Às vésperas do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a festa maior dos paraenses, o 32º Auto do Círio, programa de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA) aproveita a noite desta sexta-feira (9) para alertar para a necessidade de preservação do patrimônio cultural, histórico, artístico e arquitetônico da Amazônia.
Esse brado toma forma como cortejo de artistas em performances variadas em diversas linguagens artísticas que acaba de sair pelas ruas do bairro histórico da Cidade Velha, onde nasceu a Cidade de Belém em 1616. Sob a coordenação da Escola de Teatro e Dança da UFPA (Etdufpa), o cortejo partiu da Praça do Carmo, após apresentação de atrações culturais para uma multidão de pessoas naquele espaço cultural.
O tradicional banho de cheiro marcou a preparação para a saída do 32º Auto do Círio. O ritual, associado à purificação, à bênção e à abertura de caminhos, antecedeu o começo de um dos cortejos artísticos que integram a programação cultural anterior ao Círio de Nazaré. Antes da saída, o público também acompanhou apresentações de Pássaro Junino e da Comunidade Cigana.
Patrimônio e Fé
O Auto traz à sociedade o tema “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”. Este ano, o Auto do Círio presta homenagem à atriz Dira Paes, embaixadora do evento, e à professora, atriz e ativista social Zélia Amador de Deus, que faleceu aos 76 anos de idade em 8 de setembro deste ano.
O Auto do Círio foi programado para começar logo após uma missa celebrada na Igreja do Carmo. A diretora-geral do Auto do Círio, professora Inês Ribeiro, relatou a emoção de realizar mais um Auto do Círio, com uma grande homenagem à Zélia Amador de Deus.
"A expectativa é de muita participação, de vários grupos da comunidade, muita integração, de festejar e de iniciar a Festa Nazarena, nossa Festividade Nazarena. Então, que a gente consiga, principalmente, passar para a comunidade o tema deste ano, que é 'Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé'", destacou Inês Ribeiro antes da saída do cortejo.
"A expectativa é da transformação, a expectativa é da defesa dos nossos patrimônios da Amazônia e da nossa fé também, né, para não ser fragilizada, para não ser corrompida. Então é nesse sentido que nós, do Auto do Círio, né, e eu estou emocionada em fazer mais essa homenagem para Nossa Senhora de Nazaré", afirmou Inês.
O Auto foca no sentido do termo religião, "que significa religar, religar a dança, o teatro, a música, artistas da cultura popular, pensar o nosso patrimônio material e imaterial". "Então, a responsabilidade é enorme porque cada vez mais o Auto do Círio traz muita gente, artistas, não artistas. É muito trabalho, mas a arte do Auto do Círio é uma arte pública, é uma arte democrática, é de graça, qualquer pessoa pode participar. Temos desde pessoas que estão em situação de rua e participam dos nossos ensaios. Nós temos senhoras que vêm de fora assim, grupos culturais", assinala a professora da Etdufpa, Inês Ribeiro, pontuando que o objetivo do evento é atingir a missão da extensão universitária, que "é a universidade cada vez mais se integrar com a comunidade".
Ela destacou a homenagem à primeira vice-reitora da UFPA e uma líder contra o racismo na Amazônia, professora Zélia Amador de Deus. "Eu aprendo muito e aprendi muito com Zélia. Zélia pensou o Auto do Círio também no sentido de defender a Cidade Velha e a Campina. Tanto que, antes do Auto, não existia o projeto Feliz Cidade. Então, o Auto promove também uma defesa do patrimônio dentro da Cidade Velha e da Campina. E hoje vamos homenagear Zélia, essa mulher de luta, de resistência, por vários movimentos. Vai ser Zélia presente e salve Zélia durante o cortejo!".

Cultura e arte
O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, participa do Auto do Círio 2026. "Este projeto que já tem mais de 15 anos e é um símbolo dos nossos projetos de extensão. Porque ele é a cultura, a arte, a música popular, com a religiosidade popular que é tão importante aqui na Amazônia. O Círio, que, com certeza, é a festa católica mais importante do Brasil. E, combinando com isso, a gente dialoga com toda a nossa cultura, portanto, é uma combinação de cultura e arte".
Gilmar Pereira pronunciou-se acerca da homenagem à Zélia Amador de Deus. "Zélia, sem dúvida, é uma figura importante. Eu considero a mais importante da nossa universidade, e homenageá-la é homenagear o povo, a cultura popular e fortalecer o Auto do Círio", enfatizou o reitor da UFPA.

