SEX · 02 OUT 2026Assine

CÍRIO 2026

Círio de Nazaré 2026 movimenta produção de 120 mil peças de cera em Belém

Fábricas do centro histórico de Belém intensificam a produção de objetos usados no pagamento de promessas; encomendas incluem partes do corpo, casas, veículos e até peças personalizadas

Jéssica Nascimento

20 de agosto de 2026 às 09:00

A preparação para o Círio de Nazaré 2026 já movimenta as fábricas de objetos de cera no centro histórico de Belém. Uma delas estima produzir entre 100 mil e 120 mil peças para a quadra nazarena, distribuídas em cerca de 92 tipos de objetos. Entre os itens mais procurados estão partes do corpo humano e casas, mas a produção também atende pedidos inusitados, como veículos, animais e objetos personalizados para o pagamento de promessas a Nossa Senhora de Nazaré.

Produção começou em maio

Segundo Pedro Barbosa, gestor e comerciante de uma fábrica de objetos de cera no centro histórico de Belém, a produção voltada para o Círio começou em maio e deve ser encerrada no início de setembro, quando a empresa passa a se preparar para o período de Finados.

“Essa produção para o Círio já começou. Esse ano, a produção começou em maio, para esse material do Círio”, afirma.

A fábrica trabalha ao longo do ano de acordo com o calendário religioso. Depois da produção de velas destinadas à Semana Santa, a equipe reorganiza as atividades e inicia a fabricação dos objetos para o Círio. Ao todo, são cerca de 92 itens diferentes, com uma estimativa de 100 mil a 120 mil peças produzidas neste ano.

Pedro Barbosa.
Pedro Barbosa. (Foto: Ivan Duarte)

Cabeças e casas estão entre os pedidos mais comuns

Entre os objetos mais procurados estão as representações de partes do corpo humano, principalmente cabeças, e as casas. Barbosa explica que os pedidos estão diretamente ligados às promessas feitas pelos devotos.

“A gente dá uma focada muito sempre na maior demanda — cabeça e casa”, conta.

A variedade, porém, é muito maior. As fábricas produzem objetos que representam caminhões, carros, diplomas, carteiras de motorista, celulares e animais, como bois e vacas. Pedidos especiais também podem ser feitos depois do encerramento da produção regular.

“De setembro, a gente já espera algum pedido diferenciado que nós não temos na lista de produção”, explica Barbosa. Entre os exemplos estão balsas e barcos.

Promessas também geram pedidos inusitados

A criatividade dos devotos pode levar a encomendas que fogem completamente do catálogo habitual. Barbosa lembra o caso de um homem que pediu um boneco de cera com aproximadamente 1,60 metro, a própria altura.

“Ele chegou e pediu para que nós fizéssemos um boneco do tamanho dele”, relata.

O comerciante explicou que uma peça daquele tamanho teria um custo muito elevado e sugeriu que a promessa fosse representada por um boneco menor. Segundo ele, o devoto respondeu: “Eu não estou preocupado com o valor, eu quero a promessa”.

(Foto: Ivan Duarte)
(Foto: Ivan Duarte)

Barbosa afirma que a empresa procura encontrar uma alternativa para atender mesmo os pedidos que não fazem parte da produção habitual. “Eu costumo dizer que a gente nunca deixa ninguém sem a promessa. Mesmo o que quer que seja, a gente dá um jeito de produzir.”

Encomendas já começaram para os Círios do interior

Apesar do grande volume previsto para o Círio de Belém, Barbosa diz que a procura ainda não atingiu o período de maior movimento. Segundo ele, a demanda mais intensa costuma ocorrer a partir da segunda quinzena de setembro.

Na fábrica de Ana Lucia Brauna, empresária e uma das proprietárias de uma fábrica de velas e objetos de cera no centro histórico, o movimento, entretanto, já começou. A empresa não trabalha com uma estimativa fechada de produção, mas afirma que são milhares de peças. “Eu não tenho número, mas posso afirmar que são milhares”, diz Ana Lucia.

Ana Lucia Brauna.
Ana Lucia Brauna. (Foto: Ivan Duarte)

Ela explica que a produção é planejada com base no desempenho do ano anterior e que as encomendas já estão sendo encaminhadas para outros estabelecimentos que comercializam objetos de promessa.

“Eu já estou trabalhando e fazendo essas entregas para clientes nossos da fábrica”, afirma.

Segundo ela, desde julho as peças começam a sair com mais frequência por causa dos Círios realizados no interior do Pará. Em setembro, a expectativa é de intensificação das vendas.

Pirarucu de dois metros e cinturão do UFC

Assim como Barbosa, Ana Lucia também coleciona histórias de pedidos fora do comum. Entre eles está o de um cliente que queria um pirarucu de dois metros. A empresária explica que nem todos os objetos podem ser produzidos da maneira imaginada pelo devoto, porque muitos dependem de moldes.

“Uma vez chegou um senhor aqui que queria criar o pirarucu de dois metros. É impossível, porque tudo é forma”, conta.

(Foto: Ivan Duarte)
(Foto: Ivan Duarte)

Quando não há um molde específico, a alternativa pode ser o processo de banho com parafina. Foi assim, segundo ela, que a fábrica produziu uma representação do cinturão do UFC para uma promessa feita pela esposa de um treinador.

“Ah, o cinto do UFC nós banhamos todinhos. Foi a esposa do treinador que fez uma promessa para a Nossa Senhora de Nazaré”, relata.

Peças custam a partir de R$ 7

Os preços variam de acordo com o tipo e o tamanho da peça. Na fábrica de Barbosa, os valores ficam geralmente entre R$ 10 e R$ 30, podendo chegar a R$ 40. “Os preços são simbólicos, são preços de R$ 10, R$ 15, R$ 20”, explica.

Na empresa de Ana Lucia, as peças também têm valores variados. Algumas custam R$ 7, R$ 12, R$ 15 ou R$ 18, enquanto os itens mais caros incluem braços e pernas, vendidos por R$ 45. De acordo com a empresária, a maior parte dos objetos fica na faixa de R$ 20 a R$ 30.

(Foto: Ivan Duarte)
(Foto: Ivan Duarte)

O cálculo é feito principalmente com base no tempo necessário para produzir cada peça.

“Como é que o preço é feito? Em cima da hora trabalhada”, afirma Ana Lucia. Ela ressalta que o processo é artesanal e que algumas peças podem precisar ser refeitas caso quebrem ou apresentem defeitos durante a retirada do molde.

Expectativa de vendas acompanha crescimento do Círio

As fábricas esperam um aumento no movimento à medida que a quadra nazarena se aproxima. Ana Lucia relaciona a expectativa de vendas ao crescimento do público que participa do Círio.

“O Círio acho que a cada ano só aumenta o número de pessoas, né? Então a expectativa é de que sempre seja mais e mais”, afirma.