Alta dos combustíveis já compromete até 40% da renda, dizem motoristas em Belém
Dados do Dieese apontam aumento de até 17% no preço do combustível em pouco mais de um mês
O preço da gasolina e do etanol segue em alta em Belém e já pressiona o orçamento da população. Em alguns postos, o litro da gasolina se aproxima de R$ 7, enquanto o etanol ultrapassa R$ 5,30. Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), obtido com exclusividade pelo Grupo Liberal, mostra que, em pouco mais de um mês, os combustíveis registraram aumentos expressivos no Pará.
Na capital paraense, a gasolina passou de R$ 5,93 para R$ 6,94 entre o início de março e a primeira semana de abril, uma alta de 17%. Já o etanol subiu de R$ 4,85 para R$ 5,20 no mesmo período.
Para quem depende do carro para trabalhar, o impacto é direto. O motorista de aplicativo e vigilante Renato Evangelista, de 42 anos, relata dificuldades para manter a rotina. “É complicado. O combustível cada vez que passa aumenta mais. A condição fica muito difícil para nós”, revela.
Com jornada dupla, ele afirma que não há como se adaptar ao cenário atual. “Não tem como falar que a gente vai se adaptar com o valor que está, cada dia crescendo mais ainda.” Segundo Renato, o gasto com combustível já compromete cerca de 40% da renda. “Não só eu, como vários colegas. Tem gente que paga carro alugado, aí pesa ainda mais”,
A alternativa tem sido ajustar o abastecimento conforme o faturamento. “Dependendo de como a gente está ganhando, abastece um tanque ou meio tanque”, explica. Ele também destaca a preocupação com a qualidade do combustível. “É melhor abastecer em um posto que você já conhece. Em alguns lugares é um risco.”
O aumento também tem mudado a rotina de quem utiliza o carro apenas para deslocamentos. O servidor público Ricardo Betencort, de 62 anos, conta que precisou cortar gastos. “Já prejudicou alimentação, contas, dívidas. Foi um aperto em casa.”
Para economizar, ele passou a reduzir o uso do veículo. “Agora, para andar de carro, só no fim de semana. Quando não tem, pego ônibus.” Segundo ele, se utilizasse o carro diariamente, o impacto poderia chegar a até 20% do orçamento.
De acordo com o economista e conselheiro do Corecon PA/AP, Nélio Bordalo Filho, a alta dos combustíveis é resultado de fatores internos e externos. Entre eles, estão o aumento do preço internacional do petróleo, a desvalorização do real frente ao dólar e os custos logísticos mais elevados na região Norte.
“O petróleo segue como referência para os preços internos, e o câmbio amplifica esse efeito. Além disso, há influência de conflitos internacionais, como a tensão entre Estados Unidos e Irã”, explica.
Os reflexos vão além dos postos. “O aumento dos combustíveis encarece o transporte de mercadorias, pressionando preços de alimentos e produtos básicos. Na região Norte, onde a logística já é mais cara, esse impacto é ainda maior”, afirma.
Na prática, isso atinge toda a população. “O custo do frete é repassado, e mesmo quem não tem veículo sente no bolso”, conclui.
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