Parecia um dia qualquer. Mas, na vida de uma criança, os dias nunca são meros dias. São tempos de descobertas. Então, talvez por esse sentido, a mãe do menino dirigiu-se secretamente ao banco a fim de retirar suas economias. Ela não tinha dúvida sobre o objetivo dessa iniciativa: comprar o primeiro violão para o filho, na época instrumento muito caro para as posses da família. Mas uma mãe sempre confia no filho e, assim, aos 13 anos de idade, o garoto ganhou o violão e viu que dali para frente o caminho na música não teria mais volta. Esse menino era e é o músico, compositor e professor Otávio Salomão Habib Dantas, ou simplesmente Salomão Habib. Nesta sexta-feira (2), às 20h, ele apresentará o concerto “Melodia Sentimental”, comemorando 45 anos de carreira musical.
Essa apresentação histórica se dará no espaço Na Figueiredo e ocorrerá no dia do aniversário de 61 anos de Salomão. “O dia decisivo nesta trajetória de 45 anos de música ocorreu justamente no dia em que minha mãe (Nazaré Habib Dantas) conseguiu comprar o meu primeiro violão”, conta Habib.
Essa afeição de Habib pelo instrumento musical mostrava-se, desde o começo da história do músico, como algo inevitável. “Eu nasci em um meio musical. Meu pai (Raimundo Otávio de Souza Dantas) era trompetista e músico profissional, e minhas três irmãs tocavam violão e piano. Desde criança, eu já via e ouvia alguém tocar”.
“Na minha infância, as casas ainda tinham pianos na sala, que era a forma de se ouvir música ao vivo. Alguém na família sempre tocava. Na minha, todo mundo tinha esse dom. Porém, somente aos 11 anos eu fui apresentado oficialmente ao instrumento, apesar de brincar com ele já há algum tempo”, conta Salomão.
Esse músico e compositor belenense formou-se pelo Conservatório Carlos Gomes, com especialização em Cuba, Rio de Janeiro e São Paulo, tendo como mestres Jesus Ortega, Leo Soares e Henrique Pinto. Com essa formação, Habib avalia o fato de completar 45 anos de música. “Não é fácil viver de música. Na verdade, nunca foi. É preciso estudar e praticar muito todos os dias e valorizar cada conquista. Ter consciência do papel social da música é ser fiel aos seus princípios estéticos e genéricos. Me sinto feliz por não ter desistido do propósito para o qual eu nasci para cumprir. Sigo construindo minha obra, que falará por mim quando aqui não estiver mais”.
Esse talento de Salomão Habib pode ser desfrutado em 46 discos lançados, até agora, sendo dois long play (lp), 44 CDs - um lançado na Alemanha pelo selo Buch Julius, e oito DVDs, além de oito livros publicados.
Cordas do coração
O violão é um instrumento universalmente adotado. Mas ganha relevo particular no Brasil. Salomão destaca a presença histórica e cultural desse instrumento musical na Amazônia.
“O violão na Amazônia ganha relevo a partir da década de 1910 pelas mãos do jovem Tó Teixeira. Tó era um descendente de escravos, nascido em 1893, apaixonado por música, que lutou contra a miséria e o racismo estrutural. A história do violão no Pará começa com ele, que foi o primeiro professor de violão da Amazônia, primeiro regente de ‘Pau e Corda’, grupo de choro, primeiro transcritor de obras clássicas para violão e primeiro homem preto a subir em um palco de teatro para fazer um concerto. Foi no Liderança Esporte Clube em 1939”.
“Tenho há 36 anos uma dedicada pesquisa sobre a vida do Tô Teixeira e sobre o violão no Pará, que resultou até agora em quatro CDs, um DVD documentário e dois livros”, destaca o violonista.
Salomão Habib diz o que é ser um violonista na Amazônia. “É saber compreender o som dos rios e seus peixes, suas tardes ensolaradas e sua chuva; entender sua gente e seu ritmo. Compreendendo isso tudo e utilizando a técnica, a musicalidade se expressa e a magia acontece, resultando em interpretações e composições magistrais. Ser violonista na Amazônia é, antes de tudo, ser um sobrevivente entre o prazer de tocar, a necessidade de ser valorizado e ganhar seu sustento, e a fidelidade aos princípios estéticos da arte, digo, da arte verdadeira, da boa música, boa arte”.
Como devoto de Nossa Senhora de Nazaré, o músico vai interpretar neste concerto de sexta-feira peças em homenagem à santa padroeira dos paraenses e que tocam na transmissão da romaria. “Tocarei também as melodias que escolhi e que tocam muito a minha história musical. Sou melodista nato e um fã ardoroso do que é bonito. O violão, como disse o poeta Paes Loureiro, é essa ‘lua de cordas que brilha no céu azul da canção’ “.
O público assistirá a interpretações de peças variadas de compositores como Villa-Lobos, Cartola, Beatles (arranjos especiais), Ernesto Nazareth, João Pernambuco, Garoto, Sebastião Tapajós, Nêgo Nelson e Ravel, além de músicas autorais. O show terá a participação de Alcides Alexandre na percussão e Gigi Furtado, "cantando uma música inédita que eu compus para o Cirio 2026". “Dois queridíssimos amigos”, ressalta o compositor.
Salomão Habib avalia como satisfação em 45 anos de música o fato de ter conseguido formar tantos alunos e feito tanta gente aprender a tocar violão. Despertar o talento das pessoas. “E poder lembrar de todas as músicas de memória. Isso é muito importante para quem ama a música. Nossa memória traz nossa história e nossa vida”, assinala o músico.
E o violonista tem razão. Ele se lembra de como a música foi importante em sua infância e juventude. Então, há 10 anos, Habib desenvolve o projeto Cantar-o-lar. São 24.540 crianças atendidas em 114 escolas públicas, e esse projeto é chancelado pelo Unicef. Portanto, cada música que Salomão tocar nesta celebração dos 45 anos de música dele reafirmará a escolha desse músico de nunca mais deixar de lado o violão em sua vida.
Serviço:
Concerto ‘Melodia Sentimental’, com Salomão Habib
Em 2 de outubro de 2026, às 20h
No espaço Na Figueiredo, na av. Gentil Bittencourt, 449,
em Belém (PA)
Informações sobre mesas e ingressos: 91 98165-5507