O Theatro da Paz foi palco, na noite desta sexta-feira (6), da cerimônia de entrega do título de Patrimônio Mundial concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O reconhecimento foi celebrado com a presença de dirigentes das esferas federal, estadual e municipal, representantes da organização internacional e um público numeroso. Com pronunciamentos e apresentações musicais, a solenidade marcou um momento histórico para o espaço cultural, inaugurado em 15 de fevereiro de 1878, que, ao longo de 148 anos, consolidou-se como uma das principais referências históricas e culturais da Amazônia.
Em 27 de julho deste ano, o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco aprovou a candidatura conjunta do Theatro da Paz e do Teatro Amazonas (MA). Essa candidatura havia sido formalizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, mediante a colaboração das Secretarias de Cultura do Pará e do Amazonas.
A coordenadora do Setor de Cultura da Unesco, Isabel de Paula, ressaltou que o reconhecimento dos “Teatros da Amazônia” como Patrimônio Mundial representa uma conquista que ultrapassa os limites regionais e nacionais. Segundo ela, o título amplia a dimensão e a importância cultural dos espaços, que passam a integrar o patrimônio de relevância internacional.
“Significa que não é só um bem importante para Manaus, para Belém, mas também para o Brasil e para o mundo, porque ele agora adquire o status internacional de patrimônio mundial, ou seja, é um bem que tem importância para o mundo todo”, afirmou.

Isabel de Paula também explicou que a escolha dos dois teatros levou em consideração não apenas a beleza arquitetônica, mas a relação histórica dos espaços com um dos períodos mais importantes da região: o Ciclo da Borracha. Outro aspecto destacado foi a preservação e a continuidade das manifestações culturais e artísticas amazônicas, mantidas vivas nos palcos dos dois teatros.
“Além disso, por serem teatros que mantêm, que perpetuam uma diversidade cultural da Amazônia, a força criativa da Amazônia. São teatros vivos em que também o patrimônio imaterial, as manifestações artísticas estão presentes”, pontuou a coordenadora. Para ela, o título também representa uma oportunidade de ampliar a visibilidade internacional dos espaços e atrair investimentos, além de reforçar a responsabilidade do poder público na preservação das características históricas e arquitetônicas desses patrimônios. “O Theatro da Paz é magnífico”, enfatizou.
O secretário de Estado de Cultura, Bruno Chagas, destacou que o reconhecimento internacional representa a consolidação da importância da produção cultural amazônica para o Brasil e o mundo. Segundo ele, a conquista vai além dos aspectos arquitetônicos dos edifícios, pois reconhece também a diversidade de expressões artísticas e culturais presentes nos dois espaços.
“O Theatro da Paz não recebe esse certificado apenas por seus aspectos arquitetônicos, mas por ser realmente uma culminação de todas as expressões culturais do nosso estado, da região amazônica, conjuntamente com o Teatro Amazonas. Eles representam, acima de tudo, a nossa mais pura expressão cultural, artística, identidade da Amazônia”, afirmou.
“Nós temos cultura”
Para o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Deyvesson Gusmão, o reconhecimento dos “Teatros da Amazônia” representa também a valorização da diversidade cultural brasileira no cenário internacional. Segundo ele, o título reforça a importância da história da região para a compreensão da formação cultural não apenas do Brasil, mas de diferentes sociedades no mundo. “Quando se tem esse reconhecimento dos ‘Teatros da Amazônia’, a gente está dizendo também para o mundo que a história da Amazônia importa, que esses lugares são importantes não só para compreender a Amazônia e o Brasil, mas para compreender a diversidade cultural no mundo todo”, afirmou.
O Iphan coordenou o processo de candidatura dos dois teatros junto à Unesco, em parceria com diferentes instâncias governamentais e representantes da sociedade civil. Gusmão destacou que os espaços culturais preservam parte importante da história da urbanização, das artes e da formação social da Amazônia, além de refletirem os projetos de sociedade e de país construídos ao longo do tempo.
Para o presidente do instituto, o reconhecimento também deve servir como oportunidade para ampliar a presença das diferentes identidades amazônicas nesses espaços. Ele defendeu que os teatros sejam referências para manifestações culturais de ribeirinhos, povos indígenas, comunidades de matriz africana e populações periféricas. “A gente tem que utilizar esses dois espaços para dizer qual é o nosso projeto de Brasil hoje. Que eles sejam também ícones para a cultura dos ribeirinhos, dos povos indígenas, dos povos de matriz africana, ícone de culturas periféricas. Como a gente traz essas culturas e as várias identidades que a gente tem na Amazônia para dentro desses teatros, para que elas também alcancem o grande palco. Esse é um caminho importante para gente conseguir, de fato, socializar o patrimônio”, pontuou Deyvesson Gusmão.
O diretor do Theatro da Paz, escritor e dramaturgo Edyr Augusto Proença, também celebrou o reconhecimento internacional e ressaltou a projeção que o título poderá proporcionar aos dois equipamentos culturais. Segundo ele, a conquista representa um marco para a região amazônica e abre perspectivas de colaboração com a Unesco em ações relacionadas à programação cultural, às obras e à preservação do entorno do teatro.
“De hoje em diante, o Theatro da Paz e o Amazonas têm uma visibilidade mundial da importância deles. É a primeira vez na Amazônia que nós temos um título desta importância. Nós teremos ajuda da Unesco no que diz respeito à programação, a obras e ao entorno deste teatro”, declarou. Edyr acrescentou: “Nós temos cultura, nós temos o que apresentar e estamos agora como patrimônio histórico cultural do mundo”.
O prefeito de Belém, Igor Normando, destacou que a entrega do título representa reconhecimento e orgulho para a capital paraense. Para ele, a conquista valoriza não apenas a arquitetura do Theatro da Paz, mas também a trajetória histórica e cultural preservada pelo espaço.
A cerimônia foi encerrada com apresentações da Amazônia Jazz Band, Warilou, Sayonara, Gigi Furtado e do Grupo Parafolclórico Flor da Amazônia. Também participaram da programação a superintendente do Iphan no Pará, Cristina Vasconcelos, e a arquiteta e escritora Jussara Derenji, que atuou nos estudos relacionados à candidatura do Theatro da Paz a Patrimônio Mundial da Unesco.