O calor intenso e a irregularidade das chuvas acendem um alerta para o abastecimento de alimentos e o movimento nas feiras de Belém. Além dos possíveis impactos na produção agrícola, as altas temperaturas dificultam a conservação de frutas e legumes durante a exposição e a comercialização, aumentando o risco de perdas para os vendedores. O cenário ocorre em um período de elevação nos preços de produtos hortifrutigranjeiros, conforme levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA).
De acordo com a pesquisa divulgada nesta sexta-feira (6), alguns legumes e hortaliças acumularam aumentos expressivos entre dezembro de 2025 e outubro de 2026. A cebola lidera a lista, com alta de 79,88%, passando de R$ 4,97 para R$ 8,94 o quilo. Na sequência aparecem a batata, com aumento de 39,26%, a cenoura (38,33%), a beterraba (35,38%) e o maxixe (33,81%).
O Dieese/PA avalia que o calor excessivo e a irregularidade das chuvas podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras, aumentar a necessidade de irrigação e reduzir a quantidade e a qualidade dos alimentos disponíveis. Os efeitos também podem aparecer depois da colheita, durante o transporte, a exposição e a venda, quando as temperaturas elevadas favorecem a perda de água e a deterioração dos produtos.
No Ver-o-Peso, os vendedores já percebem dificuldades para manter algumas frutas em boas condições durante o dia. Beatriz Pinho, que trabalha com a comercialização de frutas, conta que o calor acelera o amadurecimento e faz com que determinados produtos estraguem mais rapidamente.
“Porque a fruta no calor ela meio que amadurece mais rápido. Isso faz com que ela estrague mais rápido também. Tem frutas que a gente não pode botar aqui para frente porque certamente ela vai amolecendo, como o morango e outras frutas também que acabam se perdendo no calor”, relata.
Entre os produtos que considera mais vulneráveis estão morango, mamão, uva, laranja e abacate. Para reduzir o desperdício, a vendedora trabalha com reposição diária, levando ao ponto de venda uma quantidade calculada para o consumo daquele dia. O que não é comercializado pode ser vendido por um preço menor ou aproveitado em pequenos lotes promocionais.
A situação também influencia as decisões de compra e a margem de lucro dos comerciantes. O feirante Kleber Batista afirma que percebeu aumentos mais expressivos nos preços das frutas desde junho e julho deste ano, principalmente naquelas que chegam de outros estados, como banana e maçã. Segundo ele, a elevação foi diferente da observada em anos anteriores.
“Foi atípico esse ano. A gente trazia pera, a gente nem está trazendo quase, porque essas frutas que ficam mais exageradas, elas estão bem mais caras”, explica.
Além do custo de aquisição, o comerciante aponta que o calor de Belém acelera a deterioração das mercadorias. Para evitar prejuízos, a estratégia é reduzir a quantidade comprada e trabalhar com uma margem de lucro menor, facilitando a saída dos produtos antes que estraguem.
Previsão de calor exige atenção
O cenário climático também preocupa para os próximos meses. Conforme dados do boletim do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), divulgado em 29 de outubro e acompanhados pelo Dieese/PA, há maior probabilidade de temperaturas acima da média e chuvas abaixo da faixa normal em grande parte da Região Norte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Segundo o departamento, essas condições podem afetar a produção e o abastecimento de hortaliças, especialmente as mais sensíveis às altas temperaturas e à escassez de água. Quando o fornecimento depende de produtos vindos de outros estados, alterações nas regiões produtoras também podem repercutir nos preços praticados no mercado paraense.
Apesar do alerta relacionado ao El Niño, o Dieese/PA chama a atenção que os aumentos registrados em Belém não podem ser atribuídos exclusivamente ao fenômeno climático. A sazonalidade das safras, a disponibilidade dos produtos nas regiões produtoras e os custos de transporte e distribuição também influenciam os preços.
Para os consumidores, a orientação é comparar valores e condições dos alimentos entre os estabelecimentos, priorizar produtos da época e comprar quantidades compatíveis com o consumo da família. A recomendação também é observar a conservação dos alimentos, já que o menor preço nem sempre representa o melhor aproveitamento.
