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Direito

Entidades empresariais pedem saída do Brasil de convenção internacional

Para setor produtivo, norma inviabiliza investimentos, enquanto comunidades tradicionais defendem respeito a direitos territoriais

Fabrício Queiroz

24 de julho de 2022 às 10:00

Na próxima semana a Fiepa promoverá reuniões setoriais para que os associados discutam com clareza o que está sendo apreciado na Alepa

Na próxima semana a Fiepa promoverá reuniões setoriais para que os associados discutam com clareza o que está sendo apreciado na Alepa ( Foto: Google Street )

A divulgação de um ofício encaminhado ao presidente Jair Bolsonaro e assinado pela Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), a Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA), a Federação do Comércio do Estado do Pará (Fecomércio/PA), a Associação Comercial do Pará (ACP) e o Centro de Indústria do Pará (CIP) expõe a fissura entre o setor produtivo e os povos e comunidades tradicionais.

No documento, as entidades solicitam que o país deixe de ser signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada no Brasil em 2002. Em seu texto, a Convenção traz uma série de dispositivos para definição desses grupos, o papel do Estado na proteção e promoção de direitos e reconhece seus direitos de posse e propriedade sobre os territórios. Além disso, traz como um de seus princípios a garantia da chamada consulta livre, prévia e informada às diversas populações indígenas, quilombolas, ribeirinhos, seringueiros e outras.

Para as organizações empresariais paraenses, no entanto, a Convenção 169 da OIT é a causa de inúmeros conflitos, dúvidas e de problemas de insegurança jurídica, atingindo o direito de propriedade e desestimulando investimentos em infraestruturas na região diante da possibilidade de conflitos com os povos e comunidades tradicionais envolvidos.

O presidente do CIP, José Maria Mendonça, um dos representantes das entidades que assinam o pedido de saída do Brasil da Convenção 169 da OIT, cita o exemplo do projeto para construção de portos graneleiros no chamado Furo do Maicá, no município de Santarém. A implantação dos empreendimentos é questionada, entre outros motivos, por ocorrer uma área em que as populações locais, especialmente quilombolas, ribeirinhos e extrativistas demandam a proteção ambiental e o respeito a seus direitos territoriais.

“Outros projetos estão parados ou pela OIT ou de interpretação dela, que acham que a decisão das comunidades tradicionais é decisiva. Quando leio a OIT, ela diz que é consultivo, mas o pessoal entende como se precisasse de permissão. Essa duplicidade da própria interpretação da OIT faz a gente ser contra ela”, diz o empresário.

Apesar de compreender que discussão sobre o direito de escuta dos povos indígenas e tradicionais, Mendonça considera que o envio do ofício e a denúncia da Convenção até 5 de novembro deste, quando termina o prazo para que o país ratifique a norma por mais dez anos, possibilitaria a construção de um debate sobre a abrangência da medida. “Nós achamos que ela é ruim até para a população indígena. Eles estão em uma condição ruim de desenvolvimento humano e nós, signatários da OIT, não conseguimos também criar mecanismos que possam tirar os nossos indígenas dessa miséria que eles estão. Nós não defendemos só a parte econômica. Nós achamos que ela é ruim até socialmente”, acrescenta o presidente do CIP.

Populações tradicionais reagem à proposta e defendem direitos conquistados

Em resposta ao ofício da FIEPA, FAEPA, Fecomércio, ACP e CIP, a Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (Malungu) e a Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Pará (Fetagri), reuniram cerca de 300 assinaturas em uma nota de repúdio publicada na última terça-feira, 19.

Aurélio Borges, da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (Malungu), diz que setor produtivo desconhece realidade dos povos tradicionais
Aurélio Borges, da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (Malungu), diz que setor produtivo desconhece realidade dos povos tradicionais (Divulgação Malungu / Cristivam Alves)

Para o coordenador administrativo da Malungu, Aurélio Borges, a Convenção 169 da OIT é importante para os povos indígenas e comunidades tradicionais, apesar de não ser respeitada em sua plenitude. “A consulta é um direito violado porque o estado cria instrumentos de desenvolvimento onde estão as comunidades tradicionais. Se faz um atropelo, criando portarias, que são leis secundárias, para se sobrepor às leis nacionais e a Carta Magna”, critica o quilombola, elencando casos em que, mesmo com a consulta, os territórios sofrem intervenções de linhas de transmissão, portos, rodovias e outros projetos.

Borges critica também a alegação do setor produtivo de que as comunidades tradicionais vivam em estado de miséria. “Uma opinião dessa mostra o total desconhecimento da realidade das comunidades da floresta porque o que é riqueza para eles não é a mesma riqueza para nós. Riqueza é ter floresta em pé, é poder fazer o extrativismo, é caçar e pescar”, afirma o quilombola que destaca: “São formas pejorativas de colocar os povos da floresta como não-sujeitos de direitos”.

Já Ronaldo Amanaye, tesoureiro da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa), diz que a norma não impede a integração dos indígenas ao restante da sociedade, mas sim favorece o protagonismo desses povos. “A Convenção 169 faz parte da luta dos povos indígenas porque somos nós que devemos dizer o que nós queremos dentro dessa sociedade envolvente, dominante e genocida”, afirma a liderança ressaltando que também é necessário avançar na garantia das consultas prévias, livres e informadas. “Você tem que ouvir, mas também respeitar as decisões dos povos indígenas”, frisa.

Além disso, ele crítica a postura das entidades empresariais que, em sua opinião, deveriam investir na elaboração de estudos e planos pensados a partir das necessidades de cada etnia em questões como educação, saúde e proteção ambiental.  “Quem perpetua a miséria são esses empreendimentos que são feitos de forma irresponsável, de cima para baixo, desrespeitando toda a cultura daquele povo. Hoje, onde tem esses grandes empreendimentos, as terras indígenas estão sendo saqueadas, os povos indígenas estão sujeitos às drogas, ao alcoolismo e as mulheres sendo violentadas por não-indígenas”, denuncia Ronaldo Amanaye.