O preço das passagens aéreas subiu 41,04% em Belém no acumulado de janeiro a julho de 2026, mais que o triplo da alta de 13,69% registrada no Brasil no mesmo período, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O encarecimento pesa no orçamento de quem viaja para o Pará e de quem sai da capital paraense, especialmente em períodos de grande movimentação turística, como o Círio de Nazaré.
A percepção de aumento varia entre os passageiros ouvidos pela pelo Grupo Liberal. Enquanto alguns relatam ter desembolsado valores significativamente maiores em comparação com anos anteriores, outros afirmam não ter sentido diferença, principalmente por comprarem as passagens com antecedência.

O coordenador administrativo Thiago Gonçalves, natural de Fortaleza (CE), está em Belém a passeio e percebeu o encarecimento nas viagens entre as duas cidades. Segundo ele, em visitas anteriores à capital paraense, o preço da passagem de ida e volta ficava entre R$ 400 e R$ 500. Desta vez, o gasto chegou a R$ 1.300.

“Eu já tinha vindo antes para cá, para Belém. A gente pagava entre R$ 400 e R$ 500. Dessa vez, ida e volta foi R$ 1.300. Então teve um aumento”, relata.
Thiago afirma que conseguiu encontrar uma opção um pouco mais em conta, mas considera que os valores estão mais altos do que em viagens anteriores.
“Percebi um aumento no preço da passagem aérea e, de fato, a gente já vem precisando de outras vezes e dessa vez tem subido bastante. A gente conseguiu neste momento um preço um pouquinho mais em conta, mas de fato está bem mais caro”, afirma.
Passageiros relatam diferenças nos preços
O estudante de Engenharia Elétrica Jorge Costa, morador de Belém, também sentiu o impacto no orçamento. Ele costuma viajar uma vez por ano, geralmente em setembro, para participar de congressos científicos em estados do Nordeste. Na comparação com a viagem do ano passado, o gasto aumentou cerca de R$ 1 mil.

“No ano passado, para Natal, no Rio Grande do Norte, paguei R$ 1.600. E neste ano paguei R$ 2.600 para Salvador, na mesma escala”, conta.
Por outro lado, a balconista Vanderlene Reis, que mora em Belém há 20 anos e costuma viajar para Fortaleza durante as férias de julho, afirma que não percebeu aumento significativo. Natural do Ceará, ela mantém o hábito de visitar o estado anualmente e diz ter pago aproximadamente R$ 500 pela passagem neste ano, o mesmo valor do ano passado.

“Costumo viajar anualmente pelas férias de julho. Sou do Ceará, mas moro em Belém há 20 anos. O destino das minhas viagens é Fortaleza, geralmente. Não senti aumento no preço das passagens. Basicamente, é o mesmo preço do ano passado”, relata.
O pesquisador científico Wilson Tivelli, natural de São Paulo, também não identificou alta nos valores que costuma pagar. Segundo ele, o planejamento antecipado é uma das principais estratégias para encontrar tarifas mais acessíveis.
“Sou de São Paulo. Sempre costumo comprar antecipadamente minhas passagens. A gente faz o planejamento de seis a 12 meses de antecedência”, explica.
Para Wilson, a possibilidade de comparar preços em diferentes plataformas também ajuda na busca por tarifas menores.

“Como hoje existem sites de buscas de passagens, as companhias trabalham com preço dinâmico, que oscila de um dia para o outro. Você tem a oportunidade de comprar a passagem num preço bastante acessível”, afirma.
Pesquisa aponta diferenças de milhares de reais
O levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese-PA), realizado entre 21 e 24 de setembro de 2026, identificou diferenças expressivas nos preços das passagens com chegada prevista a Belém em 9 de outubro, durante o período do Círio de Nazaré.
No trecho Manaus–Belém, os valores variaram de R$ 1.755,09 a R$ 4.049,17. A maior tarifa encontrada entre todas as rotas pesquisadas foi registrada nesse percurso. Já o menor preço foi identificado no trecho Fortaleza–Belém, por R$ 700,13, enquanto a tarifa mais alta nessa mesma rota chegou a R$ 3.859,96.

As diferenças também foram expressivas nas viagens com origem no Sudeste e no Centro-Oeste. No trecho Rio de Janeiro–Belém, os preços variaram de R$ 1.374,81 a R$ 3.835,91. Para quem saiu de São Paulo, as tarifas foram de R$ 1.490,04 a R$ 3.862,14. Já no percurso Brasília–Belém, os valores ficaram entre R$ 1.317,45 e R$ 3.834,55.
Entre as rotas regionais, a viagem de Macapá para Belém apresentou valores entre R$ 883,82 e R$ 1.036,82. No trecho Santarém–Belém, os preços variaram de R$ 2.595,29 a R$ 3.322,19.
Os valores representam as tarifas encontradas durante o período da pesquisa e não correspondem a preços fixos para cada rota. As diferenças podem estar relacionadas às condições de compra, à disponibilidade de assentos e às políticas de preços das companhias aéreas.

Custos do setor pressionam as tarifas
Além da demanda por viagens, os custos operacionais estão entre os fatores que ajudam a explicar a pressão sobre os preços. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) apontam que as tarifas aéreas domésticas subiram 14,5% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo mês de 2025. A tarifa real média no país chegou a R$ 776,87 por trecho.
No mesmo período, o preço do querosene de aviação (QAV), um dos principais custos operacionais das companhias aéreas, registrou alta de 31,8%, alcançando R$ 4,98 por litro.
Em Belém, o avanço de 41,04% nas passagens entre janeiro e julho supera em 27,35 pontos percentuais a variação nacional de 13,69% registrada no período.
Como funciona a formação das tarifas aéreas?
Segundo o economista Nélio Bordalo, membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia dos estado do Pará e Amapá), a formação das tarifas aéreas no Brasil segue a livre concorrência - as próprias companhias definem os preços das passagens de acordo com as condições do mercado.
"Entre os principais fatores estão a oferta e a procura, a antecedência da compra, a época do ano, a concorrência entre empresas e a ocupação das aeronaves", explica.
Segunod ele, quando a procura aumenta, como nas férias escolares, nos feriados e em grandes eventos, os preços tendem a subir. Por outro lado, quando há muitos assentos disponíveis, as companhias podem reduzir as tarifas para estimular as vendas.

"Outro fator importante são os custos operacionais, especialmente o querosene de aviação, que representa uma parcela significativa das despesas das empresas", destaca o economista.
De acordo com ele, a cotação do dólar também influencia os preços, pois parte dos custos do setor, como arrendamento de aeronaves, manutenção e peças, está vinculada à moeda estrangeira. "Além disso, as companhias precisam considerar despesas com pessoal, taxas aeroportuárias e serviços de operação", diz.
Nélio Bordalo explica que as empresas também utilizam sistemas de preços dinâmicos, que ajustam os valores conforme a procura e a disponibilidade de assentos em cada voo. Por isso, passageiros que viajam no mesmo avião podem ter pago valores bastante diferentes pela passagem.
"Dessa forma, o preço final resulta da combinação entre custos operacionais, demanda dos passageiros e estratégias comerciais das companhias, sem que exista uma tarifa única para cada rota", conclui.

