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TANTO MAR: REGISTROS E IMPRESSÕES DE PORTUGAL

Por Anna Carla Ribeiro

Quinzenalmente, a jornalista paraense Anna Carla Ribeiro, que está residindo em Lisboa, irá apresentar locais, pessoas e tradições bem marcantes de Portugal, que tem íntima relação com o Brasil e os paraenses. O conteúdo também está disponível em Oliberal.com.| anna.ascom@gmail.com

Cemitério dos Prazeres: um autêntico museu a céu aberto

Espaço reúne restos mortais e memórias de personalidades marcantes de Portugal

Anna Carla Ribeiro

Pode até parecer clichê, mas as “cidades dos mortos” podem ser sinônimo de história viva. Visitar o Cemitério dos Prazeres, localizado na divisa entre os bairros da Estrela e de Campo de Ourique, em Lisboa, é mais do que só passear em um ambiente tranquilo, arborizado e repleto de arquitetura. Também é uma forma de conhecer de perto o passado não só da capital portuguesa, mas também de uma época em que não só a Europa, mas o mundo – incluindo o nosso Brasil - era outro.  

O Cemitério dos Prazeres foi construído em 1833 para acolher as milhares de vítimas mortais da epidemia de cólera, que assolou Lisboa nesta época. Por questões de saúde pública, foram interditados os sepultamentos em espaços religiosos, como era habitual.

É lá que estão enterrados grandes nomes da história de Portugal. Por ter sido construído onde estavam os bairros das residências aristocráticas, acabou por se tornar o cemitério das famílias com maior poder e influência do país. Nesse espaço, pode-se encontrar grandes artistas, políticos e aristocratas que marcaram diversas gerações, além de brasileiros ricos que decidiram viver os últimos momentos de suas vidas do outro lado do Oceano Atlântico.

Por mais mórbido que pareça, o cemitério, por si só, já é de uma beleza singular. Não à toa, é o local que abriga a maior e mais antiga concentração de ciprestes da Península Ibérica. Essas árvores dão um toque especial ao espaço, que possui mais de 12 hectares. Só que ainda tem mais. O cemitério esconde uma vista privilegiada da cidade de Lisboa: para a famosa ponte 25 de Abril e a margem sul do rio Tejo.

“Antes da pandemia, havia cerca de 600 a 700 pessoas diariamente a visitarem o cemitério. Na altura da Páscoa, provavelmente chegamos a receber mais de 1.000 pessoas por dia”, destacou o técnico superior em História, Licínio Fidalgo, que é coordenador do espaço. Entre os famosos ali enterrados, estão o compositor Carlos Paredes, o apresentador e ator Henrique Mendes, os poetas Mário Cesariny e Cesário Verde, e o ex-presidente de Portugal, Mário Soares.

Sem dúvidas, um dos pontos marcantes nos Prazeres é o mausoléu dos Duques de Palmela, considerado o maior mausoléu privado da Europa. Construído em 1847, dá a impressão de ser um pequeno sítio, construído dentro do cemitério para que a família Palmela e seus servos pudessem descansar. Na parte ao ar livre, estão sepultados os criados – homens de um lado e mulheres do outro. Na capela, em forma de pirâmide, repousam os familiares e alguns amigos, com o Duque de Palmela no centro.

Cemitério dos Prazeres / Portugal. (Divulgação)

Desencontros na vida e na morte – Uma das histórias curiosas do Cemitério dos Prazeres envolve o romance entre o poeta Fernando Pessoa e a sua única namorada que se tem notícia, Ofélia Queiroz. Nesse caso, houve um desencontro do casal também pós-morte. “Ela não teve sorte nenhuma com ele”, brincou Licínio Fidalgo.

Isso porque enquanto Fernando Pessoa estava enterrado no Cemitério dos Prazeres, os restos mortais de Ofélia Queiroz ainda não tinham sido descobertos. Quando a antiga sepultura de Ofélia foi achada, a ossada foi levada para o Cemitério dos Prazeres. Porém, o seu amado em vida tinha sido, pouco tempo antes, trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos.

Rastro dos nossos conterrâneos – Também há um tanto de Brasil no cemitério. Um dos jazigos mais requisitados pelos turistas é o do carioca António Augusto Carvalho Monteiro, conhecido por ter sido proprietário da Quinta da Regaleira, em Sintra. Assim como a Quinta, o mausoléu de António Monteiro foi desenhado pelo artista italiano Luigi Manini.

Considerado pela Câmara Municipal de Lisboa de relevância histórica, o jazigo da família do brasileiro Comendador Francisco de Sousa Mesquita e sua família está abandonado. Pelos trâmites comuns, poderia ser colocado à venda. Porém, pela arquitetura um tanto curiosa, que de um lado possui a escultura de um índio e do outro a de um colonizador português, ambas com o brasão do Brasil abaixo, ficará sob posse da própria administração pública municipal. “É uma forma de união dos nossos povos que queremos preservar”, considerou Licínio Fidalgo.

Já o jazigo de Jaime Zuzarte Cortesão, um conhecido médico, político, professor, escritor e historiador português, chama a atenção por ter sido inspirado nas obras do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Jaime, que era contra a ditadura militar portuguesa, ficou exilado de 1940 a 1957 no Brasil, onde se dedicou ao ensino universitário. É possível identificar uma semelhança clara entre o jazigo e o Palácio do Congresso Nacional, localizado em Brasília, com as clássicas duas colunas em destaque.

Cemitério ativo – “Foi ontem”, respondeu tranquilamente Licínio Fidalgo, quando questionado sobre quando teria sido o último sepultamento ocorrido nos Prazeres. Sim, o cemitério até hoje continua em perfeito funcionamento. Claro que só poderá ser enterrado no local o privilegiado que tiver um jazigo de família ou aquele que fizer a compra de um jazigo que possa estar à venda, por motivo de abandono dos seus antigos proprietários.

Mais um motivo para conhecer o Cemitério dos Prazeres é saber que, mesmo rodeado de memórias centenárias, ele continua a escrever a história daqueles que habitam a cidade de Lisboa. É um bom exemplo de espaço que sabe preservar bem o passado, mas que ainda está aberto para novas narrativas.  

Serviço: O Cemitério dos Prazeres tem entrada gratuita. Além disso, a Câmara Municipal de Lisboa organiza visitas guiadas, também de graça, ao público em geral. Para maiores informações, acesse www.cm-lisboa.pt

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