A exploração de petróleo na Margem Equatorial terá como um dos principais desafios a logística para transportar o óleo produzido em águas profundas até a costa, em uma região marcada por extensos manguezais, alta biodiversidade e comunidades que dependem da pesca e do extrativismo. Em entrevista a O Liberal, o geólogo e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Pedro Walfir também explica as transformações naturais e climáticas observadas na costa amazônica e fala sobre os dois livros que lançará em outubro, um deles dedicado à trajetória profissional e outro à sua experiência pessoal e à mudança de hábitos após os 50 anos. Confira a seguir. O LIBERAL: Como o senhor percebeu a recepção, entre os especialistas locais, da notícia sobre a descoberta de petróleo na Margem Equatorial? PEDRO WALFIR: Percebi entusiasmo no mundo acadêmico. Hoje, no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará, desenvolvemos mais de oito projetos financiados pela Petrobras sobre diferentes temas, como estratigrafia, evolução da Margem Equatorial, rochas geradoras de petróleo, proveniência dos sedimentos e possíveis impactos ambientais e socioeconômicos da exploração. O LIBERAL: O que torna a costa amazônica particularmente complexa para a exploração de petróleo? PEDRO WALFIR: O principal desafio é trazer o óleo produzido em águas profundas para a costa. O bloco da Foz do Amazonas está a cerca de 150 quilômetros da linha de costa e a mais de 1.500 metros de profundidade. A Petrobras declarou a descoberta e fará novos furos para investigar o potencial comercial do recurso. A logística para transportar o óleo por navios ou dutos é complexa. O LIBERAL: E quais seriam as principais preocupações em caso de acidente? PEDRO WALFIR: É preciso ter muito cuidado porque estamos falando de uma das regiões mais conservadas do planeta, com características fisiográficas e geológicas únicas. Temos o maior rio do mundo em descarga de água doce e de sedimentos, uma biodiversidade riquíssima e uma população costeira que vive da pesca e da coleta de mariscos. Um acidente poderia trazer prejuízos sociais e econômicos para essas comunidades. O LIBERAL: Já existe uma estrutura preparada para responder a um eventual vazamento? PEDRO WALFIR: Há mais de 20 anos coordenei um projeto chamado Piatã Mar, criado a partir da necessidade da Petrobras de identificar os potenciais impactos de um derrame de óleo. O projeto começou em 2004, depois do acidente na Baía de Guanabara, ocorrido em 2000. O risco sempre existiu. O LIBERAL: Mesmo sem exploração de petróleo na região, esse risco já existe? PEDRO WALFIR: Sim. Todo o combustível que abastece as cidades amazônicas chega de navio pelo Oceano Atlântico, atravessando a Foz do Amazonas. Esse óleo segue para Belém, Manaus, Santarém, Rondônia e outras cidades. Felizmente, até hoje não tivemos um grande acidente, mas existem estruturas para conter e remover manchas de óleo antes que atinjam os ambientes mais sensíveis, especialmente os manguezais. O LIBERAL: Depois de mais de 20 anos de estudos, ainda existem lacunas importantes sobre os riscos ambientais? PEDRO WALFIR: Sem dúvida. Quanto mais descobrimos, mais percebemos o quanto ainda não conhecemos. Um dos principais gargalos é desenvolver bons modelos oceanográficos capazes de prever, em caso de acidente, para onde o óleo poderia se deslocar. O LIBERAL: O que seria necessário para aprimorar essa previsão? PEDRO WALFIR: Precisamos combinar imagens de satélite e modelos matemáticos para calcular e calibrar esses cenários, definir melhor os riscos e identificar locais para instalação de centros de proteção costeira. Também precisamos estabelecer o chamado baseline geoquímico dos ambientes costeiros antes de uma eventual produção comercial. O LIBERAL: O que significa estabelecer esse baseline? PEDRO WALFIR: É conhecer a condição ambiental atual. Precisamos saber, por exemplo, a concentração de metais nos manguezais e quais tipos de óleo já estão presentes na costa. Embarcações que circulam pelos estuários utilizam óleo diesel, que também chega aos manguezais. Se houver produção comercial no futuro, esse levantamento permitirá comparar as condições ambientais ao longo de décadas. O LIBERAL: Um dos livros que o senhor lançará é o “Atlas dos Manguezais no Pará”. O que há de mais curioso nesses ambientes? PEDRO WALFIR: O Pará é o segundo estado brasileiro com maior área de manguezais, atrás apenas do Maranhão. Do ponto de vista geológico, há características muito interessantes. Os manguezais que temos hoje começaram a se desenvolver amplamente há cerca de 2.100 anos. O LIBERAL: O que chama atenção na dimensão desses manguezais? PEDRO WALFIR: Eles são extremamente exuberantes e chegam a ter entre 36 e 40 quilômetros de largura. Esse tipo de manguezal contínuo, com dezenas de quilômetros do continente em direção ao mar, também é encontrado na região dos rios Ganges e Brahmaputra, na Índia, e na Nova Guiné. Além disso, temos quase seis metros de espessura de lama depositada. É uma característica muito particular. Uma das perguntas que ainda não conseguimos responder completamente é de onde veio toda essa lama. O LIBERAL: Por que essa origem ainda é uma questão? PEDRO WALFIR: Os rios que cortam o Nordeste do Pará, como Maracanã, Caeté, Gurupi e Piriá, não transportam uma carga sedimentar tão grande. São rios de água preta, com pouco material sólido em suspensão. Uma das hipóteses é que, em algum momento do passado, o Amazonas tenha transportado sedimentos para leste, formando o cinturão contínuo de manguezais entre Belém e São Luís. O LIBERAL: Muitas comunidades tradicionais ainda dependem desses manguezais. Essa relação está ameaçada? PEDRO WALFIR: Elas vivem da captura do caranguejo, da pesca e da coleta de mariscos. As novas gerações, porém, estão cada vez mais distantes dessas atividades, porque são modos de vida muito duros. A pesca e a captura de mariscos continuarão existindo, mas talvez em uma proporção menor do que no passado. A produção poderá assumir outras formas, incluindo a indústria e diferentes modalidades de pesca artesanal. O manguezal é conhecido principalmente pelo caranguejo, mas a biodiversidade é muito maior. Há uma fauna diversificada, com ostras, cobras, peixes e outras espécies. Os manguezais funcionam como berçários para diversas espécies e têm uma biodiversidade que é detalhada no Atlas. As comunidades tradicionais conservam os manguezais e desenvolvem modos de vida adaptados a esses ambientes. O LIBERAL: Qual parcela dos manguezais paraenses está protegida por unidades de conservação? PEDRO WALFIR: Cerca de 73% dos 2.380 quilômetros quadrados de manguezais do Pará estão dentro de unidades de conservação. Existem 14 reservas extrativistas na região. O LIBERAL: E qual é o nível de degradação desses manguezais? PEDRO WALFIR: Menos de 1% dos manguezais já foi degradado ou destruído. Considerando Amapá, Pará e Maranhão, a taxa de degradação dos manguezais amazônicos também é inferior a 1%. O LIBERAL: O que explica essa baixa degradação? PEDRO WALFIR: O manguezal é um ambiente naturalmente difícil de ocupar. É difícil entrar com máquinas, por exemplo, porque o terreno é muito instável. Além disso, houve uma iniciativa humana de proteção por meio da legislação e das unidades de conservação. O LIBERAL: E onde ocorreu a maior parte da degradação? PEDRO WALFIR: Principalmente na construção de estradas sobre os manguezais para conectar vilas. Um exemplo é a estrada entre Bragança e Juruteua, com quase 26 quilômetros atravessando o manguezal. Também existem pequenas intervenções urbanas, como calçadões, praças e ampliação de ruas. O principal fator de degradação é a abertura de estradas. O LIBERAL: O Atlas também aborda elevação do nível do mar, erosão, alterações na sedimentação e mudanças de salinidade. O que essas transformações indicam para as próximas décadas? PEDRO WALFIR: A mudança é uma constante geológica. A Terra está sempre em transformação e os manguezais também continuarão mudando. A região da Foz do Amazonas, abrangendo Amapá, Pará e Maranhão, apresenta uma dinâmica diferente de outras partes do Brasil. Durante os últimos 10 mil anos, o nível do mar nessa região nunca esteve acima do nível atual. No Nordeste, Sudeste e Sul, houve períodos em que o nível do mar ficou alguns metros acima do atual. O LIBERAL: E quais efeitos dessa elevação já podem ser observados? PEDRO WALFIR: Os manguezais estão migrando rio acima, em direção ao continente, e há uma salinização de trechos superiores dos rios. Ao mesmo tempo, os sedimentos marinhos estão avançando sobre manguezais do litoral. Em praias como Ajuruteua e Romana, é possível encontrar manguezais mortos, com árvores sem vegetação. O avanço da areia sobre esses ambientes pode matar a vegetação enquanto o mar avança em direção ao continente. O LIBERAL: Qual é a relação desse processo com as mudanças climáticas? PEDRO WALFIR: A elevação do nível do mar é um processo natural associado às transformações climáticas do planeta. As emissões de CO₂ provocadas pela atividade humana desde a Revolução Industrial podem estar acelerando esse processo. Essa aceleração é uma das questões discutidas atualmente pela ciência. O LIBERAL: O senhor também lançará o livro “Eu Me Reinventei Depois dos 50”. Em que momento percebeu que precisava se reinventar? PEDRO WALFIR: A vida, assim como a geologia, é feita de ciclos e períodos. Aos 49 anos, em 2020, tive um AVC isquêmico que não apresentou sintomas perceptíveis. Descobri o problema durante um check-up neurológico. Esse episódio mudou minha relação com a vida. Meus pais morreram jovens, ambos vítimas de AVC. Eu havia sido diagnosticado com hipertensão aos 23 anos, mantinha uma alimentação regrada e praticava atividade física. O episódio me fez perceber que precisava continuar me reinventando. Eu já havia parado de consumir álcool e carne vermelha. Depois do AVC, em 2021, li o livro “Comer para não morrer”, do médico Michael Greger. A partir daí, adotei uma alimentação vegetariana e depois vegana, baseada em alimentos vegetais, integrais e não processados. O LIBERAL: De onde veio a relação com o esporte? PEDRO WALFIR: Sempre gostei de atividade física. Fiz natação na juventude, depois comecei a correr e a andar de bicicleta. Em 2009, um colega me convidou para participar de um triatlo sprint. Comprei uma bicicleta, fiz a prova e gostei. Em 2017 comecei a treinar regularmente. Consegui encaixar a atividade física na rotina com a compreensão da família. Em 2018 fiz meu primeiro meio Ironman e, em 2019, o primeiro Ultraman. O maior desafio é mental e organizacional. Não é possível treinar 20 ou 30 horas por semana sem organização e disciplina. Também é necessário abrir mão de algumas coisas que proporcionam prazer. O LIBERAL: O que o senhor quer dizer com: “Precisamos construir uma vida inteira, não apenas uma carreira”? PEDRO WALFIR: Muitas pessoas fazem da carreira e do trabalho a própria vida. Para mim, não deve ser assim. Quando digo que precisamos construir uma vida inteira, quero dizer que é necessário equilibrar trabalho, família, saúde, esporte e outras dimensões da existência. Descobri muito cedo a falta que um pai e uma mãe fazem. Quando me tornei pai, procurei ser o mais presente possível, mesmo tendo uma carreira, pesquisas e muito trabalho. O LIBERAL: Como esse equilíbrio pode ser colocado em prática? PEDRO WALFIR: É preciso definir prioridades. Não adianta dedicar tudo ao trabalho e esquecer o restante da vida. Da mesma forma, é preciso evitar que outras responsabilidades eliminem completamente o espaço pessoal. Procuro trabalhar oito horas por dia, sem acrescentar horas além disso, para que as outras atividades caibam na agenda. Nas férias, consigo dormir melhor, treinar melhor, comer melhor e conviver mais com as pessoas que amo. Criei os conceitos de “nanoférias” e “microférias”. As nanoférias são os períodos do dia que considero meus: da hora em que acordo até o início do trabalho, o horário do almoço e o período entre o fim do expediente e o sono. As microférias são os fins de semana e feriados. As férias são os períodos maiores de descanso. Aos sábados e domingos tenho treinos, compromissos familiares e atividades pessoais. O fim de semana precisa ser preservado. Quando alguém passa 12 horas por dia trabalhando, sobra pouco tempo para viver. O trabalho pode se tornar um fardo e outras dimensões da vida acabam sendo negligenciadas. Buscar equilíbrio é fundamental. O LIBERAL: Para finalizar: onde o público pode encontrar informações sobre os dois livros que o senhor lançará? PEDRO WALFIR: Tenho um site pessoal, pedrowalfir.com.br, com informações sobre “Eu Me Reinventei Depois dos 50” e o “Atlas dos Manguezais no Pará”, que está em fase de impressão. O lançamento do Atlas foi adiado por causa do período eleitoral, que termina em 25 de outubro. O projeto tem patrocínio da Petrobras e chancela da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade.