As empresas estatais federais registraram déficit de R$ 7,8 bilhões no primeiro semestre deste ano, informou o Banco Central na última semana. O resultado é o pior para o período desde o início da série histórica do BC, em 2002. No caso do Pará, a única empresa sediada no estado que integra o universo analisado pelo BC é a Companhia Docas do Pará (CDP). Os dados mais recentes não indicam deterioração fiscal ou operacional da companhia, de acordo com a Secretaria de Coordenação e Governança das Estatais (Sest), do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).
“Tanto o resultado primário (déficit ou superávit primário), que é a base da avaliação do BC, quanto o resultado financeiro (se houve lucro ou prejuízo) foram positivos em 2025. Da mesma forma, seus indicadores acumulados até junho apresentam evolução favorável”, detalha o MGI sobre a CDP.
Segundo o MGI, por meio de nota, o desempenho das estatais é acompanhado mensalmente pela SEST do MGI, com comparação entre o realizado e as projeções de cada empresa, identificando as causas de variação e conciliação com os dados apurados pelo Banco Central (BC).
De acordo com o BC, Até então, o maior rombo registrado nos seis primeiros meses de um ano havia ocorrido em 2025, com déficit de R$ 3,9 bilhões, sem correção pela inflação. Sobre o balanço, o MGI ainda pontua: “É importante observar que o resultado primário divulgado pelo BC é uma métrica de finanças públicas baseada no fluxo de caixa do exercício, o que é diferente de lucro ou prejuízo contábil”, detalha.
Operações sustentáveis
“Uma empresa pode registrar déficit primário em determinado período e, ainda assim, manter operações sustentáveis, realizar investimentos e apresentar lucro.
Por essa razão, os resultados do levantamento do BC não devem ser interpretados isoladamente como indicador da capacidade operacional das empresas ou da continuidade dos serviços prestados à população”, acrescenta a pasta.
Ainda de acordo com o ministério, o MGI esclareceu que o levantamento divulgado pelo Banco Central não abrange todas as empresas estatais federais, que somam 44 no total, entre dependentes e não dependentes.
“O recorte do BC compreende 20 empresas estatais federais não dependentes, excluídas a Petrobras, a ENBPar e as instituições financeiras federais, como Banco do Brasil, Caixa, BNDES ou o próprio Banco da Amazônia, sediado em Belém. Das 13 empresas consideradas pelo Banco Central que apresentaram déficit primário no primeiro semestre, apenas duas – ECT e Companhia Docas do Ceará (CDC) – apresentaram prejuízo no primeiro trimestre do ano”, observa.
O resultado negativo das estatais federais tem como exemplo a situação dos Correios, que enfrentam dificuldades financeiras. A empresa registrou forte piora no desempenho em 2025, com déficit de R$ 8,5 bilhões. No caso da estatal, o próprio governo federal avalia que a situação econômico-financeira pode continuar se deteriorando, acompanhando a tendência observada nos últimos dois anos, mesmo com a adoção de um plano de reestruturação.
Fatores
Para o economista Nélio Bordalo, o aumento do déficit das estatais pode ser explicado pela combinação de fatores econômicos e administrativos. Entre eles estão a elevação dos custos operacionais, como despesas com pessoal, energia, insumos e manutenção, além da ampliação de investimentos em infraestrutura e modernização, que elevam os gastos no curto prazo.
“Também pesam a queda de receitas em algumas empresas, tarifas que nem sempre acompanham a evolução dos custos e a execução de políticas públicas que priorizam o atendimento à população, mesmo quando determinadas atividades são deficitárias. Em alguns casos, questões relacionadas à eficiência da gestão e ao controle de despesas também podem contribuir para o resultado negativo”, avalia.
Ainda segundo o especialista, o registro de déficit não indica, necessariamente, problemas de gestão. De acordo com ele, muitas empresas estatais atuam na oferta de serviços públicos essenciais e no desenvolvimento econômico e social, mesmo em setores nos quais a receita obtida não é suficiente para compensar os custos de operação.
“Isso ocorre porque essas empresas, muitas vezes, atendem regiões menos rentáveis, realizam investimentos estratégicos e executam políticas públicas determinadas pelo governo. No entanto, déficits recorrentes devem ser acompanhados de avaliações técnicas para verificar se decorrem de investimentos necessários e da missão institucional da empresa ou se refletem problemas de eficiência, gestão e controle de despesas”, observa.
O aumento do déficit das estatais tende a elevar a preocupação com o equilíbrio das contas públicas, principalmente se houver necessidade de aportes financeiros do governo para sustentar essas empresas. “Esse cenário pode reduzir o espaço fiscal para investimentos em outras áreas prioritárias, aumentar a percepção de risco por parte dos investidores e pressionar indicadores como dívida pública e custo de financiamento do país. Além disso, um ambiente de maior incerteza fiscal pode afetar a confiança dos agentes econômicos, influenciando decisões de investimento e crescimento da economia”, considera.
Estratégias
Segundo Nélio, os desdobramentos desse cenário dependem das estratégias adotadas pelo governo e pelas estatais. O especialista ressalta que eventuais medidas de ajuste financeiro podem resultar no adiamento de investimentos e na desaceleração da expansão e modernização, impactando diretamente empresas paraenses que atuam em setores como serviços postais, infraestrutura, tecnologia e logística.
“Apesar disso, os serviços considerados essenciais tendem a ser preservados, uma vez que cumprem papel estratégico para a população e para o desenvolvimento regional. O principal desafio será conciliar o equilíbrio financeiro com a manutenção da qualidade e da continuidade dos serviços prestados”, pontua.
O especialista ainda avalia que a redução dos déficits passa, principalmente, pelo aumento da eficiência da gestão. Isso inclui revisão de processos internos, combate ao desperdício, redução de despesas administrativas, adoção de novas tecnologias, melhoria da governança, fortalecimento dos mecanismos de transparência e definição de metas de desempenho. “Também é importante priorizar investimentos que tragam maior retorno econômico e social, além de revisar modelos de gestão e contratos para aumentar a produtividade. O objetivo deve ser alcançar maior equilíbrio financeiro sem comprometer a prestação dos serviços públicos essenciais à população”, considera.
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