O que é preciso fazer para transformar uma história em livro? A pergunta acompanha quem sonha em publicar o primeiro original e descobrir como funciona o mercado editorial. No Pará, escritores com diferentes trajetórias conhecem os caminhos, as dificuldades e as possibilidades de levar suas obras ao público.
Celebrado nesta quinta-feira (29), o Dia Nacional do Livro é uma oportunidade para conhecer os bastidores desse processo, desde a preparação dos textos até a busca por editoras e leitores.
Vencer o medo e começar
A jornalista e escritora Iaci Gomes, autora de “Visagentas”, “Nem te Conto” e “Carne para Urubus”, escreve desde a infância. Antes de publicar, porém, precisou superar a insegurança em relação ao próprio trabalho.
“Acho que o primeiro ‘inimigo’ fui eu mesma e os meus medos em relação ao material, que estavam mais conectados ao medo da opinião alheia. Fui fazendo experimentações nas redes sociais até ganhar confiança no meu material e decidir que eles estavam prontos para virar um livro”, conta.
Para quem deseja publicar pela primeira vez, Iaci recomenda pesquisar as modalidades disponíveis, procurar editoras que recebam originais e não desistir diante de uma recusa. A autopublicação digital também pode ser uma alternativa.
“Meu conselho é: publique. A sua história vai encontrar o público dela. É um mercado difícil, mas você só vai saber o quanto sua história pode alcançar a mente e o coração das pessoas se tentar”, afirma.
Literatura paraense busca espaço
A escritora também chama atenção para as barreiras enfrentadas por autores do Norte e do Nordeste, frequentemente associados à chamada “literatura regional”.
“Nomes como Monique Malcher, Edyr Augusto, Giu Murakami, Tanto Tupiassu, entre outros, têm encontrado formas de ultrapassar essas barreiras e levar a cultura literária que produzimos aqui para o país. Acredito que tem acontecido um movimento de mudança e abertura desses mercados para o que vem de outras regiões. Quando autores e autoras que produzem da Amazônia ocupam as prateleiras nacionais, todos nós ganhamos”, acrescenta.

A escritora Giu Yukari Murakami, neta de imigrantes japoneses, mistura referências amazônicas e japonesas em obras de fantasia e ficção científica. Seus contos já foram publicados em inglês e japonês. Em 2023, “Nas bordas de quem eu sou” foi exposto no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e, em 2025, “Pelas mãos de batchan” ganhou adaptação audiovisual por meio de edital do Sesc RJ.
Giu explica que suas histórias partem da própria vivência cultural e permitem abordar questões da realidade por meio da ficção. Para escrever sobre Belém e a imigração japonesa no Pará, especialmente em Tomé-Açu, ela também recorre à pesquisa histórica.
Distribuição e divulgação são desafios
Entre os desafios para publicar, a autora aponta a distribuição dos livros e o acesso a agentes literários, muitos concentrados em eventos no Sudeste. Para contornar esses obstáculos, acompanha editoras, agências e escritores pelas redes sociais, além de procurar editais e seleções nacionais.
“Considerando que o mercado editorial tem muitas autorias e poucos agentes literários no Brasil, muitos autores optam por publicações independentes, começando pela Amazon, por exemplo. Tenho contos publicados na Amazon e em plataformas gratuitas como o Wattpad, que ajudam na divulgação das histórias”, diz.
Giu sugere que os escritores busquem leitores beta, que avaliam os textos antes da publicação, e considerem serviços de leitura crítica ou mentoria literária. Segundo ela, as avaliações ajudam a aprimorar a escrita e amadurecer o original.
“Essa iniciativa te ajuda a controlar a ansiedade porque consegues ver que não estás sozinho no processo, além de permitir que cresça sua técnica de escrita, amadureça sua história e tenha outras opiniões que poderão tornar seu manuscrito ainda melhor”, aconselha.
Publicar não garante chegar aos leitores
Com mais de 50 livros publicados e uma trajetória de 26 anos, o escritor Airton Souza conhece diferentes etapas do mercado editorial. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Federal do Pará, ele é autor de “O Mar é Longe” e venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2023, na categoria Romance, com “Outono de Carne Estranha”.

Apesar do reconhecimento, Airton aponta um desafio que permanece: fazer as obras circularem. Segundo ele, a publicação se tornou mais acessível com editoras independentes, tiragens menores, editais e prêmios, mas isso não garantiu que os livros chegassem aos leitores.
“O nosso grande desafio continua sendo fazer com que as nossas literaturas sejam lidas. Testemunhei, ao longo desses 26 anos, a publicação ficar cada vez mais fácil, mas isso não significou ser lido”, afirma.
Morador de Marabá, Airton cita a própria experiência como exemplo. Apesar de ter publicado dezenas de livros, a prefeitura do município nunca adquiriu exemplares de suas obras, segundo ele.
Políticas públicas para incentivar a leitura
Para o escritor, a circulação literária depende de políticas públicas permanentes, com aquisição de livros, apoio à publicação, feiras e festas literárias, residências para escritores e bibliotecas em funcionamento. Ele cita o Prêmio Dalcídio Jurandir, criado pela Imprensa Oficial do Estado do Pará para premiar e publicar obras de autores de diferentes regiões, mas que teve apenas uma edição.
Airton defende a criação de um circuito literário, a compra de obras produzidas no estado para ampliar o acesso dos leitores e a abertura de editais públicos para financiar a publicação de livros.
“É importante promover saraus, feiras e festas literárias em todas as regiões do estado, reabrir bibliotecas municipais que foram fechadas e criar residências literárias. Esses seriam alguns pontos de partida para iniciarmos um projeto mais efetivo de um estado de leitores e leitoras”, afirma.
