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Repórter 70

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Mais tradicional coluna do jornalismo paraense. Aborda temas do cotidiano com atenção especial à economia e aos bastidores da política do Pará e do Brasil. | Twitter: @reporter_70

inteligência emocional

Discordar sem destruir

Patrícia Caetano

6 de outubro de 2026 às 17:00

Depois das eleições, a rotina volta ao normal, os compromissos reaparecem e a vida segue. O resultado das urnas, porém, deixa uma reflexão que vai muito além da política: como convivemos com quem pensa diferente de nós?

As eleições apenas tornam mais visível um desafio presente em praticamente todas as áreas da vida. Ele aparece dentro das famílias, nas empresas, nas sociedades empresariais, nas equipes de trabalho, nas igrejas, nas amizades e nos relacionamentos. Pessoas diferentes terão opiniões diferentes. O problema não está na discordância. Ele começa quando deixamos de discutir ideias e passamos a atacar pessoas.

Vivemos um tempo em que muitas opiniões passaram a ser tratadas como extensão da própria identidade. Discordar de um posicionamento, para alguns, parece significar rejeitar quem o defende. E assim conversas viram disputas, reuniões se transformam em confrontos e diferenças naturais passam a produzir afastamentos.

É justamente nesse ponto que a inteligência emocional se torna necessária. Maturidade emocional não significa concordar com tudo, abandonar convicções ou permanecer em silêncio diante daquilo que consideramos errado. Significa aprender a discordar sem destruir. É possível defender uma posição com firmeza sem agressividade. É possível ouvir sem concordar. É possível estabelecer limites sem humilhar.

No ambiente profissional, essa habilidade é indispensável. Sócios podem discordar sobre investimentos, gestores sobre estratégias, equipes sobre processos e lideranças sobre prioridades. Empresas não crescem porque todos pensam igual. Crescem quando conseguem transformar diferentes pontos de vista em decisões melhores, sem permitir que divergências se transformem em disputas pessoais. Dentro das famílias acontece o mesmo. Pais e filhos pensam diferente. Casais divergem sobre dinheiro, prioridades, educação dos filhos e projetos de futuro. Amigos mudam de opinião. Relações saudáveis não dependem de unanimidade, mas de respeito suficiente para que uma diferença não destrua tudo aquilo que existe além dela.

Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja apenas: “quem venceu?” ou “quem estava certo?”. A pergunta deveria ser: o que fazemos depois da discordância? Depois da eleição. Depois da reunião. Depois da discussão. Depois de ouvir algo que não gostaríamos de ouvir. É possível continuar construindo juntos? É possível reconhecer um acerto em alguém de quem discordamos? É possível admitir um erro de quem está do nosso lado? É possível mudar de ideia sem sentir que perdemos uma batalha? Inteligência emocional também é entender que nem toda provocação merece resposta, nem toda discussão precisa ter um vencedor e nem toda diferença precisa ser resolvida imediatamente. Algumas situações exigem posicionamento. Outras pedem silêncio. Algumas precisam de diálogo. Outras precisam de tempo.

Talvez o verdadeiro sinal de maturidade não esteja na ausência de conflitos, mas na maneira como atravessamos cada um deles. Pessoas emocionalmente maduras não são aquelas que nunca se irritam ou nunca discordam. São aquelas que reconhecem suas emoções, administram suas reações e escolhem como agir. No fim, inteligência emocional talvez seja exatamente isso: entender que não precisamos estar sempre do mesmo lado de uma opinião para permanecermos do mesmo lado do respeito. E fica uma provocação: de que adianta exigir equilíbrio dos políticos, maturidade dos gestores, respeito dos familiares, bom senso dos colegas e responsabilidade de quem está ao nosso redor, se no primeiro confronto somos nós que perdemos o controle?

Talvez a mudança que tanto cobramos dos outros precise começar justamente na forma como reagimos quando alguém nos contraria. Porque o verdadeiro teste não é descobrir como pensamos quando todos concordam   conosco. É descobrir quem nos tornamos quando alguém ousa pensar diferente.

Patrícia Caetano
patymops@gmail.com
@soupatriciaccaetano