A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), em Belém, colocou a reciclagem e a gestão de resíduos em evidências, e os efeitos desse movimento foram sentidos por quem atua diretamente no setor. Na capital paraense, a presidente da cooperativa Associação dos Recicladores das Águas Lindas (Aral), Sarah Reis, 37, avalia que a COP trouxe avanços significativos para as cooperativas, principalmente com o aumento da coleta, da renda e da visibilidade, além da abertura de novas parcerias.
Sarah lembra que a cooperativa também prestou serviços para empresas durante o evento. E que, o aumento no volume de materiais recicláveis, segundo Sarah, também foi importante para complementar a renda dos catadores. E, com o tema em evidência, foi possível estabelecer novos contratos de trabalho.
“Houve uma visibilidade para as empresas para que a gente conseguisse parcerias. Recentemente, a gente assinou com uma grande empresa. O importante de tudo é que a gente não vai coletar. A empresa é quem vem deixar [os resíduos]. Seria bom que todos os empresários tivessem essa responsabilidade, tanto social quanto ambiental, de destinar, de se afirmar com a cooperativa, gerar o seu resíduo, fazer a separação e destinar de forma correta”, comenta.
A melhoria da estrutura da associação foi outro fruto colhido em meio à conferência em Belém: “Durante o período da COP, recebemos a reforma do nosso galpão. Ainda não foi entregue, mas acreditamos que essa mudança, de fato, será uma virada de chave para os catadores, proporcionando um trabalho digno, uma qualidade de vida melhor, além de visibilidade e reconhecimento pelo nosso trabalho”, aponta Sarah.
Trabalho diário
A presidente da entidade explica que a cooperativa realiza um trabalho diário e conta com 29 cooperados, incluindo ela própria. Segundo ela, as ações seguem concentradas na coleta, triagem e beneficiamento dos materiais recicláveis, além das ações de conscientização da população sobre a importância da separação dos resíduos e do encaminhamento correto para o descarte final.
“O ramo da reciclagem é muito complexo. Hoje estamos em um período bom, em relação aos preços, mas há períodos em que o valor do produto cai. Acreditamos que, cada vez mais, com o nosso trabalho, se organizando, as empresas tendo essa consciência, muitas das vezes contratando nossos serviços, essa realidade melhore ainda mais. A Aral não sobrevive só da coleta, mas a Aral coleta, faz triagem do o material, presta serviços em eventos, para empresas, e tem parceria com grandes empresas”, explica.
Mais apoio
No entanto, ainda com o balanço positivo pós-COP, Sarah considera que os resultados ainda precisam ser reforçados. Ela enfatiza a necessidade de mais infraestrutura, equipamentos, capacitação e, principalmente, remuneração justa pelos serviços ambientais prestados pelas cooperativas.
“Na COP, a gente teve um aumento bem significativo de material. Estamos coletando por mês, no máximo, entre 70 e 80 toneladas de reciclados. A nossa produção já caiu muito devido à falta de apoio, até mesmo logístico, porque toda a estrutura, todo o apoio que a gente tem são de parceiros”, observa.
Para manter a sustentabilidade da cooperativa, a presente da Aral ainda reforça a importância de apoio financeiro e logístico, ou até mesmo de novas formas de parceria. “Uma parceria, uma capacitação nunca é demais para uma cooperativa de catadores. Sempre é bem-vinda. Quanto mais parceiros você tem, mais resíduos vêm para a cooperativa e melhora a renda dos cooperados. Assim, em todos os aspectos, conseguimos desenvolver o nosso trabalho com qualidade”, pontua Sarah.
Esse momento, segundo ela, é uma forma de dar luz a temas como remunerações justas dos cooperados, que dependem dessa renda para sobreviver, como relata Sarah. “A gente continua, em todas as nossas discussões, seja com o Ministério Público, seja com a prefeitura, seja com empresa, pedindo que, de fato, nós sejamos valorizados, que sejamos pagos pelos serviços que a gente faz. Esse é um dos nossos desafios: fazer com que todos tenham esse olhar, que as cooperativas, que os catadores sejam remunerados por aquilo que eles fazem”, reforça Sarah.
Conscientização
Segundo Sarah, outro fruto colhido em meio ao evento em Belém foi a conscientização da população sobre a importância do trabalho de reciclagem. Segundo ela, é importante essa mudança de mentalidade. Ela diz que sempre se fala que a população precisa ter essa consciência e entender que o trabalho não é só da cooperativa, não é só do município. “Todos nós temos que dar as mãos: cooperativa, município, população, empresas. Todos nós temos que unir forças para que nós possamos combater, de fato, esse sistema que afeta o meio ambiente”, frisa.