Muito além da fé, o Círio de Nazaré reúne referências que fazem parte da identidade paraense. Miriti, maniçoba, arraial, procissões e outros elementos do cotidiano amazônico atravessam a celebração e chegam às telas, camisas, canecas e outros produtos pelas mãos de artistas que transformam essas referências em criação. É o caso de Julia Leão e Renata Segtowick, ilustradoras que há anos incorporam o Círio às suas produções.
Designer e artista, Julia Leão, 39 anos, trabalha com arte digital e, há mais de 15 anos, cria ilustrações inspiradas no Círio para estampar camisas, canecas, ventarolas e outros produtos. Quando começou a atuar nesse segmento, era mais comum encontrar fotografias estampadas em camisetas relacionadas à festa. Julia fazia parte de uma nova geração de artistas que apostavam em ilustrações autorais para representar o Círio. Desde então, ampliou seu repertório e passou a explorar diferentes formas de traduzir a festa em sua arte.
Nossa Senhora foi uma das primeiras referências em seu trabalho. Com o tempo, porém, Julia passou a olhar também para outros elementos que ajudam a contar a história da celebração e da cultura paraense. Miriti, maniçoba, o Arraial do Pavulagem, as procissões e cenas do cotidiano amazônico passaram a fazer parte de suas criações.
“Para mim, o essencial do Círio é a união das pessoas. É todo mundo junto, vivendo aquele momento, independentemente de onde veio, da sua história ou da forma como vive a sua fé. A gente se torna pequeno. É algo inexplicável”, conta.
É justamente essa dimensão coletiva que orientou seu processo criativo para a campanha da Vale deste ano, que tem como conceito “Essencial é viver o Círio em cada detalhe”. Para Julia, representar a festa vai muito além de reunir símbolos conhecidos. “Eu quis trazer elementos que fazem parte da identidade do Círio e do Pará, mas também essa sensação de estar junto, de pertencer a alguma coisa maior. Porque o Círio tem isso: ele aproxima as pessoas.”
Entre os momentos que mais gosta de acompanhar está a Trasladação. “A temperatura é boa, as luzes deixam tudo bonito, e eu me emociono”, diz. Para ela, são essas experiências, que misturam memória, fé, cultura e encontro, que ajudam a explicar por que o Círio ocupa um lugar tão especial na identidade paraense.
Essa relação entre memória, cultura e fé também está presente no trabalho de Renata Segtowick, que há anos transforma diferentes aspectos do Círio em arte. Nascida e criada em Belém, Renata Segtowick, 53 anos, também tem uma relação de longa data com o Círio. Designer e artista visual, desenvolve ilustrações, murais e obras de fine art, explorando temas ligados ao feminino, à cultura e ao sagrado a partir de suas referências luso-amazônidas. Há cerca de 15 anos, produz anualmente uma obra inspirada na celebração.
A cada edição, Renata busca uma abordagem diferente, explorando características que revelam a dimensão cultural do Círio. “Muitos elementos permeiam o Círio, como o miriti, a Festa da Chiquita e o Auto do Círio. Sempre existe um item novo para abordar”, conta.
Neste ano, a inspiração partiu de uma imagem de Stella Maris, representação de Nossa Senhora associada à proteção de quem navega pelo mar, que ganhou, em sua releitura, referências amazônicas e paraenses.
Renata conta que sua relação com o Círio vem desde a infância. “O Círio mexe muito comigo. Tem muita energia boa, as famílias se unem, há fartura na mesa e muito amor. Para quem acompanha o Círio, é realmente muito emocionante. Só vivendo para sentir”, conclui.
