Entre a corda, o manto e o carimbó, o carnavalesco Milton Cunha reconhece no Círio de Nazaré uma manifestação que reúne fé e cultura paraense. Ao se despedir de Belém após participar da programação nazarena, o paraense conversou com o Grupo Liberal sobre sua relação com a cidade natal e a emoção ao acompanhar os promesseiros.
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Há mais de 40 anos morando fora da capital paraense, Milton se mudou para o Rio de Janeiro em 1982, aos 19 anos. Foi lá que construiu a carreira ligada ao Carnaval, mas mantém a ligação com o Pará e retorna sempre que pode.
Neste Círio, foi um dos convidados da Varanda de Nazaré, projeto idealizado pela cantora Fafá de Belém, a quem chama de “irmã”. Há cinco anos, participa da iniciativa apresentando a TV Varanda.
A agenda na cidade incluiu o Arrastão do Círio, ao lado do Arraial do Pavulagem e do Batalhão da Estrela, além do Círio Fluvial, da Festa da Chiquita e da Grande Procissão.
A emoção diante dos promesseiros
“O que mais me emociona é o olhar das pessoas”, afirmou, referindo-se aos promesseiros que caminham descalços, seguram a corda com as mãos marcadas pelo esforço e carregam objetos que representam pedidos e agradecimentos, como peças de cera, maquetes e tijolos.
Para o carnavalesco, a caminhada reúne pessoas de diferentes origens e condições sociais em torno da mesma devoção.
“É muito legal ver o povo deixar de lado suas diferenças, o doutor, o ribeirinho, o jovem e o idoso e diversas outras camadas viram uma coisa só sob o manto da Virgem de Nazaré. É um espetáculo de humanidade, de solidariedade pura”, disse.
A relação com o Círio também passa pela maneira como a manifestação articula fé e cultura. Milton compara a celebração à festa que marca sua trajetória profissional, mas destaca diferenças entre as duas manifestações.
“A grande diferença é que no Carnaval a gente se veste, coloca a fantasia, o brilho. No Círio a gente se despede de todas as armaduras. É uma festa onde não existe camarote, não existe jurado, é a beleza da fé e manifestação brasileira”, afirmou.
Para ele, a programação reúne oração e promessa, mas também o encontro das famílias e o almoço depois da procissão. “O Círio une o sagrado e o profano de um jeito que eu não vejo em nenhum outro lugar do mundo”, acrescentou.
Entre os momentos que acompanha, a apresentação do Manto e a saída da Imagem Peregrina estão entre os mais marcantes. Milton observa a criação que envolve a imagem como uma combinação de trabalho artístico e significado religioso.
“Ver aquela obra de arte têxtil envolver a Santinha é de uma delicadeza, de um apuro estético e espiritual que me deixa sem palavras. Ali a gente vê a alta costura da fé popular”, declarou.
Terra natal
A experiência deste ano também foi marcada pelo reconhecimento do público. Para Milton, receber carinho em Belém tem significado particular por se tratar do lugar onde nasceu e cresceu.
“Nunca me desliguei das minhas raízes, levei o Pará comigo em cada projeto, no Carnaval, no meio acadêmico e na televisão. Ser reconhecido com tanto afeto pela minha terra é uma bênção”, afirmou.
“É muito legal saber que aquele menino que saiu de casa levando sonhos hoje consegue retribuir e homenagear a riqueza da nossa cultura para o Brasil inteiro”, acrescentou.

