O debate da TV Liberal, realizado na noite de terça-feira (29), evidenciou uma disputa marcada por forte contraste entre confronto político e apresentação de propostas. A menos de uma semana do primeiro turno, os três principais candidatos ao governo do estado – Daniel Santos (Podemos), Hana Ghassan (MDB) e Araceli Lemos (PSOL) – tiveram quatro blocos para tratar de temas livres e previamente definidos. Saúde, saneamento, segurança, meio ambiente, infraestrutura e corrupção apareceram como assuntos centrais, mas a dinâmica do encontro foi frequentemente deslocada para a troca de acusações entre os candidatos. A mediação foi de Priscila Castro, jornalista e âncora da emissora. Um dos principais eixos do debate foi a concessão dos serviços de água e esgoto, tema que funcionou como espécie de fio condutor das discussões. Daniel questionou Hana sobre a concessão da Águas do Pará, enquanto Araceli também levou o assunto para o confronto com Daniel ao abordar o saneamento em Ananindeua. O tema permitiu que cada candidatura apresentasse uma leitura distinta sobre o papel do Estado na prestação de serviços públicos. O tema do abastecimento de água apareceu no debate como um tema de forte dimensão social e política. A saúde pública foi outro campo importante de diferenciação. As perguntas abordaram filas de atendimento, construção de hospitais e a situação de gestantes no Hospital Anita Gerosa, em Ananindeua. O interessante, do ponto de vista eleitoral, é que a saúde permitiu aos candidatos combinar propostas para o futuro com referências a problemas concretos da população. Ao mesmo tempo, o debate revelou uma característica recorrente das campanhas: questões administrativas rapidamente se transformam em discussões sobre responsabilidade política, gestão passada e alianças. A corrupção produziu talvez o momento mais claramente marcado pela personalização do confronto. A pergunta de Hana a Daniel sobre a aquisição de uma mansão levou os dois a uma sequência de acusações e respostas, deslocando a discussão de políticas públicas para a trajetória e os episódios associados aos próprios candidatos. Nos temas de meio ambiente, infraestrutura e cultura, apareceu uma dimensão particularmente importante para uma eleição no Pará: a tensão entre desenvolvimento econômico, preservação ambiental e políticas sociais. Mudanças climáticas, desmatamento, garimpo, escoamento da produção e pedágios foram discutidos dentro de diferentes visões sobre o modelo de desenvolvimento estadual. Em termos de comunicação política, o debate mostrou três estratégias distintas de construção discursiva. Daniel buscou associar sua candidatura à ideia de mudança e à própria trajetória pessoal, como foco no empreendedorismo; Hana enfatizou experiência administrativa e políticas de proteção às mulheres; e Araceli procurou apresentar-se como alternativa aos dois polos principais do confronto, associando sua trajetória política a propostas de caráter social e à crítica à privatização da água. O dado mais significativo está, nesta perspectiva, em observar como cada candidatura procurou ocupar um espaço específico diante do eleitor. A poucos dias da votação, o encontro da TV Liberal funcionou como um retrato das diferentes narrativas que disputam a interpretação sobre os problemas e os caminhos possíveis para o Pará.