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DRAG, O QUÊ?

Drag nas quadrilhas juninas: cultura popular e representatividade no ‘São João’

A participação das performances, principalmente das Drags neste período de São João, é muito intensa e há quadrilhas que são compostas apenas por pessoas LGBTQIAPN+ e artistas da arte Drag

Ellen Moon D'arc

30 de junho de 2023 às 15:50

"Arraial de todos os Santos", na praça principal do Centur, é comandada pelo biólogo, professor e artista Adriano Penha Furtado, que performar a Drag Themônia Xirley Tão e apresenta quadrilhas desde 2018.

"Arraial de todos os Santos", na praça principal do Centur, é comandada pelo biólogo, professor e artista Adriano Penha Furtado, que performar a Drag Themônia Xirley Tão e apresenta quadrilhas desde 2018. ( Foto: Filipe Bispo / Arquivo O Libera. )

Avançando a parte histórica em que a quadra Junina surgiu no contexto da igreja católica, na idade média, quando as datas celebravam um santo para substituir o ritual dos deuses pagãos, o período se tornou uma celebração da cultura popular e que incorpora novos elementos. A participação das performances, principalmente das Drags neste período, é muito intensa e há quadrilhas que são compostas apenas por pessoas LGBTQIAPN+ e artistas da arte Drag.

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Em Belém, a apresentação das quadrilhas juninas que vêm de diversos municípios paraenses e ocorrem no "Arraial de todos os Santos", na praça principal do Centur, é comandada pelo biólogo, professor e artista Adriano Penha Furtado, que performar a Drag Themônia Xirley Tão e apresenta quadrilhas desde 2018. "Recebi o convite por telefone e lembro que até duvidei. Eu que fiz a proposta de levar a Xirley Tão para o dia do concurso das misses da diversidade. Toparam. Apresentei novamente o concurso em 2019, passei uns anos sem apresentar e voltei agora", começou.

O que iniciou como uma sugestão, rapidamente se tornou uma solicitação, contou Xirley. A apresentação das Misses da Diversidade ocorreu na quarta-feira, 28, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ "Desta vez o convite para ser apresentador já veio com uma condição: que a Xirley Tão viesse no dia do concurso das misses da diversidade. Eu achei o máximo, pois na primeira vez, ninguém nem sabia que ela existia. Agora foi quase um 'pelo amor de Deus' (risos). Lógico que topei. Ainda estou em êxtase com tudo o que aconteceu. Eu tenho 28 anos de teatro, e destes, 12 são com a Xirley Tão. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira", destacou.

Questionada sobre a representatividade no São João e na cultura popular, Tão afirmou que a arte Drag e os artistas da performance estão inseridos neste movimento há mais tempo do que se imagina. "Drag é arte na sua essência. É arte, cultura popular, costura, bordado, brilho, babado, colorido. E onde tem tudo isso? Nas festas de São João. Sempre estivemos juntos. Não fui a primeira em Belém a ser apresentadora, outras já foram e com muito talento, mas hoje estou aqui. Nós, fazedores das artes LGBTQIAPN+, sempre estivemos nas manifestações populares. Somos nós que estamos criando coreografia, bordando, desenhando e sempre ocupamos esses espaços", disse.

Xirley destaca que o concurso foi o maior dos últimos anos, 40 candidatas participaram. O período só reforça que a participação dos corpos LGBTQIAPN+ são importantes para a mudança de comportamento. "Aqui em Belém sempre tivemos 'quadrilhas malucas', que trazem para a comicidade e a inversão de gêneros através da inversão dos figurinos tradicionais das quadrilhas. No entanto, por muitos anos, essas quadrilhas eram feitas por pessoas heterossexuais que ridicularizavam as pessoas LGBTQIAPN+", lembrou.

"Não havia a intenção de valorizar cultura ou reivindicar espaços, era só para provocar risos através do escárnio de corpos já marginalizados. Nada engraçado. Hoje, nós ainda vemos quadrilhas engraçadas e até com concurso específico, mas agora o discurso é outro. As quadrilhas cômicas trazem abertamente o orgulho e o discurso de ocupação de espaços, fazendo o cômico através de seus próprios corpos e suas histórias. Agora a coisa mudou muito", finalizou.

Valentina nasceu nas quadrilhas juninas. Na foto, Vallentina performa no evento NoiteSuja Drag Brunch.
Valentina nasceu nas quadrilhas juninas. Na foto, Vallentina performa no evento NoiteSuja Drag Brunch. (Reprodução / Allyster Fagundes)

Drag no close junino

Nem toda Drag nasce em um palco, pesquisa ou oficina de performance e montação, cada uma delas tem seus próprios processos artísticos. Vallentina nasceu dentro da quadrilha junina e seu nome veio da ideia - e brincadeira com os nome populares da época Enzo/Valentina - do performer que dá vida à ela, Enzo Gabriel, acadêmico em Produção Cênica e Figurino Cênico pela Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA). "Comecei a me montar para participar de espetáculos teatrais, pelo ano de 2018, mas foi em 2019 que oficialmente me entendi como Drag. Dei vida à Vallentina dentro das quadrilhas cômicas, onde nos dias atuais entrego em minhas performances comicidade e teatralidade. Também, sou integrante da Haus of Pirexx 'Quer um café'", contou.

Para Vallentina iniciar em quadrilhas juninas de representatividade e perceber que neste movimento há outras pessoas celebrando as suas vivências, fortalece a cena e cria novas memórias. “Já passei por dois grupos juninos, iniciei na quadrilha ‘Close Junino’ e ‘Sem Recalque’, onde agora também faço parte da direção… É justamente por existir outras Themônias como eu – que nasceram dentro do São João – que trazem em suas performances essa memória, paixão pelo São João. Já é um processo  que vem se intensificando nos dias atuais. Vejo como diretoras de quadrilhas Mulheres Trans, Drags.... Esse gostar do fazer arte e, de querer mostrar a sua arte nem que seja dentro desse mês, é importante”, observou.

Além do Centur, Vallentina já se apresentou em outros lugares e reforça a importância desta visibilidade. Ela também destacou como funciona a preparação, que é repleta de desafios. “Nosso processo de ensaio, é planejamento de um espetáculo mesmo, vem desde a escolha da temática, músicas, até o processo coreográfico. Já nos apresentamos em diversos lugares, os mais populares para o nosso meio, são as festas de aparelhagem nos bairros. Mas também, já levamos nossa arte para o Centur, onde foi uma das maiores conquistas para as quadrilhas cômicas em geral. Até mesmo, por não ser tão fácil de ter acesso a esses lugares. E Saliento aqui, que dêem mais visibilidades para as quadrilhas cômicas, de forma que possamos levar nossa arte e trabalho para além de nossos bairros”, sugeriu.

Para acompanhar Xirley Tão e Vallentina é só segui-la no Instagram @xirleytao @iamvallentina_. A iniciativa da coluna "Drag, o quê?", é do Grupo Liberal com Ellen Moon D'arc e tem o apoio do Coletivo NoiteSuja. Para ficar por dentro de outros conteúdos ou sugerir pautas, é só seguir no Instagram @dragdelua.