O que o Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações de fé e cultura popular do mundo, tem a ver com um data center? A pergunta parece reunir universos distantes, mas é justamente desse encontro que nasce a edição 2026 da Ode ao Círio.
Nesta quinta-feira, 8, às 20h, na véspera das grandes procissões de Nossa Senhora de Nazaré, o espetáculo leva às ruas de Belém a discussão sobre a possível instalação de um data center na capital paraense. Com humor, música e personagens do cotidiano, a encenação transforma em teatro uma questão que já começa a fazer parte do futuro da cidade: o que acontece quando uma grande infraestrutura tecnológica chega a um território amazônico que enfrenta desafios de água, energia e desigualdade urbana?
Em “Amazônia Viva: Território-Mãe de Todos os Povos”, o data center sai do universo dos computadores e servidores e encontra o calor de Belém, os canais, as árvores, os bairros e as pessoas. A tecnologia torna-se ponto de partida para discutir como a cidade ocupa seu território, distribui recursos e convive com problemas antigos de infraestrutura.
A peça utiliza a linguagem popular, leve e irônica do teatro de rua para aproximar o público de um tema que pode parecer distante. Quanto de água e energia uma estrutura desse porte exigirá? Onde será instalada? Quais impactos poderá provocar? E como uma cidade marcada por desigualdades receberá uma nova demanda de infraestrutura?
Para o diretor da Ode ao Círio, Alexandre Luz, a questão socioambiental está diretamente ligada à vida urbana.
“Quando falamos de crise socioambiental, não nos referimos somente à floresta, numa dimensão imaginária e, muitas vezes, distante da compreensão de quem vive nos centros urbanos. Mesmo na cidade é possível vivenciar e sofrer os impactos dos desmatamentos urbanos, do racismo ambiental, imposto pelo grande Capital, por meio de políticas ambientais que atendem aos interesses da especulação imobiliária que segrega e ocupa comunidades periféricas”, afirma.
O espetáculo coloca em cena elementos que fazem parte da realidade de Belém, como calor, alagamentos, falta de saneamento, retirada de árvores e diferenças entre bairros. A crise climática, as ondas de calor, o El Niño e a insegurança alimentar também entram na narrativa, aproximando questões ambientais de problemas concretos vividos pela população.
A discussão se amplia ainda para violências como a de gênero e o LGBTcídio. A pergunta passa a ser, portanto, que futuro está sendo construído para a Amazônia e quem terá espaço nele.
Entre a fé e a resistência
A proximidade com o Círio acrescenta outra dimensão ao espetáculo. A procissão reúne milhões de pessoas e mobiliza fé, memória, cultura, identidade e pertencimento. A Ode ao Círio ocupa esse mesmo território com o teatro, não para disputar espaço com a celebração, mas para dialogar com ela.
“A organização social e as estratégias de resistência e luta comunitária também fazem parte desse cenário. E o Círio, como maior manifestação religiosa do mundo, também é alimento do espírito de milhares de pessoas que buscam em sua fé a força para seguir na luta coletiva”, afirma Alexandre Luz.
É nesse encontro entre tradição e futuro que “Amazônia Viva” encontra sua força. De um lado, um data center simboliza um mundo cada vez mais conectado e digital. Do outro, o Círio lembra que há dimensões da cidade que não cabem em uma tela: a rua, a memória, a fé, o território e a comunidade.
Na véspera da procissão, a Ode ao Círio leva essa reflexão para as ruas de Belém: o que uma cidade precisa preservar quando decide construir seu futuro? Afinal, imaginar o futuro também pode ser uma forma de começar a construí-lo.
Serviço
Ode ao Círio 2026 – “Amazônia Viva: Território-Mãe de Todos os Povos”
Dia:8 de outubro de 2026 (quinta-feira)
Hora: 20h
Local: Em frente à sede da UNIPOP — Av. Senador Lemos, 557, Umarizal, Belém (PA)
Classificação: livre
Ficha técnica
Roteiro: Alexandre Luz / GTU Texto: GTU / Elenco Cenografia e adereços: Eryton, Walter do Carmo, Adiel, Andervan, Bonelly, Dora, Fernando, Gabriel, João, Joice, Juliana, July, Klauber, Lucas, Letícia, Marcos, Michel, Nete, Thiago, Vanda, Vinicius, Vitória, Wander e Wanessa. Figurino: Bonelly Pignatário, Dora Alves e Nete Pamplona Máscaras: Rose La Roque e Bonelly Pignatário Músicas: Pauer Martins, Rogério Silva, Carlos Henrique, Lucas Farias e Jesus Gonçalves Sonoplastia: Wanessa Grigoletto Iluminação: Vanda Lopes Coordenação, produção e direção geral: Alexandre Luz Arte do card oficial: @ellayne_larissa
