A possibilidade de um El Niño de intensidade muito forte acende um alerta para a navegação na Amazônia, com risco de redução do nível dos rios, restrições ao transporte de cargas e aumento dos custos logísticos. Diante desse cenário, o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) e do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra) da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Alex Dias Carvalho, defendeu medidas preventivas e voltou a cobrar a dragagem do rio Tapajós.
O assunto foi discutido nesta terça-feira (27), em Brasília, durante a primeira reunião conjunta do Coinfra e do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coemas) da CNI. O encontro reuniu representantes do setor produtivo e especialistas para avaliar os possíveis impactos do fenômeno climático sobre a infraestrutura, a economia e o meio ambiente.
O alerta foi apresentado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Segundo o Painel El Niño 2026–2027, há 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com efeitos que podem se estender até 2027. Em algumas áreas do Pacífico Equatorial, as anomalias na temperatura das águas chegam a 3,6°C.
Na região Norte, a previsão de redução das chuvas preocupa especialmente o transporte hidroviário, essencial para a circulação de pessoas e mercadorias. Carvalho afirmou que a navegabilidade precisa ser tratada como uma questão econômica, social e ambiental.
“A navegabilidade não tem apenas uma dimensão econômica, mas também social e ambiental. Por isso reiteramos às autoridades competentes a decisão pela dragagem do rio Tapajós que, apesar de todos os dados apontando para a crise, foi negligenciada”, declarou.
O dirigente também alertou que eventuais restrições à navegação podem transferir parte da demanda para o transporte rodoviário, pressionando os custos logísticos e aumentando as emissões de gases de efeito estufa. Para ele, é necessário estabelecer uma agenda para as hidrovias, baseada em ciência, planejamento e investimentos em infraestrutura.
Impactos ao Arco Norte
Os impactos de uma possível seca também preocupam o Arco Norte, corredor estratégico para o escoamento da produção agrícola brasileira. Durante a reunião, o chefe de Pesquisa Econômica Regional do Banco do Brasil, Júlio Lopes, lembrou que as secas de 2023 e 2024 limitaram o transporte hidroviário e elevaram os custos logísticos. Apesar dos níveis atualmente mais favoráveis dos rios, novas restrições não estão descartadas.
Lopes também apresentou uma projeção de queda de 2,5% no Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária em 2027, considerando o cenário-base de um Super El Niño. A região do Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, está entre as mais preocupantes, devido à possibilidade de calor acima da média e chuvas abaixo do esperado, com prejuízos às safras de soja e milho.
No Sul do país, o principal risco é a ocorrência de chuvas intensas, alagamentos e danos à infraestrutura. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul foram citadas como exemplo dos impactos dos desastres climáticos sobre empresas, empregos e serviços.
O coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, Márcio Rojas da Cruz, também alertou para o agravamento dos eventos extremos. Segundo ele, estudos para a próxima Comunicação Nacional do Brasil sobre mudanças climáticas apontam municípios com aquecimento médio superior a 2°C em relação ao período pré-industrial. Em cenários de emissões elevadas, a alta poderá alcançar 4°C em grande parte do país.
Infraestrutura e sustentabilidade
O presidente do Coemas, Marcelo Thomé, destacou que os efeitos do El Niño vão além das condições meteorológicas e podem comprometer o abastecimento de água, a geração hidrelétrica, os custos de energia e a integridade de rodovias, ferrovias e hidrovias. Para ele, os prognósticos climáticos devem orientar investimentos em adaptação.
O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, defendeu a articulação entre setor produtivo, governo e comunidade científica para transformar os indicadores climáticos em medidas preventivas. No caso das hidrovias amazônicas, ele ressaltou a importância de conciliar soluções logísticas com a proteção ambiental e a consulta aos povos indígenas e às comunidades tradicionais.
Ao encerrar o encontro, Alex Dias Carvalho afirmou que a integração entre infraestrutura e sustentabilidade é fundamental para recuperar a competitividade da indústria brasileira. Ele disse que o país precisa avançar em obras e investimentos sem desconsiderar as questões socioambientais.
“Não precisamos escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade. Precisamos de convergência, transparência e decisões que garantam o futuro do país. Esse não é apenas um apelo da Amazônia, mas de todo o Brasil e das próximas gerações”, concluiu.

