A extensa malha hidrográfica da Amazônia faz dos rios as principais vias de integração entre cidades, comunidades ribeirinhas e polos econômicos. Por trás dessa dinâmica está uma cadeia produtiva que começa nos estaleiros — artesanais e industriais — responsáveis pela construção e manutenção das embarcações que transportam desde alimentos e passageiros até grãos, minérios e combustíveis. No Pará, o setor reúne conhecimento tradicional, engenharia especializada e uma atividade econômica estratégica para o desenvolvimento regional.
Embora ainda existam poucos estaleiros industriais de grande porte no estado, centenas de oficinas artesanais espalhadas por municípios ribeirinhos garantem a produção de embarcações adaptadas às diferentes realidades dos rios amazônicos. Fontes ouvidas pelo Grupo Liberal afirmam que o segmento tem potencial de crescimento, mas depende de investimentos em tecnologia, qualificação profissional, financiamento e políticas públicas para ampliar sua competitividade.

Transporte que move a economia
Na Amazônia, a eficiência do transporte hidroviário explica a importância da indústria naval para a economia. Segundo o engenheiro naval Ramon Almeida, a capacidade de carga das embarcações supera, em larga escala, a do transporte rodoviário.
"Uma carreta de grãos normalmente leva em torno de 40 toneladas, enquanto uma embarcação média projetada na nossa região transporta cerca de 4 mil toneladas. Estamos falando de um transporte capaz de movimentar a economia cerca de 100 vezes mais. Pode levar um pouco mais de tempo, mas a redução da emissão de carbono e outros benefícios são muito significativos", afirma.

O diretor da Faculdade de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará (UFPA), Emannuel Loureiro, destaca que a indústria naval tem papel estratégico porque o transporte fluvial é o principal meio de conexão entre milhares de comunidades amazônicas.
"O transporte hidroviário integra municípios de difícil acesso terrestre e é essencial para o deslocamento de pessoas, alimentos, combustíveis, insumos e mercadorias. Além disso, a construção naval movimenta uma ampla cadeia produtiva, gera empregos qualificados e fortalece a economia regional", ressalta.
Da encomenda ao lançamento da embarcação
Antes de chegar às águas, cada embarcação percorre um processo que pode durar meses ou até anos. Segundo Ramon Almeida, tudo começa com a necessidade do armador, responsável pela operação da futura embarcação.
"O armador tem a ideia do negócio, identifica a necessidade logística e procura um engenheiro naval. O projeto é desenvolvido e, depois, executado pelo estaleiro, que entrega a embarcação pronta para atender aquela demanda. Dependendo da complexidade, esse processo pode levar meses ou anos", explica.

O administrador Adriano Dandolini afirma que, nos estaleiros voltados às embarcações regionais, a construção costuma ser financiada de forma gradual pelo cliente.
"Geralmente, o cliente vai fazendo os aportes para compra de material e pagando a mão de obra conforme a evolução da construção. Nos grandes estaleiros, que produzem balsas e empurradores, a lógica é semelhante, mas os investimentos são maiores", afirma.
Tradição artesanal convive com a indústria
Na Amazônia, os estaleiros artesanais continuam predominando na produção de embarcações de madeira destinadas ao transporte regional, especialmente em municípios como Igarapé-Miri e Breves. Já os estaleiros industriais concentram-se principalmente em Belém e atendem, sobretudo, à crescente demanda do agronegócio.
Para Ramon Almeida, a principal diferença entre os dois modelos está no nível de tecnologia empregado.
"Sou fã dos estaleiros artesanais. Os mestres constroem embarcações com uma habilidade extraordinária. A grande diferença está na tecnologia, que permite aumentar a produtividade, reduzir o tempo de construção e melhorar as condições de segurança dos trabalhadores", afirma.

Segundo Dandolini, a produção artesanal permanece indispensável porque cada região amazônica exige características específicas nas embarcações.
"Não existe produção em série para embarcação de carga na Amazônia. Cada rio tem uma necessidade diferente. A embarcação usada no Baixo Tocantins não é a mesma do Tapajós ou do Alto Amazonas. Essa adaptação é feita, principalmente, pelos estaleiros artesanais."
Loureiro acrescenta que boa parte das embarcações amazônicas ainda é construída em madeira devido ao conhecimento acumulado pelos mestres construtores e à facilidade de manutenção. Já as embarcações em aço vêm ampliando espaço em operações que exigem maior capacidade de carga e vida útil prolongada.

Setor enfrenta falta de crédito e mão de obra
Apesar da importância econômica, representantes do setor apontam entraves que dificultam a expansão da indústria naval amazônica. Entre eles estão o alto custo de produção, escassez de profissionais qualificados e dificuldade de acesso ao financiamento.
"Custo tributário muito alto, poucos incentivos fiscais e praticamente nenhuma linha de crédito para construção ou reforma naval. Muitas pessoas querem investir, mas não conseguem financiamento", afirma Adriano Dandolini.
Ele também destaca a perda de trabalhadores especializados para outros estados.
"Muita mão de obra do Pará e do Maranhão está migrando para polos navais de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Se houvesse incentivo e crédito, essas pessoas voltariam", declarou.

Ramon Almeida afirma que alguns estaleiros têm buscado suprir essa necessidade investindo na formação dos próprios trabalhadores, em parceria com universidades.
"Temos programas de estágio, qualificação de soldadores e treinamentos voltados às normas regulamentadoras, como trabalho em altura, espaços confinados e segurança ocupacional."
Na avaliação de Emannuel Loureiro, o fortalecimento do setor depende da combinação entre financiamento, inovação e integração institucional.
"É fundamental ampliar os investimentos em pesquisa, modernizar os estaleiros, fortalecer a qualificação profissional e estreitar a parceria entre universidades, empresas e governos para estimular a transferência de tecnologia", disse.

Potencial de crescimento
Especialistas avaliam que a demanda pelo transporte hidroviário continuará impulsionando a indústria naval amazônica nos próximos anos. Segundo Dandolini, há um déficit estimado entre 3 mil e 4 mil barcaças destinadas ao transporte de grãos que precisariam ser produzidas nos próximos cinco anos.
"Se tivermos incentivo fiscal e linhas de crédito, o Pará reúne condições para se tornar o maior polo de construção naval em atividade no país", afirma.
Para Loureiro, a combinação entre a vasta rede hidrográfica amazônica, a necessidade de renovação da frota e o avanço de tecnologias voltadas à eficiência energética cria um cenário favorável para o crescimento do setor.
"Com planejamento, investimentos e políticas públicas voltadas à modernização dos estaleiros, renovação da frota, melhoria da infraestrutura hidroviária e incentivo à inovação, a construção naval pode se consolidar como um importante vetor de desenvolvimento sustentável para a Amazônia”, declarou.
O Grupo Liberal solicitou à prefeitura de Belém o número de estaleiros atualmente em atividade na capital e quantos estaleiros existem no Pará, mas não obteve retorno.
