Alberto Raimundo Guimarães Sequeira, o cantor, compositor, letrista, poeta e músico mais conhecido como Beka, nascido em Belém, faleceu precocemente pouco antes de completar 33 anos de idade em 16 de novembro de 1981, no Rio de Janeiro. Mas deixou um legado musical, poético e de resistência política dos mais expressivos, que pode ser conferido mais de perto, a partir de agora, com o lançamento do livro "Beka - Acordes de uma breve vida". O livro, escrito por Murilo Vieira Menezes, historiador e primo do artista, será lançado nesta quinta-feira (22), às 19h30, no Tuy Cultural, em Belém. O lançamento vai contar com apresentações artísticas de intérpretes, amigos e admiradores do trabalho de Beka.
Com 138 páginas, o livro traz uma biografia artística de Beka, ou seja, conta como a música sempre esteve presente na vida desse compositor. Ele herdou o talento musical da avó materna, Matilde Martins Guimarães, que acompanhava ao vivo, ao piano, a projeção de filmes mudos no Cine Olympia, em Belém, como relata Murilo Vieira no livro.
Beka aprendeu os primeiros acordes no violão com o violonista Alcides Baptista Freitas, o mestre Catiá, integrante do primeiro regional de choro do Pará e considerado por muita gente como um dos pioneiros das seis cordas na região Norte do Brasil. Nos anos 1960, Beka participou de programas de TV junto com os irmãos Ademir e Alcyr Guimarães. Zildinha Sequeira, irmã do compositor, é articulista de O Liberal e acompanhou a obra do compositor.
A família deles costumava organizar rodas de samba em casa, o que, durante o Projeto Pixinguinha, da Funarte, nos anos 1970 e 1980, fez com que artistas que se apresentaram em Belém dessem uma esticadinha até o "quintal da 16 de Novembro" onde a turma se reunia. Nomes como Dona Ivone Lara, Alceu Valença, Copinha e Danilo Caymmi estiveram lá. Beka chegou a prosear em Belém, em um boteco da travessa 14 de Março, com Paulinho da Viola e músicos renomados. Canções como "Vencendo a Tempestade", "Alugado", "Se Mexe", "Carimbó da Praça", "Choro Rouco" e "Mestre Calafate" fazem parte do universo sonoro de Beka. No livro, o público encontra um WRCode para ouvir as canções de Beka.
"O Beka realmente era uma pessoa fora da curva, uma pessoa excepcional, dotada de grande sensibilidade, um grande músico e também poeta, mas na área da música é que ele, em minha opinião, mais se destacava. Ele era capaz de fazer música de qualquer som que ele ouvia ao seu redor. Fosse o barulho da chuva numa goteira, no telhado, um carrinho de pipoca passando, um triângulo. Então ele pegava, se sensibilizava com isso, corria para o violão e dizia, como ele costumava me chamar: 'Irmãozinho, Irmãozinho, olha aqui essa música que eu achei agora'. Esse termo, para mim, era muito interessante. Ele se referia à música como se a música já existisse de uma forma sobrenatural e estivesse no ar. E ele fosse lá e achasse, encontrasse o que já existia. No fundo, no fundo, já existia dentro dele", destaca o poeta Raimundo Gadelha, parceiro de Beka no álbum "Vencendo a Tempestade", lançado em 1979.
Em livro
Murilo Vieira conta que o livro sobre Beka "era pra ser mais familiar, mas acabou ganhando um quesito musical e político que também é bom deixar registrado pra posteridade". "Ele é um compositor fantástico, que faz muita falta em tempos coléricos como hoje, e poucas pessoas tiveram a honra de escutar suas canções", pontua.

"O Beka era como um Macalé, um nego Dito. Ele era um dos malditos, mas ralado na maniva. Fazia cultura popular e ocupava espaços necessários. Apesar de pouco conhecido atualmente, por não ter deixado um legado fonográfico, ele era um artista de um potencial criativo incrível, e que, apesar de não gravadas, deixou bastante composições de temas diversos, desde política e resistência, até amor ou saudade, chegando a 50 o número de músicas, todas gravadas entre 1971 e 1981. Chegou a ser considerado como um dos grandes compositores e violonistas da MPP (Música Popular Paraense)", destaca o autor.
"A importância do Beka reside ainda nos muitos artistas que tiveram contato com ele e tiveram influência dele, como, por exemplo, o saudoso irmão dele, Alcyr (Alcyr Guimarães), o meu tio Orlando (Orlando Vieira), um dos grandes violonistas da cidade. São pessoas influentes e importantes e que influenciaram outra leva de gente talentosa, mas tiveram esse pedacinho do céu com eles, seja em memória ou mania", acrescenta Murilo.
O autor de "Beka - Acordes de uma breve vida" ressalta ser importante que as novas gerações conheçam o trabalho musical desse compositor, "porque essa obra quase se perdeu". "Conhecer Beka é também reencontrar valores pelos quais ele lutou, como a liberdade de expressão, a justiça social, a valorização da cultura regional e o direito à diferença. E é abrir espaço para que novos músicos e pesquisadores levem suas canções adiante, nas rodas de samba e nos bares de Belém, como ele certamente gostaria. O livro traz as letras de todo o cancioneiro e partituras de parte da obra, justamente para isso".
Entre os artistas que gravaram composições de Beka está o Grupo Ver-o-Peso, que era o conjunto que o acompanhava, formado por parentes e amigos. Alcyr Guimarães fez uma versão de "Alugado", adicionando algumas rimas. E o parceiro de Beka, e editor do livro, o poeta Raimundo Gadelha, tem o compacto com o compositor. Beka e Gadelha gravaram o álbum "Vencendo a Tempestade", que pode ser conferido a partir do livro escrito por Murilo.
"O meu pai (Nazareno Silva Menezes) gravou uma com o grupo dele, Suvaco de Cobra, nos anos 90, e depois teve uma gravação de Erwin Von Rommel, que gravou um cavaquinho no CD do Projeto Choro do Pará, que o Pardal e Jacinto Kahwage produziram, há uns 20 anos. Mas tem vídeos raros, inclusive do grupo Caxangá tocando "Fa Fátima" em uma dessas lives da pandemia. Como disse, infelizmente ele mais deixou músicas do que gravou".
Beka compunha em diversos gêneros musicais, prevalecendo o samba, o baião e o carimbó. " Mas tem também bolero, bossa-nova, algumas ladainhas e folias marajoaras, modinha, fado, MPB e música de protestos, além de influência do jazz, choro, do forró e por aí vai...", como conta Murilo Vieira.
Serviço:
Lançamento do livro 'Beka - Acordes de uma breve vida',
de Murilo Vieira Menezes
Em 22 de outubro de 2026, às 19h30
No Tuy Cultural, na rua dos Tamoios, 1587,
em Belém (PA)
Evento aberto ao público

