Doença de difícil diagnóstico, Lúpus afeta mais mulheres que homens

Dominik Giusti

Com sintomas difusos e que podem ser confundidos com outras doenças, os pacientes que sofrem de lúpus - uma doença autoimune, ou seja, que o próprio organismo desenvolve e que pode afetar múltiplos órgãos - costumam enfrentar uma longa batalha de exames e consultas até que o diagnóstico final seja fechado. Mas a análise clínica prolongada é o fator fundamental para que o médico possa ter certeza do quadro patológico, que varia em cada paciente,  e iniciar o tratamento adequado e personalizado, garante o dr. Otávio Paz, reumatologista e especialista em doenças que afetam o sistema imunológico. 

É a partir de uma variedade de exames e da observação do avanço de alguns sinais que o médico analisa paciente por paciente, pois não há uma padrão que se encaixe no diagnóstico lúpus. “O diagnóstico não é só de laboratóri;, é preciso ter uma fundamentação clínica porque há uma grande chance de o laboratório induzir a um erro. Muitas vezes a pessoa tem um retardo do diagnóstico por causa dessa evolução da doença, isso pode chegar até dois anos. E tem mais: a ausência de sintomas não implica dizer que a pessoa está saudável. Temos que confrontar os exames de laboratório e as evidências que estão na pessoa”, explica o médico, sobre o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), nome científico desta doença crônica (e não transmissível), que ocorre mais em mulheres do que em homens, numa proporção de nove pessoas do sexo feminino para uma do sexo masculino.  

A apresentadora Astrid Fontenelle, por exemplo, descobriu ser portadora de lúpus ano passado, após apresentar sintomas que geralmente despontam a suspeita da enfermidade, como inchaço nas mãos. Segundo o dr. Otávio, o corpo “desorganiza” do sistema imunológico, a partir do qual ele passa a não reconhecer estruturas que são próprias dele, e assim vários órgãos podem simplesmente inflamar, como as articulações, os rins, o pulmão e o coração. Um quadro clínico comum é a artrite nas articulações. “As doenças autoimunes têm o potencial de inflamar vários órgãos e sistemas ou até estruturas, como por exemplo o vaso sanguíneo, que não é um órgão em si. Para fechar em lúpus, preciso de quatro critérios clínicos e quatro laboratoriais”, explica. 

Astrid Fontenele (Reprodução Instagram)

Foi justamente o que aconteceu com a médica veterinária Natasha Borges, de 23 anos, que começou a sentir que algo não estava bem em seu corpo em 2015. Primeiro ela notou manchas avermelhadas no rosto, os chamados de eritemas; logo depois, percebeu que as mãos e os pés ficavam muito doloridos e inchados. Até que um dia notou que o problema se agravou e uma das articulações dos dedos incharam tanto a ponto dela não conseguir usar as mãos, devido às dores. “No início eu fazia alguns movimentos nas mãos para poder retomar a mobilidade dos dedos, mas isso foi o pontapé para eu começar a procurar diversos médicos”, relembra. 

Natasha (Naiara Jinknss / Troppo)

Primeiramente ela foi ao ortopedista, desconfiando apenas de artrite, doença muito comum que ataca as articulações. Prontamente, o médico a encaminhou para um especialista em reumatologia para investigar melhor o caso. Mas sua angústia não passava, já que ela chegou a fazer uma bateria de exames e não havia nenhum diagnóstico fechado. Entre as suspeitas, além do lúpus, o médico desconfiou também de artrite reumatóide e de Síndrome de Sjögren - também doenças autoimunes. Foi quando novamente ela decidiu trocar de médico, para ter um melhor acompanhamento sobre as investigações dos sintomas. 

“Quem tem lúpus, tem probabilidade de ter crises renais e percebi que o médico não fazia controle urinário. No final de 2015 tive uma crise forte e não consegui andar por conta dos pés inchados. Tomei injeção com corticóide e depois tive que tomar de novo. E daí decidi procurar um novo médico. Sei que o lúpus não aparece e diz ‘estou aqui’. Ele vem devagar e depois que aparecem outros sintomas”, analisa a jovem, que, em seguida, fez os exames de urina, que atestaram alteração do índice de proteína, muito acima do normal. 

A partir desse quadro, aliado à uma febre semanal que a deixava com mal estar e mais as análises clínicas e laboratoriais, depois de um ano, enfim, Natasha teve a notícia de que a doença era mesmo lúpus e com isso precisou alterar toda a medicação que estava fazendo. Ela teve que tomar altas doses de corticóides para estabilizar a doença e amenizar o sofrimento e as dores. Quando melhorou, as doses do corticóide diminuíram. Atualmente, ela tem a doença controlada com cuidados necessários, como evitar cigarro, bebidas alcoólicas e exposição ao sol. Mesmo assim, leva uma vida normal.

“Eu não conhecia niguém da minha família que tivesse sido diagnosticado com lúpus. Não sabia como tratar, como agir. Eu pensava que ia morrer. Mas não é assim: hoje eu tenho uma vida normal. Claro que tem coisas que eu evito fazer, pois sei que vão me fazer mal. Engordei 10 quilos e comecei a ter espinhas e isso me abalou psicologicamente, além da doença em si, mas precisei pensar no que era melhor para eu viver bem e superar”, comenta Natasha. 

Tudo sob controle

O Dr. Otávio acrescenta que o controle da doença é um grande ponto para os pacientes com lúpus e para a sociedade como um todo: compreender que é possível, sim, levar uma vida saudável e com a doença controlada, sem o estigma de que o paciente vai padecer com os sintomas durante longos períodos e que isso vai incapacitar os seus estudos, trabalhos ou mesmo o convívio social - como ainda é muito comum se pensar. O tratamento pode ser realizado de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e envolve o uso de uma série de medicamentos, que podem variar de caso a caso. 

“Hoje o que nós temos na medicina são tratamentos para controlar a doença. Em algumas vezes o que a gente percebe é que a doença vai se atenuando e a necessidade de medicamentos vai diminuindo.’, explica o médico. Mas a cura infelizmente ainda não existe. “Aí fica uma interrogação: será que houve uma reorganização novamente do sistema imunológico?”, indaga o médico, que orienta também uma complementação médica com avaliações de outros especialistas para a melhoria da doença.

Mas qual a causa, afinal?
Apesar do avanço das pesquisas científicas na área médica, não se sabe a origem exata do desenvolvimento do lúpus em um paciente, mas é possível afirmar que tem raízes genéticas, em alterações hormonais e pode ser suscitada a partir de outros processos infecciosos ou do meio ambiente e do estilo de vida de uma pessoa. Uma outra incógnita para os pesquisadores é o porquê justamente desta doença afetar principalmente as mulheres, como a médica Analou Messias, 28, que também ficou assustada com o diagnóstico, mas hoje leva uma vida super tranquila e está grávida do Benício. 

Ela descobriu a doença após poucos meses do primeiro sintoma, graças à esposa de um primo. Foi após assistir uma série que Analou percebeu uma diferença em sua perna: uma coceira simples evolui para um hematoma, que no outro dia havia se alastrado em quase toda a sua panturrilha. “Achei estranho, mas achei também que poderia ter rompido algum vaso e não dei muita importância. Depois comecei a ter muita dor de cabeça e me sentir inchada e, mais uma vez, achei que fosse outra coisa, como algo renal”, comenta. 

E foi durante uma conversa com seu primo e a esposa, durante um almoço de dia das mães, que eles levantaram a suspeita de lúpus e indicaram que ela buscasse urgentemente a orientação de um reumatologista. Depois disso, mais um episódio de desconfiança: Analou começou a sentir os pés muito inchados. “Era como se eu estivesse com os pés de grávida no final da gestação”, diz. “Entrei em contato com a esposa do meu primo e eu fui na casa dela. Ela me examinou e fiz outros exames direcionados para lúpus. E alguns dias depois, já com os resultados, o médico confirmou que era lúpus”, relembra.

A médica diz ter tido sorte por ter sido diagnosticada muito rapidamente, o que contribuiu para que ela pudesse controlar os sintomas e engravidar com saúde para ela e para o bebê - já que esse é um tema de grande comoção para as mulheres com lúpus: a ideia de que não poderiam engravidar. De acordo com o dr. Otávio, isso é passado e as mulheres podem tranquilamente planejar sua gestação mesmo com a doença.  “Fiquei em choque com o diagnóstico, achando que a minha vida ia mudar completamente e ia ser super regrada. Como tinha muita vontade de ser mãe, também achei que não ia conseguir, mas tudo foi controlado e o cuidado é grande”, diz. 

Sintomas - fique ligado! 
 

► Cansaço
► Febre
► Perda ou ganho de peso
► Inflamação das juntas (em 90% dos casos é frequentemente inflamar as duas mãos, com dor incapacitante) 
► Inflamação dos músculos (como se a pessoa estivesse com dengue ou zika)
► Manifestações na pele, como rash eritematoso, ou seja, manchas vermelhas (mais de 80% dos casos)
► Vasculite (como se fossem varizes nas pernas e nas mãos)
► Queda de cabelo
► Anemia
► Dor de cabeça
► Depressão
► Além de outras situações inflamatórias mais agressivas em casos raros da doença

Quais são os tipos de Lúpus?   

O Lúpus pode ser manifestar de quatro formas diferentes, que têm causas distintas. As principais formas da doença são:
Lúpus Discoide: esse tipo de lúpus fica limitado à pele da pessoa. Pode ser identificado com o surgimento de lesões avermelhadas com tamanhos, formatos e colorações específicas na pele, especialmente no rosto, na nuca e/ou no couro cabeludo.
Lúpus Sistêmico: esse tipo de lúpus é o mais comum e pode ser leve ou grave, conforme cada situação. Nessa forma da doença, a inflamação acontece em todo o organismo da pessoa, o que compromete vários órgãos ou sistemas, além da pele, como rins, coração, pulmões, sangue e articulações. Algumas pessoas que têm o lúpus discóide podem, eventualmente, evoluir para o lúpus sistêmico.
Lúpus induzido por drogas: essa forma do lúpus também é comum e acontece porque as substâncias de algumas drogas e/ou medicamentos podem provocar inflamação com sintomas parecidos com o lúpus sistêmico. No entanto, a doença, nesse caso, tende a desaparecer assim que o uso da substância termina.
Lúpus neonatal: esse tipo de lúpus é bastante raro e afeta filhos recém-nascidos de mulheres que têm lúpus. Normalmente, ao nascer, a criança pode ter erupções na pele, problemas no fígado ou baixa contagem de células sanguíneas, mas esses sintomas tendem a desaparecer naturalmente após alguns meses.

O Liberal
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