros nesse patamar, o crédito continuará caro, dificultando tanto a realização de compras parceladas quanto a renegociação de dívidas. O economista André Cutrim aponta que, para quem já compromete boa parte do salário com despesas como alimentação, aluguel, transporte e medicamentos, sobra pouco espaço no orçamento para arcar com os juros. 

Esse cenário aumenta o risco de atrasos no pagamento de contas e de contratação de novos empréstimos para cobrir despesas básicas, o que pode levar a um ciclo crescente de endividamento. “Isso não significa, porém, que todas as prestações vão subir com essa decisão, mas que o alívio esperado com a redução dos juros pode demorar mais. Esse efeito também alcança quem não tem dívidas, porque os juros elevados dificultam os investimentos e prejudicam a geração de emprego e renda”, afirma. . 

Essa combinação, segundo Cutrim, pode levar ao adiamento de investimentos e contratações, afetando o movimento do comércio, dos serviços e da produção. “Além disso, os efeitos não são iguais para todos: quem dispõe de recursos aplicados em investimentos que acompanham os juros pode continuar obtendo rendimentos superiores aos de um cenário de juros mais baixos, enquanto quem depende de empréstimos para consumir, trabalhar ou manter um pequeno negócio continua pagando caro”, observa.

“Nestas circunstâncias, para uma família de baixa renda, que muitas das vezes não consegue formar uma boa reserva financeira, o benefício de fazer uma aplicação render mais está distante da realidade, mas o peso dos juros aparecerá no orçamento todos os meses”, acrescenta o economista.

Controle da inflação

Para o especialista, nesse contexto é necessário controlar a inflação, já que a alta dos preços reduz o poder de compra e penaliza quem ganha menos, entretanto, precisamos discutir também o custo social de manter os juros elevados por tanto tempo. “Quando o aumento dos preços decorre de problemas na produção de alimentos, no abastecimento ou nos custos da energia e dos combustíveis, os juros, isoladamente, não resolvem essas dificuldades, exigindo medidas que enfrentem suas causas”. 

“Por fim, cabe esclarecer para a população que a decisão de manter a Selic nesse patamar partiu, novamente, do Copom, órgão do Banco Central que tem autonomia para definir a taxa básica de juros no Brasil, não sendo uma determinação direta do presidente da República (ou do Ministério da Fazenda)”, completa.

Investimento 

Para os investidores, o assessor de investimento Murilo Dias aponta que, com os juros atingindo 13,75%, a renda fixa é a grande protagonista. “Os ativos que acompanham a Selic ou o CDI, os chamados pós-fixados, são os que mais se beneficiam: eles repassam esse juro alto de forma direta e previsível. Com a Selic em 13,75% e a inflação na casa de 5%, o investidor consegue um ganho real expressivo, com baixo risco e boa previsibilidade. Aplicações conservadoras rendem hoje cerca de 1% ao mês, antes do imposto”, observa. 

“O principal cuidado é não escolher um investimento olhando só para a rentabilidade. Antes de perguntar “quanto rende?”, a pergunta certa é “para que serve esse dinheiro?”. Comprar um imóvel, montar a reserva, investir no próprio negócio, planejar a aposentadoria ou fazer uma viagem daqui a dois ou três anos: cada objetivo pede uma aplicação diferente, com prazo, liquidez e risco adequados. O mercado oferece muitas opções; o que importa é qual delas vai, de fato, ajudar a conquistar aquele objetivo”, recomenda.

Murilo ainda orienta os investidores a desconfiar de promessas de rentabilidade muito acima da realidade, especialmente de ofertas de retorno mensal de 3% a 5% sem risco, que podem indicar golpes. Ele também recomenda observar os limites de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

“A garantia cobre até R$ 250 mil por CPF em cada instituição financeira. Taxas muito acima do CDI costumam indicar mais risco do emissor, e diversificar entre bancos aumenta a proteção. É necessário observar a liquidez. Alguns títulos só podem ser resgatados no vencimento. O dinheiro da emergência precisa estar disponível quando for necessário. E comparar o rendimento líquido: imposto e taxas mudam o resultado final. Na renda fixa, o IR vai de 22,5% (até seis meses) a 15% (acima de dois anos)”, comenta.

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