Impossível se pensar na Amazônia sem se falar ou se observar os seus rios com barcos singrando pelas águas praticamente a todo instante. Os rios são as ruas da região, que tem a maior bacia hidrográfica da Terra, pela qual circulam canoas, rabetas, barquinhos e tantas outras embarcações com suas estruturas peculiares, indissociáveis da vida nesse bioma, formado pela maior floresta tropical do mundo. Essa relação anfíbia dos amazônidas com os barcos e com as águas é retratada de forma sensível e intensa pelo artista visual e designer paraense Nio Dias, 63 anos, na exposição “Coleção Estaleiro’. A mostra traz um mobiliário cultural e ecológico inspirado na cultura popular naval amazônica, fruto da interação entre as artes visuais e o design, e será aberta às 19h desta sexta-feira (5), na Sala Ruy Meira da Casa das Artes, no centro de Belém.
Irmão da artista visual Nina Matos (curadora de “Coleção Estaleiro", Nio Dias é bastante conhecido na cena artística paraense. Como ele conta, esse conjunto de trabalhos artísticos configura-se “como uma coleção de móveis cuja referência conceitual é o universo da carpintaria naval ribeirinha, paraense e amazônica, a valorização do fazer artesanal, a visualidade evidenciada nas cores, e a pretensão do deslocamento desse universo ribeirinho, navegável, para o ambiente doméstico”.
“A ‘Coleção Estaleiro’ vem somar, no sentido do reconhecimento dos saberes de mestres carpinteiros e na valorização cultural”, enfatiza Nio. Esse projeto foi premiado no Edital de Fomento à Criação de Projetos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) - área Design - Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult).
Universos
A “Coleção Estaleiro” é a concretização de uma ideia de algum tempo por parte de Nio, das vivências dele pelos estaleiros de Abaetetuba, onde esse artista nasceu e aprendeu a nadar e passou a andar de barco. “A lógica da carpintaria naval com madeira é um tanto diversa da marcenaria, na qual a maioria dos ângulos são retos. Então, esse universo que acontece ali na beira do rio me impressionou bastante, somado à vivência na movelaria do meu pai, que era marceneiro e criava também”, diz Nio.
“Esta proposta, então, é a revisão desses rascunhos e a proposição de novos modelos, no sentido de trazer para o universo doméstico, adaptada à ergonomia humana, elementos típicos das embarcações”, destaca o artista e designer.
A exposição reúne sete peças. São elas: “Poltrona Batelão”, “Banqueta Montaria”, “Mesa de Centro Canoa”, “Mesa de Centro Escotilha”, “Mesa de Jantar Leme”, “Cabideiro Mastro” e “Banco Popôquinho”. Essas peças foram confeccionadas em quatro meses de trabalho duro.
O bacharelado em Design de Produto por parte de Nio Dias se deu em 2015, porém há mais tempo ele desenvolve e executa projetos de mobiliário, muitos sob encomenda, junto com a atuação como artista visual, que é do final dos anos 1980. Em 1988, Nio começou a participar de exposições coletivas e salões, inclusive, o Arte Pará, do Grupo Liberal.
Par Nio Dias, a “Coleção Estaleiro” traz ao público “o diálogo indissociável, no meu trabalho, entre arte e design, sendo este uma derivação daquela; a valorização do saber ancestral, passado de geração a geração, cultivado nos estaleiros ribeirinhos amazônicos, e a proposição de um design que se nutre desse universo”.
Serviço:
Abertura da mostra ‘Coleção Estaleiro’,
de Nio Dias
Em 6 de novembro de 2026, às 19h,
na Sala Ruy Meira da Casa das Artes,
na rua Dom Alberto Gaudêncio Ramos, 236,
em Nazaré, Belém (PA)
