Conciliar a produção agrícola com a conservação das florestas, ampliar a restauração de áreas degradadas e transformar a preservação ambiental em oportunidades econômicas estão entre os desafios e as possibilidades para o Pará. Em entrevista ao Grupo Liberal, Leonardo Sobral, diretor de Florestas e Restauração do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), destaca o potencial do estado para avançar nessa agenda por meio de incentivos econômicos, do mercado de carbono, da bioeconomia e das concessões florestais para restauração. O especialista também ressalta a importância de valorizar os produtos da floresta em pé e de fortalecer iniciativas que conciliem conservação ambiental, produção sustentável e geração de renda.
1.Quais são hoje os maiores desafios para conciliar a produção agrícola com a conservação das florestas no estado do Pará?
A primeira grande notícia é que a conciliação da produção agrícola com a área florestal é totalmente possível. Hoje não só no estado do Pará, mas em toda a Amazônia, existem áreas produtivas, áreas com aptidão de produção agrícola e que elas devem cada vez mais implementar as boas práticas produtivas. Nesse caso, eu me refiro a boas práticas tanto do ponto de vista ambiental como do ponto de vista social. E, ao mesmo tempo, mantendo a sua reserva florestal, mantendo a floresta em pé, sem que haja essa concorrência, vamos dizer, entre as atividades.
2. Como o Imaflora avalia o ritmo atual das iniciativas de reflorestamento e restauração na Amazônia? Estamos avançando no tempo necessário ou ainda não?
O tema da restauração florestal no ambiente de pesquisa já é muito consolidado, e nos últimos anos, a gente viu um grande interesse do setor privado, principalmente dada a questão do carbono florestal. A gente tem que entender que a restauração florestal é uma forma de, ao mesmo tempo que você planta as árvores, está restaurando a floresta original, e, ao crescer as árvores, ela faz o sequestro do carbono, a remoção do carbono. Você consegue dessa forma estabelecer um projeto de carbono e ter uma remuneração por esse carbono que está sendo retirado da atmosfera.
Nos últimos anos, essa atividade vem crescendo bastante, vem ganhando muita importância no Brasil, no estado do Pará, mas como você pergunta do ritmo, tem muito ainda o que se fazer. O que a gente vem discutindo é que cada vez mais deva ter incentivos econômicos. Além do carbono, outros produtos, seja madeira, seja produtos não madeireiros, possam vir atrelados a essa atividade, para que ela seja viável cada vez mais do ponto de vista econômico mesmo.
Ainda tem um longo caminho a ser percorrido, mas o que a gente vem vendo atualmente são muitas ações de fortalecimento desse setor. A gente entende que o estado do Pará tem aptidão para isso. Ele tem muitas áreas degradadas que poderiam estar sendo restauradas e já tem um programa de governo instituído, então digo que hoje temos um ambiente favorável para avançar na agenda de restauração.
3.O Imaflora tem algum projeto que avalia como destaque, com importância nessa questão do carbono no Pará ou na Amazônia?
A gente tem uma plataforma de monitoramento chamada “Carbon Track”. Essa plataforma de monitoramento da restauração florestal avalia a qualidade da restauração e ao mesmo tempo faz uma avaliação da quantidade de carbono que está sendo sequestrado.
Hoje existem diversas tecnologias nesse mundo de avanço tecnológico. Tem muita informação. Tem muita novidade. Por exemplo, a gente fez o monitoramento de uma área utilizando tecnologia de LiDAR (sigla para Light Detection and Ranging, ou Detecção e Alcance de Luz), que são lasers, embarcados num drone. Isso reduz o tempo de monitoramento em campo, otimizando essa atividade e trazendo maior precisão para a quantificação de carbono. Esse é só um exemplo. Tem outras tecnologias existentes e a gente vem cada vez mais também avançando nessa atividade.
4.Belém e o Pará estão no centro das atenções globais devido à agenda climática, principalmente depois da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) que ocorreu em novembro de 2025 aqui. Como a população local pode se beneficiar diretamente da chamada bioeconomia?
Belém de fato está no centro da atenção climática, depois da COP 30. A cidade conseguiu de fato fazer uma COP muito bem feita, no meu ponto de vista, e eu acho que a partir daí muitos benefícios podem advir disso.
A bioeconomia é um exemplo. Quando a gente fala de bioeconomia, a gente está falando de produtos da floresta, produtos da sociobioeconomia, que vão desde frutos, óleos, sementes. É uma gama enorme de produtos. A COP trouxe um legado importante: um olhar também internacional. As pessoas de vários países tiveram em Belém, podendo ver a riqueza e valorizar esses produtos. Nem o próprio Brasil também conhece essa riqueza e valoriza esses produtos. Acho que nessa perspectiva de valorização do produto, que é um produto que vai para a culinária, por exemplo, é super importante que eles sejam valorizados e reconhecidos. Por quê? Porque quanto mais a gente valoriza produtos da floresta, mais incentivo a gente está dando para que a floresta permaneça em pé.
Então, conectando um pouco os produtos da sociobioeconomia com a questão climática, a questão de contenção do desmatamento, a premissa é essa - a gente precisa valorizar a floresta em pé através de seus produtos e de seus serviços que são prestados não só localmente, no estado do Pará, em Belém, mas para todo mundo. É a regulação do clima que a gente está falando.
5. Na prática, de que forma a certificação florestal ajuda a combater o desmatamento ilegal na Amazônia?
A certificação florestal é uma ferramenta de mercado. É uma ferramenta que valoriza produtos que foram produzidos com um nível de consciência, um nível de produção que leva em consideração questões ambientais e sociais. É como se estivesse elevando a régua mesmo da produção. Esses produtos, através da certificação, do selo de um certificado, são mais valorizados pelo mercado. Por exemplo, a Europa é uma região que valoriza muito produtos certificados e pagam mais por isso e, às vezes, também não é só uma valorização de aumentar o preço, mas de abertura de mercado.
Às vezes, alguns produtos não são tradicionalmente absorvidos pelo mercado, mas pelo fato de ter a certificação, há essa abertura de mercado e as empresas começam a inserir novos produtos, novas espécies nesse mercado. Então, a certificação, hoje, é um instrumento de mercado muito importante para a valorização dos produtos.
6.Quais os principais gargalos econômicos ou técnicos que os produtores enfrentam na hora de recuperar áreas degradadas?
A recuperação de áreas degradadas tem um custo elevado. A primeira barreira é de que forma eu monto um projeto de recuperação de área degradada para que eu tenha recursos advindos dessa atividade de recuperação que ajudem no fluxo de caixa. O carbono é um exemplo mais fácil de ser visto. À medida que eu consigo vender esse carbono, estou fazendo a recuperação de uma área degradada. Por sua vez, posso estabelecer um projeto de carbono e vender esse carbono. O carbono entra como uma receita importante. Ele não consegue, obviamente, pagar todo o montante do recurso necessário para fazer a recuperação, mas ele é uma receita importante.
Outras receitas são de produtos gerados através daquela recuperação também. Se estou plantando uma determinada espécie que vai produzir uma semente ou um óleo essencial, eu também tenho como receita. Essa equação de produtos com carbono ajuda, na minha visão, a endereçar essa principal barreira que é o custo. Acho que o custo é a maior barreira.
Tem barreiras tecnológicas? Eu acho que sim, mas isso no Brasil a gente vem avançando muito. Tecnologia de produção de mudas, de viveiros, tecnologias de produção mesmo, como preparar o solo, como corrigir o solo, etc. Acho que isso a gente vem avançando bastante.
7.Muito se fala no mercado de carbono, mas às vezes poucas pessoas entendem como funciona esse mercado de carbono na prática, porque são muitos termos, muitas questões ambientais também envolvidas nisso. Se você pudesse explicar para alguém que não sabe, o que seria o mercado de carbono e como funciona atualmente o mercado de carbono na Amazônia?
Primeiro, é importante salientar que uma floresta em pé - toda a cobertura florestal, as árvores - têm carbono estocado. Tronco, folhas - tudo ali é carbono estocado. Uma das formas de mensurar esse carbono é medir todas aquelas árvores. Com isso, você tem o estoque de biomassa, transformando essa biomassa em carbono e falando “olha, em uma área de um hectare de floresta, eu tenho ali cerca de 300 toneladas de carbono”. À medida que você evita que essa floresta seja derrubada, seja desmatada, eu posso, através de um projeto, vender esse carbono. Então, essas 300 toneladas que foram evitadas de serem derrubadas viram um crédito de carbono que pode ser comercializado no mercado de carbono.
Ao mesmo tempo, quando eu tô fazendo uma área degradada, eu tô fazendo uma restauração florestal. Essa restauração, quando planta as árvores, sequestra carbono. Com essa quantidade de carbono que é sequestrado é feito todo esse cálculo para ver quantos créditos de carbono estão sendo gerados.
8.Existe algum papel das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, no sucesso dos projetos de restauração florestal? Eles têm alguma participação nisso?
Hoje os projetos de restauração florestal estão começando a ser estabelecidos, seja em territórios de comunidades tradicionais, indígenas ou assentamentos. Tem muitos exemplos de projetos. Por exemplo: na Transamazônica, que tem implantado áreas de sistemas agroflorestais. Ao mesmo tempo que você tem árvores, florestas, você também tem uma atividade produtiva, por exemplo, como o cacau, como o dendê. Então, tem sim as comunidades começando a se envolver nesse tipo de atividade. Outro projeto, talvez até o principal, envolve os territórios de comunidades tradicionais, os territórios coletivos, que têm um papel fundamental de preservação, de manutenção da floresta em pé.
9.Existe algum projeto de destaque na questão da restauração florestal na Amazônia, no Pará, que o Imaflora destacaria?
O que eu destacaria agora é o momento onde a restauração florestal está entrando na agenda das concessões florestais. Concessão florestal são áreas públicas, degradadas. Exemplo: uma unidade de conservação que pode ser concedida para uma empresa fazer a atividade de restauração e essa empresa é remunerada através da venda do carbono dessa restauração. Então, essa atividade de concessões florestais para restauração florestal é uma novidade e o Pará foi pioneiro. Está sendo pioneiro.
A primeira área concedida para restauração florestal foi feita pelo estado do Pará, pelo IDEFLOR-Bio (Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará), e na região da Terra do Meio, São Félix do Xingu, e agora o governo federal também está fazendo concessão para restauração em Rondônia. Entendo que essa é uma agenda ainda com bastante potencial e acho que é uma dobradinha que faz todo o sentido. São concessões de áreas que são degradadas para que seja feita uma restauração e no futuro a gente vai ter floresta e a gente vai ter produção dentro dessas áreas.

