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CLIMA E ECONOMIA

El Niño pode pressionar inflação e elevar custos de alimentos e produção no Pará

Segundo especialistas fenômeno deve afetar oferta de produtos e logística e alertam para impactos no abastecimento, na indústria e no campo paraense

Gabriel Pires

12 de julho de 2026 às 07:30

El Niño deve elevar temperaturas e reduzir chuvas no Pará nos próximos meses

El Niño deve elevar temperaturas e reduzir chuvas no Pará nos próximos meses ( Foto: Foto: Reprodução )

O último episódio do El Niño - fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do mundo, incluindo a Amazônia -, entre junho de 2023 e o início de 2024, coincidiu com uma mudança no comportamento da inflação em Belém. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o índice geral da capital passou de -0,09% em junho de 2023 para 0,54% em março de 2024. No mesmo período, a inflação de alimentação e bebidas também aumentou, saindo de -0,67% para 1,32%, indicando uma pressão maior sobre o custo dos alimentos. Caso o cenário se repita, os mesmos índices podem apresentar altas, como alertam especialistas.

Segundo o economista Nélio Bordalo, o fortalecimento do El Niño exerce pressão sobre a inflação ao impactar diretamente a produção agropecuária e elevar os custos logísticos em diversas regiões do país. O especialista aponta que o excesso de chuvas no Sul e a estiagem no Norte e em parte do Nordeste provocam perdas de produtividade e redução da oferta de alimentos, o que impulsiona a elevação de preços em toda a cadeia produtiva.

“No Pará, esse impacto pode ser ainda mais perceptível porque o Estado depende fortemente da navegação pelos rios para o transporte de cargas e também recebe grande parte dos alimentos produzidos em outras regiões do Brasil. Quando há aumento dos custos de produção, do frete ou atraso no abastecimento, esses fatores acabam sendo incorporados ao preço final pago pelo consumidor, pressionando principalmente o orçamento das famílias de menor renda.

De acordo com Bordalo, a experiência de eventos anteriores mostra que os alimentos costumam ser o grupo mais sensível às alterações climáticas, como detalhado pelo economista. “Hortaliças, frutas, legumes, arroz, milho, feijão, café e produtos de origem animal, como carnes, leite e ovos, frequentemente registram aumentos de preços devido à redução da oferta e ao encarecimento da produção”, analisa.

Setor de alimento tem vulnerabilidade

Caso o El Niño volte a se intensificar, Belém poderá novamente registrar pressão inflacionária, especialmente no grupo alimentação e bebidas, repetindo um comportamento semelhante ao observado entre 2023 e 2024. Isso ocorre porque o fenômeno altera o regime de chuvas e eleva as temperaturas na Amazônia, prejudicando a produção agropecuária, reduzindo a oferta de alguns alimentos e aumentando os custos de transporte e logística, fatores que acabam sendo repassados ao consumidor”, acrescenta Bordalo.

Quanto aos impactos, Bordalo analisa que o Pará tende a sentir os efeitos principalmente como consumidor, embora alguns segmentos da produção local também possam ser impactados. “O Estado possui importante produção de frutas, mandioca, pescado e produtos da floresta, mas uma parcela significativa dos alimentos consumidos diariamente pela população é proveniente de outras regiões brasileiras”, diz.

Essa característica faz com que qualquer aumento no custo da produção agrícola nacional ou do transporte seja rapidamente refletido nos preços praticados no comércio paraense. O custo do frete rodoviário impacta no preço final dos produtos, e os reajustes são repassados ao consumidor final, pelos feirantes e comerciantes. Além disso, a grande extensão territorial da Amazônia e a forte dependência do transporte fluvial tornam o abastecimento mais vulnerável durante períodos de seca intensa, ampliando os efeitos sobre o custo de vida”, reforça.

Ainda conforme destaca o economista Nélio Bordalo, o setor de alimentos apresenta maior vulnerabilidade às oscilações climáticas, uma vez que itens como frutas, legumes e proteínas são fortemente dependentes dessas condições. No caso de Belém, o especialista ressalta que essa fragilidade é acentuada pela dependência logística do abastecimento externo, o que torna a capital paraense mais suscetível à inflação decorrente de eventuais interrupções na oferta.

“Quando há quebra de safra, redução da oferta ou dificuldades no transporte fluvial e rodoviário, os preços costumam reagir rapidamente. Dessa forma, caso o fenômeno se confirme com maior intensidade, a alimentação deverá continuar sendo o principal vetor de pressão sobre a inflação da capital paraense. Belém é uma das capitais brasileiras mais sensíveis às variações dos preços dos alimentos porque depende fortemente do abastecimento de outras regiões do país”, pontua Nélio.

Inflação dos alimentos preocupa famílias de baixa renda

Conforme aponta Everson Costa, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Pará (Dieese-PA), o El Niño tende a pressionar a inflação de alimentos ao reduzir a oferta agrícola e elevar os custos de produção e transporte. Contudo, o especialista ressalta que não é possível estimar antecipadamente um percentual de alta. “Isso depende da intensidade do fenômeno, da duração e das condições de abastecimento. O impacto varia de produto para produto. Infelizmente é fato que vamos sentir sim impactos”, frisa.

Um cenário de alta no preço dos alimentos já é observado na capital e, segundo Everson, é importante atenção ao cenário do El Niño. “As pesquisas do Dieese mostram que a cesta básica em Belém acumula alta expressiva em 2026, e produtos como tomate e feijão registraram aumentos elevados ao longo do ano. Embora outros fatores também influenciem os preços, as condições climáticas têm contribuído para reduzir a oferta de alguns alimentos e aumentar a volatilidade dos preços”, relata Costa.

“Na avaliação do Dieese, as famílias de baixa renda são as mais afetadas, pois destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação. Aqui no Pará, metade do salário mínimo é comprometido com a compra de uma cesta básica. Trabalhadores que recebem até dois salários mínimos, aposentados e beneficiários de programas sociais são os grupos mais vulneráveis aos aumentos dos preços dos alimentos”, completa Everson.

Indústria pode enfrentar desafios logísticos

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), Alex Carvalho, um dos principais impactos esperados deve ocorrer no setor industrial, devido à forte dependência da logística hidroviária para o escoamento da produção. A entidade avalia que a redução dos níveis dos rios, associada ao aumento do risco de estiagens e queimadas, pode comprometer o transporte de cargas pelo Corredor do Arco Norte, uma das principais rotas de exportação e movimentação industrial do Estado.

Com a diminuição do calado de rios estratégicos, a navegação tende a ser limitada, elevando os custos do frete, provocando atrasos nas exportações e aumentando os custos de produção. “O efeito é sentido em toda a cadeia produtiva, desde o abastecimento de insumos até a entrega dos produtos ao mercado. Os setores mais dependentes da logística fluvial e da disponibilidade de recursos naturais tendem a sentir os maiores impactos. É o caso da mineração, metalurgia, indústria madeireira, alimentos e bebidas, papel e celulose e das cadeias ligadas ao agronegócio”, informa a Fiepa.

“De acordo com o Painel El Niño 2026-2027, a combinação de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas aumenta o risco de deficiência hídrica, queimadas e redução da navegabilidade. Esse cenário afeta diretamente os polos industriais e exportadores da Amazônia. Portos estratégicos como Barcarena e Santarém, que integram o Corredor do Arco Norte, podem enfrentar dificuldades operacionais em caso de estiagens severas”, completa a entidade.

Além da logística, segundo a Fiepa, há impactos sobre os chamados serviços ecossistêmicos que sustentam diversas cadeias produtivas, como a disponibilidade de água, a estabilidade climática e a conservação das florestas. Isso reforça a importância de práticas de produção sustentável, da gestão eficiente dos recursos hídricos, da prevenção a incêndios e do fortalecimento de cadeias produtivas.

Faepa vê cenário favorável para o campo

Por outro lado, o diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, descarta os impactos ao setor da agricultura e defende o argumento com base no histórico climático observado nos últimos meses. “Na climatologia global acompanhamos várias mudanças locais. O início de 2026, por exemplo, trouxe um dos melhores ‘invernos marajoaras’. E a prova são os bons índices de natalidade bubalina e o número superior de alevinos de pirarucus no arquipélago marajoara. Também constatamos um ‘alagamento na produção de açaí’ que levou a ‘rasa’ deste fruto a ser comercializada por R$ 15 nas ilhas do Bailique no vizinho Amapá”, observa o zootecnista.

Meteorologista alerta para riscos aos produtores

No entanto, o meteorologista José Raimundo Abreu afirma que o El Niño deve provocar impactos diretos sobre a produção agropecuária no Pará. A redução das chuvas pode atrasar o plantio de culturas de ciclo curto, como mandioca, abacaxi e outras lavouras que dependem da precipitação, elevando os custos de produção e, consequentemente, os preços dos alimentos. "Se alguém arriscar plantar em outubro, seja no Sul, no Sudeste ou no Sudoeste do Pará, pode perder a produção se não tiver irrigação. Por isso, nossa preocupação é monitorar o fenômeno", afirma o meteorologista.

Ele destaca que produtores sem sistemas de irrigação ficam mais vulneráveis a perdas, enquanto a estiagem também pode comprometer a pecuária, especialmente no Marajó, onde a seca dos lagos e pequenos rios aumenta o risco de morte do rebanho. Para o meteorologista, o monitoramento das previsões climáticas será fundamental para que os produtores reduzam prejuízos e consigam planejar melhor as atividades no campo.

"No Sul e Sudeste do Pará, o período mais seco costumava ocorrer entre junho e agosto. Agora, em regiões como Capitão Poço, Paragominas, Bonito, Marituba e Belém, a tendência é de uma redução significativa do índice pluviométrico, com o período mais seco se estendendo de agosto em diante", alerta José Raimundo.

Plano municipal

Neste mês, a Prefeitura de Belém iniciou a elaboração do Plano Municipal de Enfrentamento ao El Niño, com foco na preparação da cidade para reduzir os impactos do fenômeno climático sobre a população, a infraestrutura e a atividade econômica. O planejamento reúne 35 órgãos municipais, estaduais e federais para definir ações integradas de prevenção, adaptação e resposta diante da previsão de um evento de forte intensidade até o início de 2027.

Na área econômica, o plano busca minimizar prejuízos causados por estiagens, calor extremo e queimadas, que podem comprometer serviços públicos, mobilidade, abastecimento, produtividade e atividades como comércio, construção civil e agricultura urbana. A estratégia também prevê medidas para aumentar a resiliência da infraestrutura urbana, reduzindo custos com danos provocados por eventos climáticos e fortalecendo a capacidade da cidade de manter suas atividades econômicas durante períodos críticos.

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