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REDUFLAÇÃO

Reduflação: produtos diminuem de tamanho, mas preços se mantêm e pesam para consumidores em Belém

Embalagens menores de alimentos e itens de higiene fazem famílias levarem menos produtos para casa; economista orienta consumidores a comparar preços por quilo, litro e unidade

Jéssica Nascimento

28 de setembro de 2026 às 06:30

A caixa de ovos com dez unidades, o chocolate em barra com menos gramas e o papel higiênico com rolos de menor metragem são exemplos de mudanças que podem passar despercebidas nas compras do supermercado. Em Belém, consumidores relatam ter identificado a redução na quantidade de produtos, enquanto os preços permanecem iguais ou apresentam pequenas alterações. O fenômeno, conhecido como reduflação, ocorre quando empresas diminuem o peso, o volume ou a quantidade de um produto sem reduzir proporcionalmente o preço da embalagem, aumentando o custo efetivo pago pelo consumidor.

A mudança afeta produtos de consumo frequente, como alimentos, itens de higiene e materiais de limpeza. Para as famílias, a consequência é a necessidade de gastar mais para adquirir a mesma quantidade que era levada para casa anteriormente. Um estudo da consultoria Horus, que comparou preços e quantidades entre 2022 e 2023, identificou reduções na gramatura de produtos como chocolates, molhos de tomate, sabonetes, sabão em pó e sucos prontos, acompanhadas de aumentos nos valores das embalagens.

O economista paraense Nélio Bordalo, membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon/PA), explica que a reduflação representa uma perda de poder de compra que nem sempre é percebida de imediato. Segundo ele, mesmo que o preço estampado na embalagem não aumente, a redução da quantidade faz com que o consumidor pague mais por quilo, litro, unidade ou metro do produto.

“Quando uma embalagem mantém praticamente o mesmo preço, mas passa a oferecer menos produto, o consumidor está pagando mais por cada quilo, litro, unidade ou metro, mesmo que o preço estampado na embalagem não tenha aumentado”, afirma.

(Foto: Thiago Gomes)
(Foto: Thiago Gomes)

Menos produto pelo mesmo preço

Para o economista, o impacto sobre o orçamento doméstico se torna mais significativo quando a redução ocorre em vários itens ao mesmo tempo. Uma diminuição que parece pequena em um único produto pode aumentar o custo efetivo da cesta de compras e fazer com que a família leve uma quantidade menor de mercadorias com a mesma renda.

“Para as famílias de Belém, esse efeito pode ser particularmente relevante nos produtos de consumo frequente, como alimentos, produtos de higiene e limpeza. A redução individual pode parecer pequena, mas, quando ocorre em vários produtos ao mesmo tempo, aumenta o custo efetivo das compras e pressiona o orçamento doméstico”, explica Bordalo.

(Foto: Thiago Gomes)
(Foto: Thiago Gomes)

A avaliação é compartilhada por consumidores ouvidos em um hipermercado no bairro do Marco, em Belém. A contadora Keila Oliveira conta que percebeu mudanças principalmente nas embalagens de leite em pó. Para ela, a atenção à quantidade é fundamental para evitar a compra de produtos que oferecem menos conteúdo pelo mesmo valor.

“Eu observei muito a redução no leite em pó. Se o consumidor não ficar atento ao tipo de produto que ele está levando, ele acaba pagando mais por menos”, relata.

Keila afirma ainda que algumas embalagens passaram a oferecer quantidades menores e que uma diferença de 10% já representa um impacto importante no orçamento familiar.

Keila Oliveira.
Keila Oliveira. (Foto: Thiago Gomes)

“A gente tem que observar a quantidade do produto, porque eles acabam reduzindo a quantidade do produto e mantendo o mesmo preço ou então dando pequenos descontos pra dizer que estão em oferta”, diz.

Chocolate, sabão em pó e suco entre os produtos afetados

Os dados da consultoria Horus, apresentados na pauta, mostram que a redução de quantidade ocorreu em diferentes categorias entre 2022 e 2023. O sabão em pó, por exemplo, passou de uma gramatura média de 1.102,7 gramas para 1.000,3 gramas, enquanto o preço médio aumentou de R$ 15,31 para R$ 19,18.

No caso do chocolate, a gramatura média caiu de 167,6 gramas para 143,7 gramas. No mesmo período, o preço médio subiu de R$ 15,85 para R$ 16,78. Já o suco pronto apresentou redução de 1.124,2 gramas para 1.000,4 gramas, com aumento do preço médio de R$ 9,19 para R$ 11,10.

A reduflação também é percebida pelos consumidores em outros itens do dia a dia. O engenheiro mecânico Tiago Sales relata que observou a redução da quantidade em embalagens de cereais, como flocos finos. Segundo ele, o preço pode permanecer estável ou subir em razão da inflação, enquanto o volume oferecido diminui.

Tiago Sales.
Tiago Sales. (Foto: Thiago Gomes)

“Isso impacta no bolso. Cada vez mais a gente está desembolsando uma quantidade maior por uma quantidade menor”, afirma Tiago.

O consumidor conta que esses produtos fazem parte da cesta básica da família e que a redução na quantidade acaba afetando as despesas de casa.

“No final a gente termina pagando mais por esse produto”, afirma.

Papel higiênico e macarrão com embalagens menores

A empreendedora Eliana Furtado identificou a redução no tamanho das embalagens de macarrão e na metragem do papel higiênico. Segundo ela, muitos pacotes de macarrão que antes tinham 500 gramas passaram a ser comercializados com 400 gramas.

“Eu reparei no macarrão, porque a maioria dos pacotes de macarrão agora é 400 gramas. São pouquíssimos que são 500 gramas. Papel higiênico que era 30 (metros) e agora são 20 (metros)”, relata.

Ela afirma que o preço de alguns desses produtos permaneceu praticamente igual. O papel higiênico, segundo a consumidora, custava pouco mais de R$ 7, enquanto o macarrão era encontrado na faixa de R$ 2,70 a R$ 2,80.

Eliana Furtado.
Eliana Furtado. (Foto: Thiago Gomes)

“Isso impacta porque antes você comprava 500 gramas. Hoje você está levando 400 gramas. Aí você põe aí no final do mês quanto que vai do teu orçamento, pagando mais por menos produto”, afirma.

Para Eliana, a falta de atenção às informações da embalagem pode fazer com que o consumidor não perceba a redução da quantidade.

“Só que tem pessoas que não olham, elas não observam. Acham que está barato e vão levando. E não reparam a quantidade, validade, não olham nada”, diz.

Como identificar a reduflação no supermercado

O economista Nélio Bordalo orienta que o consumidor não deve comparar apenas o preço estampado na embalagem. É necessário verificar o peso líquido, o volume ou a quantidade de unidades e, sempre que possível, calcular o custo por quilo, litro, metro ou unidade.

Ele apresenta um exemplo: se um produto custa R$ 10 e passa de 500 para 400 gramas, o preço da embalagem continua o mesmo, mas o custo por quilo sobe de R$ 20 para R$ 25. Isso representa um aumento efetivo de 25% no preço por quilo.

Economista Nélio Bordalo.
Economista Nélio Bordalo. (Reprodução/ Leandro Corrêa)

“O principal cuidado que o consumidor deve ter é não comparar apenas o preço da embalagem. O consumidor deve observar o peso líquido, o volume ou a quantidade de unidades e, sempre que possível, calcular o preço por quilo, litro, metro ou unidade”, explica.

Bordalo também recomenda que o consumidor confira as informações do rótulo e compare produtos equivalentes utilizando a mesma unidade de medida. Ele destaca que é importante observar eventuais alterações na gramatura, no volume e no número de unidades.

De acordo com o economista, a quantidade comercializada deve estar indicada na embalagem, e o consumidor precisa verificar se o conteúdo corresponde à informação apresentada. Ele também cita as orientações do Inmetro e o direito à informação previsto no Código de Defesa do Consumidor.

A reduflação pode contribuir para a diferença entre a inflação medida por índices estatísticos e a percepção de aumento do custo de vida pelas famílias. Isso acontece porque o consumidor não observa apenas o valor pago, mas também a quantidade de produtos recebida.

(Foto: Thiago Gomes)
(Foto: Thiago Gomes)

Por que as empresas reduzem a quantidade?

Segundo Nélio Bordalo, a reduflação pode ocorrer quando as empresas enfrentam aumento nos custos de matérias-primas, energia, transporte, mão de obra, embalagens e outros insumos. Nesse cenário, a redução do peso ou volume pode ser uma alternativa ao reajuste direto do preço da embalagem.

O economista ressalta, porém, que a prática não significa necessariamente uma irregularidade, desde que a quantidade comercializada seja informada corretamente ao consumidor. Para ele, o principal desafio é a percepção da mudança, já que a embalagem pode continuar com preço semelhante ao anterior.

“Isso não significa necessariamente que a empresa esteja praticando uma irregularidade, desde que informe corretamente a quantidade comercializada, mas reforça a importância de o consumidor observar não apenas o preço da embalagem, mas também quanto produto está recebendo pelo valor pago”, afirma.

A recomendação é comparar o custo por unidade de medida e verificar a quantidade efetivamente oferecida antes de decidir pela compra. 

Estudo da consultoria Horus

Segundo o estudo citado da consultoria Horus, que comparou a quantidade e o preço de produtos entre 2022 e 2023, seis produtos foram destacados como os mais impactados pela reduflação.

1. Biscoito

2022

  • Gramatura: 206 g
  • Preço: R$ 7,77

2023

  • Gramatura: 202,2 g
  • Preço: R$ 8,64

Variação

  • Gramatura: –1,8%
  • Preço: +11,2%

2. Chocolate

2022

  • Gramatura: 167,6 g
  • Preço: R$ 15,85

2023

  • Gramatura: 143,7 g
  • Preço: R$ 16,78

Variação

  • Gramatura: –14,3%
  • Preço: +5,9%

3. Molho de tomate

2022

  • Gramatura: 401,7 g
  • Preço: R$ 10,94

2023

  • Gramatura: 369 g
  • Preço: R$ 11,81

Variação

  • Gramatura: –8,1%
  • Preço: +8%

4. Sabonete

2022

  • Gramatura: 128,4 g
  • Preço: R$ 10,16

2023

  • Gramatura: 114,2 g
  • Preço: R$ 11,56

Variação

  • Gramatura: –11%
  • Preço: +13,8%

5. Sabão em pó

2022

  • Gramatura: 1.102,7 g
  • Preço: R$ 15,31

2023

  • Gramatura: 1.000,3 g
  • Preço: R$ 19,18

Variação

  • Gramatura: –9,3%
  • Preço: +23,3%