Em cartaz na novela “A Nobreza do Amor”, da TV Globo, no papel do General Mackenzie, o ator Henri Pagnoncelli apresenta em Belém o monólogo “Caim”, no Teatro da Caixa Cultural, entre os dias 27 de outubro e 1º de novembro, sempre às 19h. A montagem é baseada no último romance do escritor português José Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.
Com apoio da Fundação José Saramago, sediada em Lisboa, a produção realizou apresentações em cidades de Portugal, do Brasil e da Espanha. Por sua atuação no espetáculo, Pagnoncelli recebeu o Prêmio de Melhor Ator na III Mostra Internacional de Teatro Sem Fronteiras, em Portugal.
“Caim” tem dramaturgia de Teresa Frota, que também dirige a peça ao lado de Jacyan Castilho.
“A Teresa tem uma experiência enorme em dramaturgia, adaptação literária, foi roteirista por 20 anos na TV Globo. Ela fez um trabalho fantástico em ‘Caim’. E o meu maior desafio foi trazer a coloquialidade do texto de Saramago. Porque todo mundo acha difícil ler Saramago e eu descobri que não, que justamente o texto dele quando é falado é que tem mais força. Ele escreve como se fala, ele pontua como a gente fala. Depois foi encontrar a personalidade de cada personagem, o jeito de falar, o gestual, um trabalho bem minucioso”, diz Henri.
O espetáculo “Caim” estreou em 2022, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e desde então circulou por diversas cidades brasileiras e do exterior. A concepção do projeto nasceu do impacto da circulação pelo Brasil e da força narrativa.
“Nós já fizemos várias cidades do Brasil, de Portugal e da Espanha. Ganhei um prêmio de melhor ator em Portugal. Começou quando a Teresa leu ‘Caim’ e disse: ‘Isso dá teatro’. Eu respondi que ela estava maluca, são centenas de personagens. E ela: ‘Dá teatro e é um monólogo’. Olha, confesso que me assustei! Aí eu li a adaptação dela e entendi. Caim tem uma visão muito lúcida e muito atual de Saramago sobre o ser humano. Aquilo precisava ser dito para fazer as pessoas pensarem. E eu garanto que ninguém sai do teatro da mesma forma que entrou. Lá em 2022, quando estreamos, a gente achava que ia fazer uma temporada no Rio, outra em São Paulo e só, mas Caim tem vida longa, continua ‘errante pelo mundo’”, relembra.
Com duração de 70 minutos, a montagem é narrada em primeira pessoa, com todas as personagens interpretadas por Henri Pagnoncelli em um formato solo centrado no texto. A partir da obra de José Saramago, o espetáculo apresenta uma releitura da história bíblica de Caim e Abel para abordar temas como preconceitos, injustiças, conflitos e estruturas de poder, estabelecendo relações entre a trajetória do protagonista e o contexto contemporâneo.
“O que o Saramago mais provoca é o pensamento além do óbvio. Você conhece a história de Caim. Ok. Matou Abel e foi castigado a andar errante pelo mundo. Acabou ali? Para Saramago ali é o começo. Infelizmente, cada vez mais as pessoas estão perdendo o hábito de pensar, de raciocinar, de questionar, perguntar ‘por que?’, ‘e se...’. Aliás, ‘e se...’ era a pergunta que Saramago mais fazia a si mesmo. Eu já tinha lido alguns livros e, claro, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que despertou uma grande curiosidade. Acho que hoje eu procuro sempre entender mais de um ponto de vista”, explica.
A partir da história de Caim e Abel, o espetáculo aborda temas como preconceito, injustiça, arbitrariedade e conflitos armados. Para Henri, mesmo que o texto tenha sido escrito em 2009, ele segue atual: “O homem era um visionário. A sacada de se apropriar da personagem Caim, um estigmatizado, para percorrer, observar e comentar as histórias da Criação é genial. E a Teresa buscou no próprio Saramago conectar com os dias de hoje. O texto de Caim é muito mais social e político do que espiritual”.
A adaptação teatral de “Caim” é a única montagem brasileira na programação oficial das comemorações do Centenário de José Saramago. O espetáculo acumula reconhecimentos no meio teatral, com indicações ao Prêmio Cenyr Nacional de Melhor Monólogo e ao Prêmio Shell na categoria Iluminação. A produção conta ainda com o apoio institucional da Fundação José Saramago, sediada em Lisboa.
“Foi uma grande surpresa e uma enorme honra sermos convidados para o Centenário. Fomos o único espetáculo brasileiro a fazer parte das comemorações oficiais. A Fundação sempre nos apoiou, desde o início, quando ainda era um projeto. Nós nos apresentamos lá duas vezes, inclusive no aniversário de morte do Saramago. A Pilar del Río, presidenta da Fundação, já assistiu três vezes e nos convidou para trabalhar em outro texto dele”, conta.
A temporada em Belém conta com recursos de acessibilidade, incluindo uma sessão com tradução em Língua Brasileira de Sinais (Libras) na quinta-feira, 29 de outubro. Após a apresentação dessa mesma data, o ator Henri Pagnoncelli e a dramaturga Teresa Frota participam de uma conversa com o público. Na sexta-feira (30), ao final do monólogo, a programação realiza uma ação educativa ambiental interativa com perguntas e respostas, na qual os participantes são presenteados com mudas de plantas aromáticas.
“Em todos os nossos espetáculos, a nossa preocupação sempre foi manter um diálogo com o público, isso me estimula: conversar, comentar e pensar sobre o que foi visto e dito, o que os espectadores apreenderam, o que ele vai ‘levar para casa’, contar para os amigos. E, por falar em levar para casa, nós vamos fazer uma brincadeira em uma das sessões, um quiz com perguntas sobre Saramago, e quem acertar vai levar uma planta para cultivar. Aliás, já dando spoiler, você sabia que as cinzas de Saramago estão depositadas na frente da Fundação José Saramago, em Lisboa, embaixo de uma linda e enorme oliveira?”, finaliza Henri Pagnoncelli.
Agende-se
Datas: de 27 de outubro a 01 de novembro
Hora: às 19h
Local: Avenida Marechal Hermes, S/N - Armazém 6A - Reduto (complexo Porto Futuro II)
Ingressos: na bilheteria do Teatro CAIXA Cultural ou online pela Bilheteria Digital (www.bilheteriadigital.com/ caixaculturalbelem)

