O consumo de alimentos nos supermercados brasileiros registrou crescimento de 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e de 6,3% entre os dias 12 e 18 do mesmo mês, na comparação com os períodos equivalentes de 2025. O levantamento foi realizado após a publicação da Medida Provisória, em 25 de setembro, que restringiu as apostas on-line no país.
Para o presidente da Associação Paraense de Supermercados (Aspas), Jorge Portugal, a medida pode contribuir para ampliar o dinheiro disponível para as compras das famílias, especialmente de produtos essenciais. Ele avalia que parte dos recursos antes destinados às plataformas de apostas pode voltar a circular no comércio, favorecendo o consumo de alimentos.
“É, sem sombra de dúvida, um dinheiro a mais que fica para circular no mercado. Isso vai impactar diretamente o consumo. As pessoas estavam fazendo apostas em plataformas como a Bet, e esse dinheiro deixava de circular para o consumo, principalmente de alimentos”, afirma.
Segundo Portugal, a discussão sobre os efeitos das apostas no orçamento dos consumidores já vinha sendo acompanhada pelo setor supermercadista. O dirigente também integra a diretoria da Abras, entidade que reúne associações estaduais do segmento.
“Essa era uma luta que nós já vínhamos tendo há bastante tempo, por meio da Abras, que é composta pelas 27 associações estaduais. Esse impacto se reflete nos números que estamos apresentando em nível nacional”, acrescenta.
Produtos essenciais concentram avanço
De acordo com a Abras, o crescimento das vendas foi observado principalmente em produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café. A entidade afirma que o movimento alcançou diferentes formatos do varejo alimentar, incluindo supermercados, atacarejos e mercearias.
Na primeira semana analisada, a região Sul e o agrupamento formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro lideraram o crescimento, ambos com 10,6%. O Nordeste registrou alta de 6,5%, enquanto o interior de São Paulo teve avanço de 5,6%. Na Grande Rio de Janeiro, o crescimento foi de 4%; no Centro-Oeste, de 3,6%; e na Grande São Paulo, de 1,2%.
Na semana seguinte, o Sul continuou na liderança, com alta de 9%, seguido por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro, com 7,1%. A Grande Rio de Janeiro registrou crescimento de 6%, enquanto o interior paulista teve avanço de 5,6%. Na Grande São Paulo, a alta foi de 5,5%; no Nordeste, de 4,5%; e no Centro-Oeste, de 3,5%.
Para Jorge Portugal, a mudança no comportamento do consumidor também pode estar relacionada à recuperação das compras de alimentos, depois de um período de retração.
“Esse dinheiro fica mais disponível para o consumidor, e ele vai buscar o que não é supérfluo. Isso influencia diretamente o consumo de alimentos. A gente já vinha vendo uma queda, e agora houve uma melhora”, avalia.
A Abras também relaciona o movimento a dados do Banco Central, que indicariam uma redução de 10% no número de transações via Pix logo após a restrição às bets. Segundo a associação, a queda atualmente seria de 7%.
Dinheiro no orçamento familiar
A possibilidade de direcionar recursos para despesas essenciais também é destacada por consumidores. A enfermeira Rosilene Mota, de 38 anos, afirma que o controle dos gastos pode ajudar a garantir a alimentação da família e o pagamento de outras contas.
“Quando a gente consegue controlar melhor o dinheiro, sobra mais para comprar o básico. Arroz, feijão e carne são prioridades dentro de casa. Qualquer valor que deixe de ser gasto com apostas pode ajudar a garantir a alimentação da família e pagar outras contas”, relata.
O motorista de aplicativo João Paulo Pedreira, de 42 anos, também destaca a importância de ter mais dinheiro disponível ao final do mês, sobretudo para quem trabalha com renda variável.
“Ter mais dinheiro disponível no fim do mês faz diferença, principalmente para quem vive de renda variável. O dinheiro que vai para as apostas poderia ser usado no supermercado, no pagamento das contas e até para guardar um pouco. Isso ajuda a ter mais tranquilidade financeira”, afirma.
