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Norte registra alta de 4,4% no financiamento de veículos no semestre

Lojista da Grande Belém relata aumento na procura por crédito e aponta taxas especiais como atrativo para consumidores

Gabi Gutierrez
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O financiamento de veículos cresceu 4,4% na Região Norte no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. O avanço foi percebido também no mercado paraense. Lojistas relataram aumento na procura pela modalidade nos primeiros seis meses do ano.

Todas as regiões brasileiras registraram expansão no financiamento de veículos entre janeiro e junho deste ano, segundo dados da Trillia, empresa de análise de dados da B3. O Norte teve o menor crescimento percentual, com 4,4%, enquanto o Centro-Oeste liderou a alta, com 13,1%. Em seguida aparecem Nordeste, com 12,6%; Sul, com 11,2%; e Sudeste, com 10,6%.

No país, o financiamento de veículos avançou 10,9% no primeiro semestre, passando de 3,41 milhões para 3,78 milhões de unidades. O resultado representa o maior volume para os seis primeiros meses de um ano desde 2008, quando foram registrados 4,23 milhões de financiamentos, segundo dados da Trillia, empresa de análise de dados da B3.

Em Ananindeua, Henrique Bueno é gerente de vendas em uma concessionária e afirma que o financiamento já representa a principal forma de pagamento na loja onde trabalha.

“Hoje o financiamento representa 75% das nossas vendas, mesmo a gente tendo outras opções de compra, como o consórcio. Contribuem muito para isso as ofertas de taxas especiais que a montadora oferece e também uma análise rápida do crédito”, afirma.

Segundo Bueno, o perfil do consumidor também tem mudado, com maior atenção às condições oferecidas no momento da compra. As taxas de juros são um dos principais fatores considerados por quem pretende financiar um veículo.

“Temos um perfil de cliente que procura cada vez mais taxas de juros menores. As montadoras têm estado de olho nisso e proporcionando sempre taxas especiais, que podem chegar a zero em alguns modelos”, diz.

CENÁRIO

A busca por melhores condições ocorre em um cenário de crescimento do financiamento de veículos usados em todo o país. No acumulado de janeiro a junho, de acordo com o levantamento da Trillia, foram financiadas 2,38 milhões de unidades usadas, ante 2,18 milhões no mesmo período de 2025. Os veículos novos somaram 1,39 milhão de unidades, contra 1,22 milhão no ano anterior.

Em junho, os automóveis e comerciais leves totalizaram 434 mil unidades financiadas, alta de 11,9% em relação ao mesmo mês de 2025. O crescimento foi puxado pelos veículos usados, que avançaram 12% e chegaram a 323 mil unidades. Já os automóveis novos registraram queda de 3,3%, com 112 mil financiamentos.

Outro movimento observado foi o aumento do prazo médio dos contratos para automóveis e comerciais leves, que passou de 46,3 meses no primeiro semestre de 2025 para 47,2 meses no mesmo período deste ano.

Para os próximos meses, a expectativa do lojista é de manutenção e até aumento no ritmo das vendas financiadas. Segundo Bueno, o segundo semestre costuma ser tradicionalmente mais aquecido para o setor, impulsionado por campanhas das montadoras e pelo lançamento de novos veículos.

“Nossa expectativa para o segundo semestre é até de aumento nas vendas, como acontece normalmente em todos os anos. O último semestre é mais aquecido, devido à própria condição do mercado e também às maiores ofertas por parte da montadora”, afirma.

As condições especiais de financiamento devem continuar sendo um dos principais atrativos para o consumidor. Além disso, a chegada de novos modelos ao mercado também pode ajudar a movimentar as vendas no Pará.

“Sem dúvida, as opções de financiamento com taxas especiais serão o grande atrativo. Também teremos novos modelos lançados, como o novo Jeep Avenger, que deve chegar agora em agosto e impulsionar o ritmo das vendas no segundo semestre”, completa.

Além dos automóveis, outros segmentos também apresentaram crescimento no país. O financiamento de motocicletas chegou a 155 mil unidades em junho, alta de 5,6% na comparação com o mesmo mês de 2025. Já os veículos pesados, como caminhões e ônibus, somaram 24 mil unidades financiadas, crescimento de 7,1%.

Crédito caro e informalidade limitam avanço no Norte

Na avaliação do economista Everson Costa, o crescimento de 4,4% no financiamento de veículos na Região Norte, embora positivo, deve ser considerado moderado diante dos resultados registrados nas demais regiões do país. Segundo ele, fatores estruturais da economia regional ajudam a explicar o desempenho abaixo da média nacional de 10,9%.

Para o economista, o resultado não significa falta de interesse das famílias em comprar ou renovar um veículo. Pelo contrário, há demanda por carros, motos e até modelos híbridos e elétricos, mas o acesso ao crédito ainda impõe barreiras importantes para parte dos consumidores.

“Não significa necessariamente falta de interesse das famílias em adquirir um veículo. Muitas têm o desejo de renovar, de comprar um novo, de adquirir um híbrido, um elétrico ou uma moto. Mas as condições para essa compra e para esse financiamento são restritivas, em especial para nós”, afirma.

Entre os principais obstáculos, Everson cita o custo do crédito. Como a maior parte das compras de veículos não é feita à vista, o financiamento se torna sensível às taxas de juros e ao valor das parcelas, especialmente nos contratos de longo prazo.

“Uma parcela de financiamento de quatro ou cinco anos compromete uma parcela significativa da renda dessa família”, observa.

Outro fator apontado pelo economista é a dificuldade de acesso ao crédito em uma região marcada por altos índices de informalidade. Segundo ele, mesmo com o crescimento do mercado de trabalho, muitos consumidores enfrentam dificuldades para comprovar renda e estabilidade financeira, o que torna a análise de crédito mais rigorosa e pode resultar em juros mais elevados.

No Pará, por exemplo, Everson destaca que a informalidade atinge quase 60% dos trabalhadores. “Como é que você vai comprovar essa renda? Como é que a financeira vai conseguir colocar uma taxa de juros menor sabendo que o risco de inadimplência é alto?”, questiona.

Custo de vida e despesas pesam na decisão

Na avaliação do economista, esse cálculo pesa ainda mais em uma região onde o custo de vida é elevado. “Quem adquire um veículo também pensa nos gastos para além da parcela do financiamento: combustível, seguro, manutenção, pneu, impostos e outros”, afirma.

As características territoriais da Região Norte também ajudam a explicar por que o crescimento do financiamento ficou abaixo das demais regiões, segundo o economista. A grande extensão territorial, as longas distâncias entre os municípios e a distribuição desigual da população e dos serviços dificultam a expansão do mercado.

“Temos particularidades econômicas e territoriais que nos ajudam a compreender por que a expansão do financiamento de veículos fica abaixo da média nacional”, afirma.

Everson cita ainda a presença desigual de concessionárias, revendedoras, bancos e instituições especializadas em financiamento. Enquanto centros como Belém, Marabá, Parauapebas e Santarém concentram maior oferta de veículos e serviços financeiros, municípios mais distantes enfrentam limitações de acesso.

Outro aspecto é a própria dinâmica da mobilidade na Amazônia. Em estados como Pará e Amazonas, o transporte rodoviário convive com uma forte presença do transporte fluvial, o que também influencia a demanda por carros e motos em diferentes localidades.

Para o economista, há um potencial significativo de expansão do mercado automobilístico no interior da região, mas fatores como logística, distribuição, renda e acesso ao crédito ainda limitam esse crescimento.

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