DOM · 11 OUT 2026Assine
O Liberal 80 anos

NEGÓCIOS

Pequenas fábricas paraenses transformam produtos amazônicos em negócios além do Estado

Da biojoia artesanal ao hidromel produzido com mel de abelhas nativas, empresas ampliam mercados sem abrir mão da identidade amazônica

Fabyo Cruz

11 de setembro de 2026 às 08:00

Produzir no Pará e vender para consumidores de outras regiões do Brasil, e até para outros países, é um desafio que pequenas empresas paraenses vêm enfrentando com criatividade, profissionalização e valorização da identidade amazônica. Negócios como a Eco Arte Biojoias e a Hidromel Uruçun mostram como produtos regionais podem ultrapassar as fronteiras do Estado e conquistar novos mercados.

Na Eco Arte, o que começou como uma alternativa de renda para uma família se transformou em uma marca de biojoias com clientes principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste e experiências de exportação. A produção começou após o naufrágio do barco de pesca que sustentava a família Corrêa. A artesã Angela Reis e as filhas passaram a vender colares feitos com sementes na Praça da República, em Belém.

Com a visibilidade da COP 30 e o apoio do Sebrae Pará, a empresa expandiu fornecedores, reestruturou a produção e aprimorou sua gestão e vendas
Com a visibilidade da COP 30 e o apoio do Sebrae Pará, a empresa expandiu fornecedores, reestruturou a produção e aprimorou sua gestão e vendas (Foto: Igor Mota/O Liberal)

Adriane dos Reis Corrêa, 26 anos, mestranda em Farmácia e integrante da gestão da empresa, conta que o crescimento trouxe a necessidade de profissionalizar o negócio: “No início, tínhamos uma produção bastante limitada, voltada principalmente para a feira da Praça da República aos domingos”.

Com o aumento da visibilidade, especialmente durante o período da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30) em Belém, a empresa ampliou a rede de fornecedores e estruturou melhor a produção. O apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Pará também contribuiu para mudanças na gestão, no posicionamento da marca, na apresentação dos produtos e na criação de novos canais de venda.

Identidade amazônica

O contato com turistas na Praça da República ajudou a empresa a perceber o potencial de seus produtos fora do Pará. Para Adriane, a identidade amazônica é um dos principais diferenciais da marca. “As pessoas querem conhecer a origem dos materiais, o processo e as pessoas envolvidas na produção”, explica. A Eco Arte utiliza materiais como sementes de jarina, açaí e pupunha, além de escamas de peixe, transformados manualmente em colares, brincos, pulseiras e anéis.

A empresa também já participou de uma ação de exportação com apoio da ApexBrasil, que resultou em uma exportação indireta para a Espanha. Outra experiência ocorreu com uma brasileira que mantém uma loja na Alemanha e adquiriu peças da marca. Apesar da expansão, a logística continua sendo um desafio. O frete a partir da Amazônia pode ter custo maior e prazo de entrega mais longo. Além disso, o caráter artesanal limita a velocidade de produção. “O principal desafio é crescer sem perder a essência artesanal da Eco Arte”, afirma Adriane.

Da pesquisa ao mercado internacional

Na Hidromel Uruçun, o caminho para fora do Pará começou na pesquisa científica. A engenheira de produção, pesquisadora e CEO Ana Lídia Zoni Ribeiro, 43 anos, estudava a cadeia produtiva das abelhas nativas quando identificou uma dificuldade comercial enfrentada pelos produtores: o mel dessas espécies tinha características diferentes do mel convencional.

A solução encontrada foi transformar o insumo em hidromel, bebida alcoólica produzida a partir do mel. A empresa passou por um processo de capacitação e desenvolvimento até chegar à receita atualmente comercializada. Foram dois anos de trabalho até alcançar a fórmula premiada. “Eu poderia transformar o mel no hidromel e apresentar a bebida como novo código de luxo da Amazônia”, afirma Ana Lídia.

A Hidromel Uruçun surgiu da pesquisa científica da CEO Ana Lídia Ribeiro ao notar a dificuldade de comercializar o mel de abelhas nativas do Pará
A Hidromel Uruçun surgiu da pesquisa científica da CEO Ana Lídia Ribeiro ao notar a dificuldade de comercializar o mel de abelhas nativas do Pará (Foto: Carmem Helena/O Liberal)

Hoje, a Uruçun atua nos mercados nacional e internacional e está presente em oito países. Para chegar a esse estágio, a empreendedora aponta o networking, a visão empresarial e a dedicação ao negócio como fatores fundamentais. A trajetória, porém, também foi marcada por dificuldades. “As barreiras maiores foram a de empreender no Brasil com tantas burocracias e iniciar uma atividade majoritariamente masculina”, conta. Ela também relata ter enfrentado discriminação por ser mulher e pela origem regional da empresa.

Para Ana Lídia, a identidade amazônica é parte essencial do produto. O hidromel utiliza o chamado terroir amazônico como diferencial, enquanto a história da cadeia produtiva agrega valor à marca. A empresa envolve atualmente cerca de 320 famílias ligadas à meliponicultura e à venda do mel. Dessa forma, a expansão para mercados nacionais e internacionais também cria demanda para produtores que estão na base da cadeia no Pará.