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NAS TELAS

Preta Gil: documentário ressalta escolhas e alegrias em meio ao tratamento contra o câncer

Momentos íntimos e delicados, como Preta intubada na UTI do Hospital Sírio-Libanês, estão presentes

Estadão Conteúdo

20 de julho de 2026 às 08:52

Preta Gil.

Preta Gil. ( Foto: Van Campos / AgNews )

O documentário inédito 'Preta - Eu Não Ando Só', que estreia nesta segunda-feira, 20 de julho, na TV Globo após a novela 'Quem Ama Cuida', oferece um olhar íntimo sobre a jornada de Preta Gil. A produção acompanha a cantora durante o tratamento contra um câncer de intestino, revelando momentos de fé e incerteza, como uma visita ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo.

A artista iniciou a documentação de sua rotina durante o tratamento, que durou cerca de dois anos e meio, até seu falecimento em 2025. Ela pediu a pessoas próximas que também filmassem. Em 2023, confiou a Mônica Almeida a missão de transformar esse material em um documentário, independentemente do desfecho de sua luta contra a doença.

Sandra Kogut, diretora de 'Preta - Eu Não Ando Só', relata a existência de um áudio em que a cantora reafirma sua vontade de realizar o filme nos últimos dias de vida. O documentário tem duração de cerca de 1h40 e integra o projeto 'Quanto Mais Preta, Melhor', da Globo, que também inclui uma série no Globoplay. A data de estreia marca um ano da morte de Preta Gil.

A intimidade da batalha contra o câncer

A produção expõe momentos delicados e íntimos, como a intubação de Preta na UTI do Hospital Sírio-Libanês após uma cirurgia complexa de mais de 20 horas. Essas gravações caseiras são intercaladas com depoimentos atuais de amigos e familiares, como Carolina Dieckmann, Ivete Sangalo, Luciano Huck, Angélica, Ana Carolina e Otávio Müller, ex-marido de Preta, feitos exclusivamente para o filme.

Sandra Kogut recebeu inúmeras horas de vídeos brutos e sem filtro, feitos por celular. A diretora descreve o desafio de dar forma a esse material, reconhecendo a qualidade humana e o afeto nas imagens produzidas por pessoas próximas à artista. O trabalho principal foi decidir qual história seria contada a partir desse vasto acervo.

Para Kogut, que conheceu Preta na adolescência, a distância inicial permitiu uma perspectiva equilibrada. Ela redescobriu a essência da homenageada: 'Preta tinha vivacidade, inteligência, era engraçada. Uma pessoa intensa', resume a diretora, destacando a força e a autenticidade da cantora.

A rede de apoio e a força tropicalista

A resistência de Preta Gil durante a doença é evidenciada pelo apoio de amigos próximos. Malu Barbosa e Marcello Azevedo, sócios da artista, e os influenciadores Gominho, Jude Paulla e Duh Marinho, parte da 'Diamond's Family', revezavam-se no hospital, atendendo às vontades dela e organizando questões burocráticas. Manter a esperança e a alegria era uma premissa, estimulada pela própria Preta.

Sandra Kogut afirma que Preta era a 'expressão da vida', mesmo diante da proximidade da morte. O filme busca registrar essa maneira de ser, destacando a capacidade da cantora de afirmar a vida em qualquer circunstância, o que, para a diretora, 'fez todo o sentido'.

O documentário também explora a personalidade de Preta Gil, traçando um perfil da mulher que se definia no palco como 'uma preta, gorda e bissexual'. Depoimentos de seu filho Fran Gil, pai Gilberto Gil, tio Caetano Veloso, irmã Maria Gil e primo Moreno Veloso contribuem para essa construção de identidade.

Gilberto Gil descreve a filha com uma 'força tropicalista': 'Neo, pós, trans tropicalista. Flor que brotou nesse jardim'. Caetano Veloso complementa, afirmando que Preta era 'desembaraçadamente plural' e que sua versatilidade artística e não artística provinha do tropicalismo.

O filme reforça essa ideia ao exibir cenas da bem-sucedida 'Festa Preta', no Rio de Janeiro, onde a cantora, no comando do público, demonstrava uma energia comparável à do apresentador Chacrinha, outro ícone do tropicalismo em sua essência.

Moreno Veloso caracteriza a prima como 'glutona', referindo-se ao seu apetite por comida, bolsas e, sobretudo, pela vida. Maria Gil revela que a conexão entre elas residia nas diferenças. A mãe de Preta, Sandra Gadelha, conhecida como Drão, não concede depoimento, mas sua presença é sentida de forma sensível no documentário.

A dinâmica entre o círculo íntimo de amigos e a família revela, em alguns momentos, um certo descompasso. No Réveillon de 2024 para 2025, quando o estado de Preta se agravou, Gilberto Gil esteve no hospital, assumindo o controle da situação delicada. Gominho, em outro trecho, menciona a preocupação de alguns próximos da família quando Preta acolheu em casa 'um bando de favelados', que moravam com ela antes mesmo da doença, e que gerou reações de 'queriam interditá-la. Achavam que ela estava louca'.

Para Sandra Kogut, esses episódios refletem as 'escolhas' de Preta Gil. 'Ela que inventou o mundo no qual ela queria viver, seja afetivamente ou artisticamente, com muita verdade e coragem', comenta a diretora. Ela acrescenta que Preta abordou pautas como homofobia, racismo e gordofobia de forma genuína muito antes de se tornarem temas centrais no debate público.

Um legado para Sol de Maria

'Preta - Eu Não Ando Só' é dedicado a Sol de Maria, neta de Preta, de 10 anos. O filme inclui um depoimento comovente da criança, que narra ter sabido da doença da avó por amigos. Sol questionou a avó, que confirmou e perguntou se ela queria saber mais. A menina, então, fez um colar de miçangas coloridas para a avó 'ficar boa', adereço que Preta usou em várias internações, a mais longa delas com duração de três meses.

A forte conexão entre avó e neta é destacada após uma das cirurgias de Preta. A cantora, crendo-se curada, ligou emocionada para o filho, Fran, expressando o desejo de ver Sol crescer. Sandra Kogut sugere que parte do filme visa deixar um registro para Sol e para as futuras gerações sobre o legado de Preta Gil. A diretora descreve as entrevistas como 'muito especiais', vivendo a intensidade de falar sobre alguém que partiu há pouco tempo.

Série no Globoplay complementa o projeto

Além do documentário, a iniciativa 'Quanto Mais Preta, Melhor' inclui a série original do Globoplay, intitulada 'Meu Nome é Preta'. Produzida pela Conspiração Filmes e dirigida por Mini Kerti, a série terá quatro episódios, liberados semanalmente a partir desta segunda-feira, 20 de julho. O último episódio será disponibilizado em 8 de agosto.

A produção do Globoplay apresentará imagens raras de Preta Gil, desde a infância e ao longo de sua trajetória artística. Serão incluídos registros de projetos como 'Noite Preta' e 'Bloco da Preta', além de depoimentos de familiares e amigos, enriquecendo a narrativa sobre a vida da artista.

Onde assistir:

  • Preta - Eu Não Ando Só: Na TV Globo, 20/07, após a novela Quem Ama Cuida.
  • Meu Nome é Preta: No Globoplay a partir de 20/07, com episódios semanais até 08/08.