Preço do açaí sobe 83% em cinco anos e castiga o bolso em Belém

Estudo do Dieese Pará mostra que a alta do fruto superou a inflação oficial consecutivamente desde 2022

Gabriel da Mota e Gabriel Pires
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O preço do açaí tipo médio registrou um aumento de 83,47% nos últimos cinco anos em Belém, conforme levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), enviado com exclusividade à reportagem de O Liberal. Entre junho de 2022 e maio de 2026, o valor médio do litro saltou de R$ 22,38 para R$ 41,06 na capital paraense. No mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), acumulou 17,70%, o que significa que o reajuste do açaí ficou 65,77 pontos percentuais acima da inflação registrada no país.

Apenas nos primeiros cinco meses de 2026, o reajuste acumulado do açaí médio foi de 42,47%, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE) avançou apenas 3,36%. Essa variação demonstra que o aumento do principal alimento da mesa dos paraenses foi quase 13 vezes superior à inflação oficial no ano corrente. O tipo grosso também acompanhou a disparada e acumulou uma alta de 41,10% de janeiro a maio deste ano.

Segundo o balanço histórico do Dieese/PA, as reduções sazonais de preço observadas no início da safra são insuficientes para anular as fortes altas registradas ao longo de cada ano. Em junho de 2023, o litro médio custava R$ 23,98, passando para R$ 21,10 em junho de 2024 e saltando para R$ 30,25 em junho de 2025, até atingir o patamar atual de R$ 41,06 em maio de 2026.

Segundo o diretor técnico do Dieese-PA, Everson Costa, a inflação é utilizada como parâmetro de comparação porque representa a média da evolução dos preços de produtos e serviços ao longo de um determinado período, considerando oscilações tanto de alta quanto de baixa. Ele explica que esse indicador serve de referência para avaliar o comportamento de preços específicos, como o do açaí, e que a inflação acumulada em 12 meses é usada para reajustar salários, atualizar contratos e medir a perda do poder de compra da população.

"Quando a gente compara com a inflação, a gente busca mostrar que a valorização do preço do açaí, ao longo de todo esse período, fez com que o fruto fosse valorizado muito mais do que outros itens considerados na média calculada pela nossa inflação. O INPC é o índice que nós utilizamos para ajustar os salários dos trabalhadores. Nessa sequência, quanto maior for a distância entre o aumento do preço de um bem, produto ou serviço e a inflação, mais difícil será para esse trabalhador acompanhar esse preço com o seu poder de compra. E estamos falando de um açaí que, ao longo do período, teve aumentos e subiu justamente por conta dessa valorização", analisa.

Alta da energia elétrica e concorrência com indústrias pressionam batedores artesanais

Os batedores artesanais da capital afirmam que repassar os aumentos de preço da matéria-prima para o consumidor final tornou-se uma medida inevitável para a sobrevivência do negócio. "A maioria dos estabelecimentos fala sobre o aumento do repasse ao consumidor. A gente não consegue absorver tanto", afirma Jhoy Gerald Souza, diretor de comunicação da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB). O representante explica que a lata do fruto chega a custar R$ 200 no inverno, o que inviabiliza a venda do litro por menos de R$ 20.

Além do preço do fruto, as despesas fixas com energia elétrica e água sobrecarregam o funcionamento diário dos pontos de venda tradicionais na cidade.

"Atualmente, o custo que mais pressiona é a energia. Hoje, para manter um ponto comercial organizado, com ar-condicionado e fazendo o branqueamento, há uma elevação na conta de energia, então tem um custo para poder manter o estabelecimento aberto funcionando", destaca Jhoy Gerald Souza.

Outro fator de pressão é a competição direta com as grandes indústrias de polpa, que compram o insumo diretamente nas áreas de produção para fins de exportação. "As fábricas passaram a tirar o açaí da feira. Elas compram lá no mato e o açaí demora a chegar no mercado interno", complementa o diretor da ACPAB, ressaltando que o avanço das cooperativas industriais reduz severamente o volume de frutos disponíveis nas feiras urbanas.

Fatores climáticos e crescimento da demanda internacional reduzem oferta local

Mudanças climáticas severas e a expansão do mercado consumidor fora do Pará também explicam o encarecimento estrutural do alimento. "Ano passado, devido ao El Niño, a gente sentiu a ação climática nas produções do açaí. O açaí que era de manejo conseguiu chegar, mas o açaí que é nativo não chegou na região", relembra Jhoy Gerald Souza, detalhando que a escassez elevou o preço da lata do fruto vindo do Marajó para R$ 100 mesmo no período de colheita.

Pesquisadores confirmam que o crescimento da demanda global desequilibra o mercado interno, embora traga benefícios econômicos para as comunidades extrativistas.

"Essa expansão de consumo fora do estado provoca deslocamento da curva de demanda, no sentido que favorece aumento de preços do produto", explica o engenheiro agrônomo Jair Carvalho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental.

O especialista observa que as grandes indústrias compram e congelam a polpa exclusivamente na safra para comercializar os estoques na entressafra.

Famílias de baixa renda alteram hábitos alimentares e reduzem consumo diário do fruto

O encarecimento contínuo forçou uma mudança profunda no comportamento de consumo das famílias que utilizam o fruto como base da alimentação diária.

"A mudança dos consumidores foi muito grande. Eles passaram a reduzir. Quem tomava todos os dias, passou a tomar dois dias na semana", relata Jhoy Gerald Souza.

De acordo com ele, o açaí médio tornou-se um artigo de luxo, impulsionando a procura pelo tipo popular nas periferias.

Para mitigar o impacto financeiro, os moradores das áreas urbanas recorrem a alternativas domésticas de armazenamento e substituição do produto. "Os consumidores das áreas urbanas de menor renda passaram a ter maior dificuldade de aquisição e consumo desse componente básico da alimentação, especialmente no período de entressafra. No entanto, essas pessoas, de forma resiliente, têm desenvolvido maneiras de se adaptar e contornar, pelo menos parcialmente, o problema", analisa o pesquisador Jair Carvalho. Entre as alternativas, o agrônomo cita a compra de açaí mais fino, o congelamento na safra e o plantio doméstico nos quintais.

Evolução do preço do açaí x Inflação*

Ano (1º semestre) Preço médio do litro (junho) Reajuste do açaí médio (%) Inflação oficial - INPC (%) Diferença (p.p.) Proporção do aumento (açaí x INPC)
2022 R$ 22,38 20% 4,77% 15,23 4,2 vezes maior
2023 R$ 23,98 24,68% 2,69% 21,69 9,1 vezes maior
2024 R$ 21,10 6,45% 2,68% 3,77 2,4 vezes maior
2025 R$ 30,25 31,64% 3,08% 28,56 10,3 vezes maior
2026 R$ 41,06 42,47% 3,36% 39,11 12,6 vezes maior

*Nota: Em cinco anos (junho de 2022 a maio de 2026), o preço acumulou uma alta de 83,47%. Os dados de 2026 correspondem ao acumulado de janeiro a maio. Fonte: Pesquisas DIEESE/PA e INPC/IBGE.

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