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O Liberal 80 anos

CULTURA

Arte Pará 2026 celebra os sentidos criativos da cultura amazônica

Mostra com obras de 25 artistas do Pará será aberta em 5 de novembro no MEP, por iniciativa do Grupo Liberal

Eduardo Rocha

13 de outubro de 2026 às 08:30

Arte Pará 2026: mostra reunirá trabalhos criativos comos os de Jô Santo

Arte Pará 2026: mostra reunirá trabalhos criativos comos os de Jô Santo ( Foto: Foto: Divulgação )

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é o grande momento da religiosidade do povo paraense, justamente por reunir mais de 2 milhões de pessoas nas ruas de Belém e, em especial, expressar nuances da cultura de quem vive na Amazônia. Nuances essas que envolvem  símbolos, impressões, propostas sobre temas e territórios relacionados ao bioma em que se vive, a serem  reveladas ao público, em breve, por meio de trabalhos de artistas regionais no Arte Pará 2026. Agendada para ser aberta em 5 de novembro próximo no Museu do Estado do Pará (MEP), no centro histórico de Belém, a mostra é uma iniciativa do Grupo Liberal e, em 2026, chega a sua 42ª edição com a exposição de obras de 25 artistas do Estado do Pará.

Este ano, a abertura do Arte Pará vai se dar no começo de novembro, diferentemente dos anos anteriores, em outubro, para se inserir nas comemorações de 80 anos de história do Jornal O Liberal, a transcorrer em 15 de novembro do penúltimo mês de 2026. O Arte Pará tem contribuído com o processo de valorização e divulgação da arte contemporânea paraense, e este foi justamente o propósito de criação desse evento cultural e artístico por parte do casal Romulo e Déa Maiorana, dirigentes do Grupo Liberal. Romulo Maiorana (1922-1986) e Déa Maiorana (1934-2026) concretizaram esse projeto em 1982, tornando real esse espaço catalisador da produção artística em solo paraense.

Desse modo, em 2026, o Arte Pará conta com a curadoria da artista visual Keyla Sobral. O projeto é viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e tem o patrocínio da Phebo, da Vale e da Equatorial Energia. A programação da mostra envolve a exposição das obras dos artistas e um projeto educativo que abrange, entre outras atividades, visitas monitoradas, inclusive de caravanas de estudantes, ao evento no Museu do Estado. O Arte Pará 2026 tem como homenageada a artista Carmen Sousa, uma pioneira das artes visuais em Belém, que terá uma Sala para seus trabalhos.

Os 25 artistas selecionados para o Arte Pará 2026 são: Alessandro Falco, Ana Mendes, Bruno Cantuária, Caio Paixão, Carol Abreu, Dias Jr, Diego Azevedo, Emily Guimarães, Felipe Ferreira, Flori Jacamo Hurtado, Itatiane Moraes, Jô Santo, Lucia Gomes, Luciana Lemos, Maria José Batista, Mauro Joaquim Lima, Matheus Bento, Matheus Duarte, Maurileno Sanches, Nay Jinknss, Petcho Silveira, Renee Miranda, Samir Dams, Nazas e Val Sampaio. 

“Estamos na reta final de preparativos para  a abertura do Arte Pará 2026, que este ano ocorrerá de forma especial em novembro, celebrando os 80 anos do Jornal O Liberal. Contamos com a parceria dos nossos patrocinadores e do Museu da UFPA, que vai ceder obras da artista Carmen Sousa, grande homenageada do evento, e a parceria do Museu do Estado do Pará, que funcionará como sede do Arte Pará em 2026”, destaca Sérgio Oliveira, diretor de Mercado Leitor do Grupo Liberal e coordenador do Arte Pará 2026.

Já a curadora Keyla Sobral ressalta o acesso do público à produção artística na mostra. “O público vai encontrar um Arte Pará plural, diverso e muito conectado com o presente. São 25 artistas com diferentes trajetórias, linguagens e modos de pensar a arte, reunidos em uma exposição que procura revelar a força e a complexidade da produção artística contemporânea na Amazônia. Teremos também uma sala dedicada a Carmen Sousa, com curadoria de Marisa Mokarzel e Rosangela Britto, criando um diálogo entre memória e contemporaneidade. Mais do que oferecer respostas, queremos que a exposição provoque perguntas, encontros e novas formas de olhar para o lugar onde estamos”, pontua.

Resguardar-se na arte

Entre os artistas na mostra está Jô Santo. Cria do bairro do Jurunas, em Belém, aos 35 anos, a artista visual Jô Santo estreia no Arte Pará. Ao ingressar no curso de Artes Visuais na UFPA, em 2019, ela passou a atuar em projetos e pesquisas com abordagens afetivas, afirmativas, antirracistas, antissexistas e não hegemônicas na Amazônia. “Desde então, venho construindo uma trajetória tanto no campo da educação quanto nas artes visuais, transitando por diferentes linguagens e possibilidades de criação”, conta Jô.

Como revela a artista, a sua produção “tem como tema central  ‘a produção visual e cultural a partir do afeto e da memória, partindo assim da  transformação da memória afetiva em imagem’, e, para isso, transito em diversas linguagens”. “Primeiramente, perpassando pela fotografia e ilustração digital, e, em seguida, esse exercício se desdobra também em pintura, gravura, design e audiovisual”, acrescenta.

Jô diz que “essas memórias afetivas atravessam a Amazônia cotidiana, o modo de viver, as relações, sons, imagens, cores, etc”. “Um exemplo é o recorte da série  ‘Como é  bom ser Brega’, selecionada no Arte Pará 2026. A proposta parte do dia a dia, desde a dança no Baile da Saudade até o som de casa tocando um brega marcante no dia de domingo. Contudo, vai além de ser somente a representação de um gênero musical; é  uma manifestação de pertencimento sociocultural”, destaca.

O que motiva essa artista a manter-se criando é justamente a possibilidade de resguardar memórias por meio da arte. “Costumo dizer que a memória é minha matéria-prima de criação. É a partir dela que construo imagens, revisito experiências e transformo aquilo que é vivido individual e coletivamente em produção artística”, completa.

Diário visual

Com 10 anos de trajetória artística, o belenense Felipe Ferreira, 29 anos, iniciou essa caminhada ainda  na graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Pará.  Felipe não vê a hora de concretizar a sua primeira participação no Arte Pará. 

“Produzo principalmente pinturas, tendo o óleo sobre tela e, especialmente, sobre juta como principais suportes. Minha pesquisa parte da paisagem e da experiência cotidiana para investigar a memória e suas imagens, muitas vezes incertas, fragmentadas e próximas do irreal”, diz.

Público poderá conferir pinturas, como as de Felipe Ferreira, no Arte Pará 2026 no MEP
Público poderá conferir pinturas, como as de Felipe Ferreira, no Arte Pará 2026 no MEP (Foto: Divulgação)

“Interesso-me pela maneira como lembranças se transformam ao longo do tempo, misturando experiências vividas, imaginação e invenção. Temas como infância, paisagem natural e construída, passagem do tempo, luz, céu e noite aparecem como elementos recorrentes para explorar sensações e estados subjetivos”, assinala o artista plástico.

Felipe detalha o seu processo criativo, destacando que a pintura é a sua principal linguagem artística. “Meu interesse está tanto na construção da imagem quanto na materialidade da obra. Desenvolvo pesquisas sobre preparação de suportes, tecidos, madeiras, texturas e diferentes formas de aplicação da tinta, buscando criar uma relação entre matéria e imagem. Dessa forma, minhas pinturas se aproximam de uma espécie de diário visual, em que a paisagem funciona como ponto de partida para acessar imagens da memória que transitam entre o vivido, o imaginado e aquilo que já não é possível distinguir como real”.

Felipe diz que a arte ocupa hoje um lugar central na sua vida. Há cinco anos, deixou de atuar como arquiteto para se dedicar integralmente à pintura , aprofundando sua pesquisa artística. “A pintura se tornou não apenas minha principal linguagem, mas também uma forma de compreender a mim mesmo, organizar experiências e dar forma a pensamentos e sensações que nem sempre encontram espaço na vida cotidiana”.

É por meio da pintura que Felipe Ferreira encontra uma maneira de acessar memórias adormecidas, muitas vezes fragmentadas e incertas, e de reconstruí-las a partir do presente. “Pintar é uma forma de transitar entre aquilo que vivi, aquilo que lembro e aquilo que poderia ter vivido, criando imagens que habitam esse espaço entre a realidade e o irreal”, arremata.

Descobertas

Estreante também no Arte Pará, a artista visual belenense Renee Miranda, 45 anos, tem uma trajetória nas artes desde 2024 e conta que ultimamente tem pesquisado sobre ancestralidade, memória, território e os modos como saberes e experiências são transmitidos entre gerações. 

“Muitas dessas questões partem da minha própria experiência e das relações familiares, mas vão se ampliando para pensar aquilo que permanece, aquilo que é transmitido e também aquilo que se perde ou se transforma com o tempo”, explica Renee.

Os trabalhos de Renee costumam surgir de uma pergunta, de uma lembrança, de uma imagem ou de alguma coisa que ela encontra no percurso. As trocas, leituras e provocações dos grupos de estudos dos quais participa também acabam deslocando essas questões e abrindo outras possibilidades de investigação. 

Arte Pará 2026 receberá a vivência artística  de Renee Miranda
Arte Pará 2026 receberá a vivência artística de Renee Miranda (Foto: Divulgação)

“A fotografia é a linguagem central da minha prática, mas não penso nela de forma isolada. A pesquisa pode se desdobrar em videoperformance, instalação, colagem analógica, escrita assêmica ou outros experimentos. Para mim, a linguagem vai surgindo de acordo com o que cada investigação pede”, descreve Renee.

Ela diz que tem  se interessado cada vez mais por processos experimentais, pelo uso de materiais e imagens que carregam vestígios de uma experiência e pela possibilidade de transformar essas coisas em outras formas de narrativa. “Meus trabalhos nascem muito desse lugar entre o que é vivido, o que é lembrado e o que pode ser inventado a partir da memória”, acrescenta.

A arte sempre fez parte da vida de Renee, mas ela só conseguiu entender isso de verdade alguns anos atrás. Em 2024, após um itinerário de descobertas artísticas desde 2013, ela consolidou uma relação intensa com a fotografia. 

“Por isso, ser selecionada para o Arte Pará tem um significado muito grande para mim. Minha trajetória como artista ainda é recente e minha formação aconteceu por caminhos bastante diferentes dos convencionais. Estar em uma exposição com a dimensão e a importância do Arte Pará me faz perceber que esse percurso que venho construindo começa a encontrar outros espaços e a alcançar uma dimensão que eu ainda não imaginava quando comecei. Existe uma estrada muito longa pela frente, e isso é muito bom”, enfatiza Renee Miranda, que não para de pesquisar possibilidades em arte.