Produzir no Pará e vender para consumidores de outras regiões do Brasil, e até para outros países, é um desafio que pequenas empresas paraenses vêm enfrentando com criatividade, profissionalização e valorização da identidade amazônica. Negócios como a Eco Arte Biojoias e a Hidromel Uruçun mostram como produtos regionais podem ultrapassar as fronteiras do Estado e conquistar novos mercados.
Na Eco Arte, o que começou como uma alternativa de renda para uma família se transformou em uma marca de biojoias com clientes principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste e experiências de exportação. A produção começou após o naufrágio do barco de pesca que sustentava a família Corrêa. A artesã Angela Reis e as filhas passaram a vender colares feitos com sementes na Praça da República, em Belém.

Adriane dos Reis Corrêa, 26 anos, mestranda em Farmácia e integrante da gestão da empresa, conta que o crescimento trouxe a necessidade de profissionalizar o negócio: “No início, tínhamos uma produção bastante limitada, voltada principalmente para a feira da Praça da República aos domingos”.
Com o aumento da visibilidade, especialmente durante o período da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30) em Belém, a empresa ampliou a rede de fornecedores e estruturou melhor a produção. O apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Pará também contribuiu para mudanças na gestão, no posicionamento da marca, na apresentação dos produtos e na criação de novos canais de venda.
Identidade amazônica
O contato com turistas na Praça da República ajudou a empresa a perceber o potencial de seus produtos fora do Pará. Para Adriane, a identidade amazônica é um dos principais diferenciais da marca. “As pessoas querem conhecer a origem dos materiais, o processo e as pessoas envolvidas na produção”, explica. A Eco Arte utiliza materiais como sementes de jarina, açaí e pupunha, além de escamas de peixe, transformados manualmente em colares, brincos, pulseiras e anéis.
A empresa também já participou de uma ação de exportação com apoio da ApexBrasil, que resultou em uma exportação indireta para a Espanha. Outra experiência ocorreu com uma brasileira que mantém uma loja na Alemanha e adquiriu peças da marca. Apesar da expansão, a logística continua sendo um desafio. O frete a partir da Amazônia pode ter custo maior e prazo de entrega mais longo. Além disso, o caráter artesanal limita a velocidade de produção. “O principal desafio é crescer sem perder a essência artesanal da Eco Arte”, afirma Adriane.
Da pesquisa ao mercado internacional
Na Hidromel Uruçun, o caminho para fora do Pará começou na pesquisa científica. A engenheira de produção, pesquisadora e CEO Ana Lídia Zoni Ribeiro, 43 anos, estudava a cadeia produtiva das abelhas nativas quando identificou uma dificuldade comercial enfrentada pelos produtores: o mel dessas espécies tinha características diferentes do mel convencional.
A solução encontrada foi transformar o insumo em hidromel, bebida alcoólica produzida a partir do mel. A empresa passou por um processo de capacitação e desenvolvimento até chegar à receita atualmente comercializada. Foram dois anos de trabalho até alcançar a fórmula premiada. “Eu poderia transformar o mel no hidromel e apresentar a bebida como novo código de luxo da Amazônia”, afirma Ana Lídia.

Hoje, a Uruçun atua nos mercados nacional e internacional e está presente em oito países. Para chegar a esse estágio, a empreendedora aponta o networking, a visão empresarial e a dedicação ao negócio como fatores fundamentais. A trajetória, porém, também foi marcada por dificuldades. “As barreiras maiores foram a de empreender no Brasil com tantas burocracias e iniciar uma atividade majoritariamente masculina”, conta. Ela também relata ter enfrentado discriminação por ser mulher e pela origem regional da empresa.
Para Ana Lídia, a identidade amazônica é parte essencial do produto. O hidromel utiliza o chamado terroir amazônico como diferencial, enquanto a história da cadeia produtiva agrega valor à marca. A empresa envolve atualmente cerca de 320 famílias ligadas à meliponicultura e à venda do mel. Dessa forma, a expansão para mercados nacionais e internacionais também cria demanda para produtores que estão na base da cadeia no Pará.
