A campanha eleitoral para a Presidência da República começou oficialmente neste domingo (16), mas a disputa entre lulismo e bolsonarismo já vinha sendo
travada há meses. O que se inicia agora é uma nova etapa, na qual a exposição pública dos candidatos tende a aumentar e a eleição deverá ganhar contornos ainda mais polarizados. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) largam como os principais nomes da corrida, enquanto os demais candidatos enfrentam o desafio de romper uma disputa que, neste momento, concentra a maior parte das atenções e das intenções de voto nos dois polos.
A fotografia das pesquisas, entretanto, não significa resultado antecipado: faltam semanas de campanha, propaganda eleitoral, debates, ataques e, sobretudo, a consolidação das escolhas de um eleitorado ainda sujeito a mudanças. Os levantamentos divulgados às vésperas e imediatamente após o início oficial da campanha confirmam essa dinâmica. Na pesquisa Quaest, Lula aparece com 38% no primeiro turno, contra 31% de Flávio, e, em um eventual segundo turno, registra 43% contra 40% do adversário, em empate técnico. Já a BTG/Nexus divulgada na segunda-feira mostra 41% a 36% no primeiro turno e 47% a 44% no segundo, também dentro da margem de erro.
A CNT/MDA, por sua vez, apontou 42,4% para Lula e 28,7% para Flávio no primeiro turno e 48% a 39,1% no segundo. Em síntese, Lula mantém um leve
favoritismo, mais nítido na primeira etapa e menor quando a disputa fica restrita aos dois principais polos.
A avalanche de pesquisas que marca este início de campanha ajuda a produzir uma espécie de termômetro permanente da eleição. Ao mesmo tempo em que informa, também alimenta a própria dinâmica da disputa, porque cada variação de dois ou três pontos passa a ser interpretada como sinal de crescimento ou queda – mesmo que, estatisticamente, esteja dentro na margem de erro.
Paralelamente à corrida presidencial, haverá uma batalha particularmente acirrada pelo Senado. Em 2026, cada unidade da Federação elegerá dois senadores, o que amplia o espaço para alianças, disputas internas e confrontos entre grupos políticos. O Senado deverá funcionar, portanto, como uma extensão da polarização nacional, mas também como arena para a formação de maiorias políticas capazes de influenciar o próximo governo.
Nesse ambiente, os debates eleitorais televisivos para cargos majoritários parecem perder importância a cada eleição. O modelo tradicional, baseado em
candidatos reunidos diante das câmeras para apresentar propostas e confrontar adversários, disputa espaço com redes sociais, cortes de vídeo, transmissões digitais e estratégias de comunicação cuidadosamente controladas. Lula ainda não confirmou presença nos debates, enquanto Flávio condiciona sua participação à presença do petista. A tendência das duas campanhas é evitar
situações nas quais seus candidatos possam se transformar em alvo dos adversários ou produzir conteúdos negativos que rapidamente ganhem as redes.
A estratégia tende a ser particularmente importante para Flávio Bolsonaro. O senador começa a campanha com rejeição elevada: 50% dos entrevistados na pesquisa BTG/Nexus dizem que não votariam nele de jeito nenhum, contra 48% de Lula. O desafio aumenta quando se observa o eleitorado feminino. Levantamento Datafolha divulgado em julho apontou Lula com 50% e Flávio com 40% entre as mulheres em um eventual segundo turno; na rejeição, 50% das eleitoras disseram que não votariam no senador de forma alguma, ante 44% para Lula.
Flávio também terá de administrar a repercussão de episódios que já chegaram ao “coração” de sua campanha, como suas mensagens pedindo milhões de reais ao ex- banqueiro Daniel Vorcaro e a escolha de Alfredo Gaspar (PL) para vice. No caso de Gaspar, há uma investigação relacionada a uma acusação de estupro de vulnerável, com versões conflitantes, enquanto o deputado nega as acusações. É justamente nesse ponto que a campanha poderá mudar de tom. Se Lula começa numericamente à frente, a tendência natural é que seus adversários tentem reduzir essa vantagem; se Flávio parte atrás e com rejeição elevada, sua prioridade será ampliar o próprio eleitorado e, simultaneamente, aumentar a resistência ao adversário.
A eleição deverá ser cada vez mais uma batalha pela definição de quem será menos rejeitado no momento decisivo. O lulismo tentará preservar sua vantagem e transformar a eleição em um julgamento sobre o governo; o bolsonarismo buscará mobilizar a identidade política associada a Jair Bolsonaro, preso em Brasília pelo cometimento de vários crimes – entre eles, o de tentativa de golpe de estado, em 2023.
Entre os dois polos, estarão milhões de eleitores que ainda poderão decidir o resultado. A campanha apenas começou – e, até outubro, muita coisa ainda poderá mudar.
