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Espetáculo teatral gratuito celebra a ‘malandragem’

Ato dos alunos da Escola de Teatro e Dança da UFPA homenageia espiritualidade

Fernando Assunção

Zé Pelintra foi um homem nordestino, que saiu do sertão em busca de oportunidades de vida no Rio de Janeiro. Ele chega lá quando os negros, ex-escravizados, habitam as favelas e é lá que ele é amparado. A concepção da malandragem surge porque ele sabia como se esquivar das adversidades da vida. Conhecedor de ervas, ele sabia como usá-las para a cura, e rápido a sua fama se alastrou: do doutor ao morador da favela. Com a melhora de vida, ele começou a proteger pessoas desamparadas pela sociedade, como negros em situação de miséria, menores abandonados, ‘mulheres da vida’ e pessoas que eram presas por exercerem práticas criminalizadas na época, como rodas de samba e de capoeira”.

A fala é da Mãe Jeise Lima, sacerdotisa da Tenda Ogum Beira Mar e Mamãe Oxum e proprietária do Canto do Zé, espaço cultural de Belém, que homenageia a entidade cultuada em religiões de matriz africana Zé Pelintra e a linhagem de seres espirituais conhecida como “malandragem”. O local foi escolhido pelas professoras Andréa Flores e Marluce Oliveira, da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (Etdufpa), para ambientar o espetáculo performático “Sagrada Malandragem”, que estreia nesta quinta-feira (30), com pré-estreia um dia antes, na quarta. A entrada é gratuita, mas contribuições voluntárias serão aceitas.

Segundo a professora Andréa Flores, o espetáculo surgiu de um estudo sobre espiritualidade. Com artistas em sua maioria negros, mulheres e LGBTQIA+, a docente conta que foi da necessidade de resistência frente a uma conjuntura política considerada desfavorável às minorias políticas, que a escolha da “malandragem” como temática geral foi feita. “Os ‘malandros’ são uma figura de inspiração para a luta antirracista e de resistência, que ganham ainda mais importância no contexto atual, onde o ódio e a discriminação parecem estar em evidência, além da piora econômica, como o aumento do desemprego de nossa juventude. Invocando a ‘malandragem’, a gente invoca também possibilidades de luta, jogo de cintura para driblar a situação vigente. O malandro bate de frente com o poder e a gente invoca isso para o nosso povo”, destaca.

Mas apesar da grande inspiração na fé de matriz africana, o espetáculo ainda traz representações de outras religiões, como o cristianismo. “Como a gente fala de espiritualidade em um contexto geral, se verá a figura de uma Grande Mãe, que é uma referência também a Nossa Senhora de Nazaré, assim como do próprio Jesus Cristo. Também trataremos daquela fé, que não necessariamente se apoia em uma figura específica, mas sim no Sagrado, em todas as suas formas”.

Com um formato sem uma sequência lógica, de início, meio e fim, onde o sentido é atribuído pelo público, o espetáculo foi construído de maneira colaborativa. “Todos os criadores, desde atores, cenógrafos, dramaturgos e equipes técnicas, tiveram voz e espaço na construção do espetáculo como um todo. A direção atua na montagem do espetáculo, mas não somos a voz de comando. O resultado final é uma composição de todas as criações que estão inseridas nesse processo”, diz.

O espetáculo “Sagrada Malandragem” tem pré-estreia no dia 29 de junho e segue em cartaz no período de 30 de junho a 09 de julho, sempre ás 19 horas. O Canto do Zé, fica na Travessa de Breves, nº 139, esquina com a Rua de Óbidos, no bairro da Cidade Velha, em Belém.

“Convidamos à partilha de histórias, musicalidades, realidades ficcionais e o desenrolar de um ato cênico que celebra a ‘malandragem’ como força de vida, em tempos de dor, preconceito histórico e perdas. Em ‘Sagrada Malandragem’, o público pode embriagar-se de teatro, esperança e fé, em plena rua, em pleno bar, numa celebração do existir, do resistir e do re-existir, em estado de arte”, finaliza a diretora.

 

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