O preço médio da gasolina comum voltou a subir em Belém após registrar queda nas primeiras semanas de outubro. Segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o litro passou de R$ 6,39 para R$ 6,49 na semana de 25 a 31 de outubro, um aumento de R$ 0,10. A oscilação ocorre em meio à preocupação dos motoristas com os gastos para abastecer e à perspectiva de aumento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre os combustíveis a partir de fevereiro de 2027.
Os dados da ANP mostram que a gasolina custava, em média, R$ 6,50 por litro entre os dias 4 e 10 de outubro. Na semana seguinte, o valor caiu para R$ 6,39, permanecendo nesse patamar até 24 de outubro. Apesar da alta mais recente, o preço médio ainda estava R$ 0,01 abaixo do registrado no início do mês.
A pesquisa mais recente, realizada em 19 postos da capital paraense, também revela diferenças significativas entre os estabelecimentos. O menor preço encontrado foi de R$ 5,81, enquanto o maior chegou a R$ 6,87 por litro, uma variação de R$ 1,06. A diferença reforça a importância da pesquisa de preços para os consumidores que precisam abastecer regularmente.
Motoristas relatam impacto da gasolina no orçamento
Para o pedagogo Ricardo Lima, as oscilações de preços representam uma dificuldade constante, especialmente diante das condições de trânsito da capital paraense.
“Pesa no bolso, sim, com certeza. Muitos gastos por conta da variação constante desses valores. Cada posto tem um preço diferente, às vezes também muito parecido, fica sem opção. E o consumo é alto na cidade, muito engarrafamento, então realmente pesa no bolso”, afirma Ricardo.
O motorista conta que utiliza aplicativos de desconto para conseguir valores mais baixos nas bombas. Recentemente, conseguiu abastecer com gasolina por preços entre R$ 5,90 e R$ 5,92 por litro. Segundo ele, os benefícios oferecidos pelos aplicativos ajudam a amenizar uma das principais despesas do orçamento doméstico.
“Alimentação e gasolina são os dois grandes gastos que nós temos”, destaca o pedagogo.
A auxiliar de limpeza Lucicleide Braga também acompanha as despesas com combustível. Ela utiliza uma motocicleta como meio de transporte e costuma abastecer duas vezes por semana. O gasto mensal varia entre R$ 80 e R$ 100, dependendo da necessidade de realizar plantões extras no trabalho.
“Ajuda um pouquinho. Poderia abaixar um pouco mais”, diz Lucicleide, ao comentar a redução percebida nos preços.
O que explica a oscilação dos preços dos combustíveis?
Procurado pela reportagem, o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Pará (Sindicombustíveis Pará) informou que não realiza monitoramento sistemático dos valores praticados individualmente pelos postos. Por esse motivo, a entidade não dispõe de dados próprios para confirmar ou dimensionar uma redução recente no preço da gasolina em Belém.
“Os preços são estabelecidos livre e individualmente por cada estabelecimento, conforme suas condições comerciais e operacionais”, explica Pietro Gasparetto, advogado e porta-voz do Sindicombustíveis Pará.
Segundo a entidade, a formação dos preços depende de diferentes fatores, como custos de aquisição, condições de fornecimento, logística, tributação e dinâmica de mercado. No caso do etanol, a sazonalidade da produção e as condições do mercado sucroenergético exercem influência importante. Já o diesel apresenta maior sensibilidade às oscilações internacionais do petróleo e seus derivados, especialmente na Região Norte, devido às particularidades logísticas do abastecimento.
O sindicato não apresentou números sobre a evolução recente dos preços desses dois combustíveis em Belém. Também não apontou uma causa específica para a oscilação registrada pela ANP no valor da gasolina.
Quanto à possibilidade de novas quedas ou aumentos, o cenário permanece indefinido. Além dos custos de fornecimento, fatores como a cotação internacional do petróleo, a taxa de câmbio, os preços praticados por refinarias e importadores e as condições de oferta e demanda podem influenciar os valores nas bombas.
“Não é possível antecipar com segurança o comportamento dos preços nos próximos dias, pois existem diversas variáveis que interferem na formação dos custos dos combustíveis”, afirma Pietro Gasparetto, do Sindicombustíveis Pará.
O representante também ressalta que eventuais mudanças nos custos de aquisição não são necessariamente repassadas de forma imediata ou uniforme ao consumidor. Isso ocorre porque cada estabelecimento possui condições próprias de estoque, fornecimento e operação.
Aumento do ICMS pode pressionar preços a partir de fevereiro de 2027
Além das oscilações de mercado, os consumidores deverão acompanhar os efeitos de uma mudança na tributação dos combustíveis. No último dia 29 de outubro, os governadores que integram o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) aprovaram um reajuste do ICMS em todo o território nacional, com entrada em vigor prevista para 1º de fevereiro de 2027.
O maior aumento percentual será aplicado ao diesel, com elevação de 11,1%. Na gasolina, o reajuste será de 4,5%, enquanto para o gás está previsto um aumento de 4,8%.
Conforme os valores apresentados pelo Sindicombustíveis Pará, o ICMS da gasolina passará de R$ 1,57 para R$ 1,64 por litro, um acréscimo de R$ 0,07. No diesel, a tributação aumentará de R$ 1,17 para R$ 1,30 por litro, diferença de R$ 0,13.
O sindicato avalia que a elevação da carga tributária poderá pressionar os custos de comercialização, mas ressalta que não é possível determinar antecipadamente quanto desse aumento será refletido nos preços pagos pelos motoristas.
“É importante lembrar que o ICMS sobre esses combustíveis é cobrado em valor fixo por litro, independentemente do preço de venda. Assim, o aumento da tributação representa um acréscimo objetivo na composição dos custos, embora seu reflexo no preço final dependa das demais condições de mercado”, explica Pietro Gasparetto.
A reportagem procurou o governo do Pará para confirmar a aplicação dos novos valores do ICMS no Estado e solicitar esclarecimentos sobre os efeitos da medida. Até o fechamento deste texto, não houve retorno.
ANP aplica mais de R$ 700 milhões em multas a distribuidoras
Em outra frente relacionada ao mercado de combustíveis, a ANP aplicou mais de R$ 700 milhões em multas a distribuidoras por aumentos considerados abusivos de preços. As penalidades, ainda em primeira instância, resultaram de fiscalizações realizadas durante a vigência de duas medidas provisórias que autorizavam a agência a investigar e punir essas práticas.
As investigações identificaram aumentos sem justificativa de até 4.000% na margem entre o custo de compra e o preço de venda dos produtos. As distribuidoras multadas respondem, juntas, por mais de 45% dos combustíveis comercializados no Brasil em 2026. Os nomes das empresas não foram divulgados.
A agência também encaminhou 11 processos envolvendo dez distribuidoras ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para avaliação de possíveis práticas contrárias à concorrência. A ANP ressaltou que o encaminhamento não significa a comprovação de infrações econômicas.
Com a perda de validade das medidas provisórias, a agência deixou de ter competência direta para aplicar novas punições por preços abusivos. Os processos restantes deverão ser encaminhados aos órgãos de defesa do consumidor após análise das notas fiscais.
Gasolina comum em Belém — evolução do preço médio
- 4 a 10 de outubro: R$ 6,50 por litro
- 11 a 17 de outubro: R$ 6,39 por litro
- 18 a 24 de outubro: R$ 6,39 por litro
- 25 a 31 de outubro: R$ 6,49 por litro
- Aumento na última semana: R$ 0,10 por litro
Diferença entre postos — 25 a 31 de outubro
- Postos pesquisados: 19
- Menor preço: R$ 5,81
- Maior preço: R$ 6,87
- Diferença: R$ 1,06 por litro
Novos valores do ICMS a partir de fevereiro de 2027
- Gasolina: de R$ 1,57 para R$ 1,64 por litro
- Aumento: R$ 0,07 por litro (4,5%)
- Diesel: de R$ 1,17 para R$ 1,30 por litro
- Aumento: R$ 0,13 por litro (11,1%)
Fontes: ANP e Sindicombustíveis Pará
