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PEÇA

‘Fim de Partida’ chega a Belém com ingressos esgotados com Nanini e Weber

Espetáculo dirigido por Rodrigo Portella estreia nesta sexta-feira (6), na Caixa Cultural, com ingressos esgotados

Amanda Martins

6 de novembro de 2026 às 08:00

Marco Nanini e Guilherme Weber interpretam Hamm e Clov, respectivamente, em “Fim de Partida”

Marco Nanini e Guilherme Weber interpretam Hamm e Clov, respectivamente, em “Fim de Partida” ( Foto: Fernando Young )

Em um mundo em ruínas, no qual a humanidade parece ter perdido suas referências, dois homens permanecem presos a uma relação de dependência, conflitos e disputas pelo controle. É nesse cenário que se desenvolve “Fim de Partida”, espetáculo protagonizado por Marco Nanini e Guilherme Weber, que estreia nesta sexta-feira (6), às 19h, na Caixa Cultural Belém, localizada no complexo Porto Futuro II. Com ingressos esgotados para as apresentações na capital paraense, a montagem segue até 15 de novembro, sob direção de Rodrigo Portella, e conta ainda com Helena Ignez e Ary França no elenco.

Relação entre opressor e oprimido

Escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett nos anos 1950, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, a peça apresenta um ambiente pós-apocalíptico a partir da convivência entre Hamm (Marco Nanini) e Clov (Guilherme Weber). Os dois personagens vivem em um espaço fechado e compartilham uma relação atravessada pela dependência física e emocional, pela violência cotidiana e por jogos de poder. Enquanto Hamm não consegue andar e depende de outras pessoas para realizar tarefas, Clov tem dificuldades para se sentar, mas consegue se movimentar e enxergar. A convivência é marcada por ordens, provocações e repetições, em uma espera que parece não ter fim.

Para o ator Guilherme Weber, a relação entre os protagonistas representa uma alegoria do opressor e do oprimido. “Hamm é uma espécie de alegoria do tirano, enquanto Clov é uma espécie de alegoria do povo oprimido. Claro que essas alegorias se misturam em determinados momentos, porque eles encenam jogos de poder. Nem sempre o poder vem de cima para baixo, às vezes vem de outro caminho. Clov tem o poder de enxergar, de se movimentar, e Hamm tem o poder do controle da comida. Então, esse jogo de poder se mistura entre os dois”, afirma.

Os atores voltam a dividir o palco na montagem de Samuel Beckett, que chega a Belém com ingressos esgotados
Os atores voltam a dividir o palco na montagem de Samuel Beckett, que chega a Belém com ingressos esgotados (Fernando Young)

Weber também destaca a consciência de Clov sobre a condição em que vive. Mesmo reconhecendo a prisão e identificando a relação de opressão, o personagem não consegue encontrar meios para romper com aquela realidade. 

“A tragédia do personagem não é a ignorância, mas a lucidez sem poder. Clov pode ver a prisão, pode nomear a prisão, descrever a prisão e, ainda assim, não consegue dar um passo para fora. A alegoria do oprimido se fortalece nesse lugar. Nem sempre o oprimido tem alcance para realizar uma mudança. E isso é uma das maiores fontes de tragédia desse personagem”, explica.

Clássico e os diálogos com o presente

A relação entre os personagens também permite diferentes aproximações com o contexto contemporâneo. Weber relaciona a leitura da montagem ao período posterior à pandemia de Covid-19, à emergência climática e ao avanço do obscurantismo. 

“É uma leitura inevitavelmente atualizada para novas plateias, hoje em um mundo pós-pandemia, de emergência climática e que vê o avanço do obscurantismo. Esses fatos vão fornecendo novas alegorias para a obra. Para mim, pessoalmente, a peça encontrou um lugar muito terrível depois da nossa experiência de isolamento com a pandemia e dessa emergência climática”, afirma.

Reencontro nos palcos

A montagem também marca o reencontro de Nanini e Weber nos palcos. Os atores já dividiram a cena em “Os Solitários” (2002) e “A Morte do Caixeiro Viajante” (2004). Segundo o ator, interpretar “Fim de Partida” ao lado de Nanini era um desejo antigo, especialmente por sua admiração pelo trabalho do colega e pela trajetória construída no teatro.

“Reencontrar o Nanini em cena é sempre melhorar como ator, melhorar como espectador. Tenho que tomar cuidado para não me desconcentrar do meu próprio trabalho e ficar simplesmente assistindo a ele, à aula que dá. Esse encontro dele com esse personagem me é muito caro porque eu sempre imaginei que isso acontecesse e sempre quis fazer esse espetáculo com Nanini”, conta Weber.

Ele também destaca a maturidade artística do parceiro na composição de Hamm, personagem que exige domínio dos recursos de interpretação. “Ele está no auge do seu repertório, da essência do seu trabalho como ator, minimalista e absolutamente titânico. Hamm é um personagem que praticamente representa o ápice do teatro moderno e espera pelos atores atingirem essa maturidade, essa sofisticação. É preciso ter a idade necessária e estar em pleno domínio do próprio repertório”, avalia.

A construção de Hamm

Nanini também apresenta sua própria leitura sobre as características do personagem. Para o ator, o protagonista reúne aspectos que podem ser reconhecidos na experiência humana, como o sarcasmo, o mau humor e as fragilidades. A construção do papel, segundo ele, envolve um processo de investigação que se renova a cada apresentação.

“Tenho para mim que todos somos meio Hamm, com seu sarcasmo, mau humor e também com suas fragilidades. Construir esse personagem é um mergulho profundo nesses estados de espírito. As camadas de Beckett são infinitas, a cada apresentação me deparo com um novo sentimento, uma nova perspectiva”, afirma.

O artista também relaciona a permanência da peça às questões humanas presentes na dramaturgia de Beckett. Para ele, os conflitos e as buscas retratados pelo autor permitem que o texto continue estabelecendo comunicação com diferentes gerações. “Os textos de Beckett falam sobre o ser humano, sobre nossas inadequações e buscas. Por isso, ‘Fim de Partida’ seguirá sempre atual e comunicando. Como no texto: ‘O fim está no começo e mesmo assim continua-se’”, completa.

Serviço:

‘Fim de Partida’, de Samuel Beckett

  • Local: CAIXA Cultural Belém – Av. Marechal Hermes, s/n – Armazém 6A, Reduto (Porto Futuro II), Belém-PA.
  • Dias e horários: sexta e sábado (06 e 07/11) às 19h e domingo, 08/11 às 17h.
  • E quarta-feira a sábado (11 a 14/11) às 19h e domingo, 15/11 às 17h;
  • Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 15 (clientes CAIXA);
  • Informações: (91) 3397-9820.