A música feita na Amazônia é rica, traz a força dos rios, da floresta, da vida de quem convive com o encantamento dos ecossistemas naturais e também com o risco de tudo ser extinto, de uma hora para outra. Essa música tem dois cantadores que, juntos ou em carreira solo, nunca deixaram de narrar essa região: os cantores e compositores paraenses Nilson Chaves e Vital Lima. Esses dois se reuniram nos anos 1980 e lançaram o álbum “Interior”, título sugestivo para muitas reflexões. Em 1986, o disco estourou, com os artistas fazendo shows, as canções em evidência na mídia e as pessoas cantando as músicas do álbum. Esse clima todo e o seu impacto na cena cultural do bioma é o que o público vai conferir no show “Interior 40 Anos“ que Nilson e Vital apresentarão nesta quarta-feira (7) no Theatro da Paz, para celebrar 40 anos dessa gema musical.
“Interior” trouxe 11 canções: “Flor do Destino” (Nilson Chaves, Vital Lima), “Outro Interior” (Fernando Carvalho, Vital Lima), “Do Nada Prá Lugar Nenhum” (Sá e Guarabyra), “Tum-Ta-Ta” (Walter Freitas), “Muruci” (Vital Lima), “Tempodestino” (Nilson Chaves, Vital Lima), “Olho de Boto” (Cristóvam Araújo, Nilson Chaves), “Interior” (Nilson Chaves, Vital Lima), “A Seu Jeito” (Sérgio Limaneto, Vital Lima), “A Estrada do Sertão” (Hermínio Bello de Carvalho, João Pernambuco), “Das Frutas” (Jamil Damous, Nilson Chaves).
“A ideia de fazer esse vinil foi um convite do produtor Carlos de Andrade, do Rio, do selo Visom, que nos propôs fazer esse disco, esse trabalho com esse perfil amazônico”, destaca Nilson Chaves.
A proposta de Carlos de Andrade foi aceita por Nilson e Vital, que organizaram um repertório com músicas da Amazônia, com algumas pequenas exceções. “A maioria das músicas tinha a ver com a Amazônia: ‘Tum-Ta-Tá’, ‘Flor do Destino’, ‘Olho de Boto’, ‘Interior’, ‘Outro Interior’. Todas essas canções têm uma essência amazônica”, ressalta Nilson.
E as canções contaram com arranjos especiais e participação muito especial de Antonio Adolfo, Flavio Venturini, Marcelo Mariano, Marcos Amma, Mauro Senise, Maurício Einhorn, Marcelo Lima, Fernando Carvalho, Ivan Machado e Milton Edilberto. Os músicos eram basicamente do Rio de Janeiro, onde Nilson morou e onde Vital ainda mora. A cantora paraense Leila Pinheiro abrilhanta ainda mais “Tempodestino”.
Nilson lembra que “Olho de Boto”, feita em parceria com Cristóvam Araújo, transformou-se em “uma música marcante desse trabalho, desse álbum, junto com ‘Tum-Ta-Tá’, do Walter Freitas, também, que é uma música muito forte desse disco, e ‘Flor do Destino’, com o Vital’. “Esse álbum ‘Interior” nos brinda com essa resistência amazônica musical, que a gente propôs fazer naquele momento, e que, ainda hoje, tem uma existência primorosa, muito forte. E assim segue o álbum ‘Interior’, acrescenta Nilson Chaves.
Cantar junto
Já Vital Lima entende os 40 anos do álbum 'Interior" como “um ato de criação bem-sucedido”. “Afinal, o risco está presente no que se dá a ver; todas as possibilidades estão ali, mas só algumas vingarão. No caso do ‘Interior’, a proposta, as canções escolhidas, os arranjos, a forma como pensamos os vocais, tudo contribuiu para atrair o olhar das pessoas e despertar nelas o desejo de cantar junto. É uma resposta de nosso ser afetivo que não passa, que foi ficando, permanecendo, incluindo aí o fato de que muitas canções do álbum entraram para a trilha sonora da vida de muitas pessoas”.
Vital conta que, na época do álbum, ele e Nilson Chaves vinham de experiências boas em festivais pelo interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, principalmente. “ ’Tempodestino’, por exemplo, terminou em primeiro lugar em vários deles. Como consequência, surgiram convites para shows em muitas dessas cidades e tivemos oportunidade de mostrar outras canções que vínhamos trabalhando. Quando surgiu a oportunidade de registrar o trabalho em disco, sabíamos bem por onde queríamos ir e a forma que buscávamos naquele imenso fundo amazônico que era o nosso ancoradouro”, ressalta.
Esse cantor e compositor não tem dúvida sobre o impacto que o álbum teve na vida dele. “Diria que foi tão decisivo quanto o meu primeiro disco, o ‘Pastores da Noite’, foi fundamental. ‘Pastores’ foi fundamental porque realmente comecei a acreditar no compositor que eu trazia em mim; já o ‘Interior’ foi decisivo porque veio em um momento em que eu me perguntava sobre a minha capacidade de fazer um trabalho mais popular, que chegasse mais perto das pessoas”.
“Sempre me dei bem com o Nilson, como parceiro de música, além do fato de nos conhecermos e convivermos desde adolescentes. Então, gostava dessa segurança extra de estarmos juntos nesse trabalho. Percebemos o sucesso com esse álbum. No primeiro show que fizemos, Nilson e eu, alguns meses depois do lançamento, havia tanta gente no andar superior do Centur que, ao desembarcar do táxi, na entrada da avenida Conselheiro Furtado, eu cheguei a comentar que devia estar havendo algum evento ou exposição superconcorrida. Para minha surpresa, eram pessoas que tinham ido para nos ver. Essa foi uma experiência mágica. Penso que fizemos duas sessões nesse dia”, conta Vital Lima.
Vital diz que gosta de tudo no álbum, “até dos momentos estressantes durante as gravações”. “O Carlos de Andrade, que, junto com Sérgio Limaneto, era produtor do álbum e dono do selo Visom, por onde o disco seria lançado, sempre foi superatento aos meandros e às novidades da indústria fonográfica. Daí que havia trazido para o Brasil uma bateria eletrônica, que estava em evidência nos estúdios de gravação, no exterior, e resolveu que iria testar a novidade no álbum. Foi uma agonia, porque houve uma faixa que ele levou semanas fazendo até considerar bom o resultado. Foi estressante, mas foi bom, porque era “Olho de Boto”, canção do Nilson sobre um poema de Cristóvam Araújo, que se tornou uma das faixas mais conhecidas e queridas do álbum”. Vital entende que “Interior” traduz muito a vivência na Amazônia. “Eu penso que sim e sinto assim, até porque todo o preparo do álbum buscava um certo sorriso de nossa alma amazônica às canções que eram propostas”.
O álbum apresenta-se para Vital Lima como “uma experiência que tem muitas camadas de emoção”. Então, para conferir esses sentidos amazônicos no álbum antológico de Nilson Chaves e Vital, basta conferir o show no Theatro da Paz nesta quarta-feira (7).
Serviço:
Show ‘Interior 40 Anos’,
com Nilson Chaves e Vital Lima
Em 7 de outubro de 2026, às 20h
no Theatro da Paz
Ingressos na bilheteria
Informações: 91 98510-5190
