Corrida de rua se torna movimento crescente nos núcleos urbanos

Análise clínica antes de por os pés no asfalto é essencial

Dominik Giusti

A comunicadora Betty Dopazzo foi fumante durante 30 anos. Ela começou na adolescência, aos 14, mas com o avanço dos anos, sabia que tinha que parar para o bem de sua saúde. E assim o fez, em 2002. Mesmo sentindo os sintomas da abstinência, como irritabilidade e até mesmo uma depressão, não desistiu. E para complementar os esforços para abandonar o vício, ela começou a correr. “O prazer da corrida substituía o do cigarro”, relembra. Mas, para isso, foram necessários vários procedimentos médicos e exames. “Não aguentava correr nem um minuto na esteira, então, fui antes no médico”, explica.

É fato que as corridas se tornaram verdadeiros fenômenos urbanos e é possível observar grupos de academias, amigos e até mesmo circuitos incentivados por empresas e instituições. Só que antes de integrar um grupo desses para começar a se exercitar, é preciso tomar alguns cuidados e avançar nos desafios do esporte de acordo com uma preparação, mês a mês. Como Betty já sabia dos danos causados pelo cigarro em seu corpo, ela fez diversos testes e exames médicos para se certificar de que poderia continuar correndo sem riscos à sua integridade física, após tentar correr por conta própria. 

Betty Dopazzo foi fumante durante 30 anos e agora é adepta das corridas ()

 

“Comecei a correr mesmo sem ter nenhuma condição para fazer isso. Tentei participar de corridas sem ter condicionamento, para melhorar a ansiedade e a abstinência. Mas depois percebi que poderia ser um risco e fiz exames cardiológicos e do pulmão”, revela. Esse cuidado foi muito importante, de acordo com o cardiologista Eduardo Augusto Costa, que é também professor coordenador da disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA) e ex-presidente da Sociedade Paraense de Cardiologia.

“O exercício físico é recomendado para a melhoria da qualidade de vida, é realmente maravilhoso para o corpo. Mas o mais importante é saber as suas reais condições de praticar um esporte como a corrida, por exemplo, saber como está o seu corpo. Às vezes o paciente se sente bem, tem o dia a dia normal, mas pode ter algum fator que merece atenção antes de correr”, explica o médico. 

Cuidados

O médico ortopedista Helton Nóvoa é enfático: “quanto maior a idade e complexidade da corrida, maior necessidade de controle de exames médicos e preparação do atleta ou praticante”, orienta. Ele lembra também que não se deve esquecer a importância de uma vestimenta correta para a prática da corrida, com roupas e calçados leves, que possuam bom sistema amortecimento. “É necessário ainda uma alimentação equilibrada, com uso de suplementos, se necessário. E também do local, clima e horário para a prática esportiva”, comenta Helton Nóvoa. 

Sobre os riscos, ele alerta para cuidados com a pisada, com a coluna, e para quem já possui alguma pré-disposição de problemas no coração ou tenha diabetes. O médico revela que muitos pacientes chegam ao consultório para avaliação e acabam descobrindo um desses fatores - que se não forem tratados da forma correta, com atenção, podem levar até à morte. “A maioria só procura o consultório depois que tem algum problema. Muitos fazem a avaliação física das academias e acham que é suficiente, mas só um médico é capaz de avaliar a saúde do paciente”, alerta o ortopedista. 

Doutor Helton Nóvoa, ortopedista (Naiara Jinknss)

 

Ele explica, por exemplo, que se um paciente que tenha hérnia de disco for correr na rua - no asfalto - isso poderá prejudicar potencialmente o quadro da lesão na coluna, por conta do piso irregular. Por isso, a orientação para os pacientes que possuem maiores fatores de risco é sempre a busca de locais adequados para o treino. “A pessoa não pode ir para lugares inadequados, sob o risco de cair e ter lesões ortopédicas”, explica.

Outros testes que ele indica são o da pisada, que avalia a condição dos pés, e a canometria, para medir o tamanho das pernas - mais um fator que pode alterar a performance do corredor. “Isso pode ser corrigido com uso de palmilhas, fisioterapia, exercícios. O médico reconhece que as corridas são crescentes e estão presentes em diversas capitais, como um estímulo aos sedentários. “É uma vantagem, e para nós, como médicos, que absorvemos uma demanda por informações, exames e tratamentos no nosso consultório, é importante sempre esclarecer que é preciso estar apto para correr”, defende. 

Vantagens

 

Dada as devidas orientações para os cuidados necessários antes de corre, o médico Helton Nóvoa é entusiasta da prática, por considerar a corrida extremamente salutar e que traz bons resultados aos corredores. “A nossa única observação é ter cuidados para fazer com segurança cardiorrespiratória. Correr faz bem para o coração, para o pulmão, para a perda e manutenção do peso. Os benefícios são muito grandes, inclusive no aspecto emocional, libera endorfina e promove o bem-estar, melhora a qualidade do sono, insônia, diminui a ansiedade”, explica. 

Foi exatamente o que aconteceu com a Betty Dopazo, que considera a sua história uma baita superação e hoje tem orgulho de dizer que venceu o tabagismo e melhorou a vida com a corrida. Ela também se orgulha de dizer que já participou da Corrida do Círio, em Belém, e da Meia Maratona do Rio de Janeiro - que tem mais de 22km. “Ano passado viajei novamente ao Rio e fiz a Maratona, algo que jamais que pensei que fosse conseguir, sair da Praia do Recreio e ir até o Aterro do Flamengo correndo”, diz.

O médico Eduardo Costa reconhece que as corridas melhoram potencialmente a qualidade de vida e para quem deseja iniciar na prática, ele recomenda começar com caminhadas diárias por no mínimo 40 minutos. “Nosso corpo foi feito para se movimentar, mas vivemos em um tempo em que ficamos mais parados do que em movimento. Então, a caminhada é o básico e evita a evita a artrose, como diz o paraense, a pessoa não vai ficar entrevada”, conclui.

 
 

DICAS

 

Alongue muito bem a musculatura porque na areia a exigência muscular é maior;

A areia fofa é um terreno que exige força. Ela serve como uma resistência extra a ser vencida. Por isso é preciso redobrar a atenção;

A areia batida possui muito impacto, o que diminui o estresse das articulações. O ideal é mesclar os tipos de terreno no verão e procurar praias com solo diferente;

Não corra descalço. É importante usar tênis independentemente do tipo de terreno;

Hidrate-se a cada 15 minutos e ao fim do treino mantenha um ritmo mais leve. Dessa forma os músculos relaxam;

Evite correr em praias de tombo, pois poderá facilitar a aparição de lesões nos joelhos e nos tornozelos, já que o terreno inclinado força demais as articulações;

Correr na areia é mais difícil do que correr na calçada ou em uma esteira. Por isso não exagere na intensidade das passadas, para não se machucar ou parar o treino na metade.

O Liberal