Endividamento cresce no Pará e já atinge 74,5% das famílias
Pesquisa da Fecomércio aponta alta na inadimplência e no comprometimento da renda e explica por que mais paraenses estão endividados em 2026, com impacto direto dos juros e do uso do cartão de crédito no bolso
O número de famílias endividadas no Pará cresceu em 2026 e já atinge quase três em cada quatro lares. É o que mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, divulgada pela Fecomércio/PA. Em maio deste ano, 74,5% dos paraenses declararam ter algum tipo de dívida, como cartão de crédito, empréstimos ou financiamento, acima dos 68,4% registrados no mesmo período de 2025. Apesar da alta, o índice ainda está abaixo da média nacional, que chegou a 81,6%. O levantamento também aponta que o comprometimento da renda com dívidas segue elevado e já ultrapassa o nível considerado prudente.
No Pará, a inadimplência também cresceu na passagem de abril para maio deste ano, saindo de 17% para 18,2%. Ainda assim, o percentual é menor do que o registrado em maio do ano passado, quando estava em 22,2%, e também abaixo da média brasileira, de 30%.
Renda menor concentra maior pressão
Os dados mostram que as famílias com renda de até dez salários mínimos seguem mais expostas ao endividamento e à inadimplência. Nesse grupo, 76,8% estão endividados. Entre os que ganham acima desse patamar, o índice é menor, de 52,3%.
Na inadimplência, a diferença também aparece. Entre as famílias de menor renda, 18,2% têm contas em atraso, enquanto entre as de renda mais alta o percentual é de 16,3%. Mesmo assim, o estudo indica que as dificuldades de pagamento atingem todas as faixas.
Outro ponto de atenção é que 65,4% dos inadimplentes não conseguem quitar totalmente as dívidas em atraso e pagam apenas parte dos valores, o que pode levar à restrição de crédito e impactar o consumo.
Comprometimento da renda preocupa
A parcela da renda mensal comprometida com dívidas chegou a 31,4% no estado, acima do limite considerado seguro. Isso significa que quase um terço do orçamento das famílias já está reservado para pagar parcelas de compromissos assumidos anteriormente.
Entre os consumidores de maior renda, esse comprometimento é ainda maior, chegando a 33,1%. Já nas famílias de menor renda, o percentual é de 31,2%. Segundo a Fecomércio, esse cenário reduz o poder de compra e pode afetar diretamente o comércio.
O tempo médio de atraso também chama atenção. As famílias inadimplentes estão, em média, há 57 dias com contas pendentes, e cerca de 40% acumulam dívidas há mais de três meses.
Cartão de crédito lidera dívidas
O cartão de crédito continua sendo o principal tipo de dívida entre os paraenses, citado por 88,3% dos entrevistados. O número cresceu em relação ao ano anterior, quando era de 82,1%. Em seguida aparecem carnês e boletos, crédito consignado e financiamentos.
Em entrevista ao Grupo Liberal, a assessora econômica da Fecomércio PA, Lúcia Cristina de Andrade Lisboa, explica que o crédito tem sido cada vez mais usado para despesas do dia a dia.
“Os dados revelam que os consumidores têm recorrido ao endividamento para obter formas de consumo, diante das limitações de renda disponível. Hoje o crédito é utilizado para pagar desde itens de baixo valor até despesas maiores, diferente de décadas anteriores”, afirma.
A pesquisa faz uma distinção importante para entender o cenário. Estar endividado significa ter contas parceladas ou compromissos financeiros a vencer, como fatura de cartão ou prestação de um financiamento. Já a inadimplência ocorre quando essas contas deixam de ser pagas dentro do prazo. Segundo ela, o endividamento não é necessariamente um problema, desde que seja controlado. “Usar crédito não é totalmente negativo, desde que não haja excesso de juros e o comprometimento da renda não ultrapasse a capacidade de pagamento. O risco é quando isso evolui para inadimplência”, explica.
Juros altos agravam cenário
A economista também chama atenção para o aumento das taxas de juros, especialmente no cartão de crédito. Nos últimos meses, o rotativo ultrapassou 430% ao ano, enquanto outras modalidades, como cheque especial, também registraram alta.
Para Lúcia Cristina, esse cenário exige mais cuidado dos consumidores. “É fundamental observar as taxas cobradas, principalmente no cartão de crédito. Pagar apenas o mínimo da fatura pode gerar um custo muito alto. O planejamento financeiro é essencial para evitar atrasos e manter o controle das dívidas”, orienta.
A combinação de renda pressionada, crédito mais caro e alto comprometimento do orçamento indica um cenário de atenção para os próximos meses, com impactos tanto para as famílias quanto para o desempenho do comércio no estado.
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